sexta-feira, 28 de março de 2014

SOBREVIVENTE - a Paul Celan

Ríspido olhar sobrevoa existência
Acima dos corvos nenhum voo é rasante
Ecoa na memória a sobrevivência
Que tantos venceram a história distante
E nenhum olhar trouxe da concentração
Mais palavras envenenadas de vida cortante
Que aquela que separa os ventrículos do coração
E faz correr rios de histórias
Em dócil imaginação
Da morte memórias

Chega mansa por caminhos de palavras
A memória da vida a palpitar a história
Descansa destinos de mágoas
Uma dor sentida vangloriando a glória
De tão cruel poderio
Tão insipido vazio
Vil sentir

E o rio ali tão perto
A sede do deserto
A fome da loucura
Esse amor à morte desperto
Em tão doce abraço de ternura
E de assim da vida desistir

musa

quarta-feira, 26 de março de 2014

ENLEIOS

ENLEIOS

Desarmonizo os teus cabelos
Em afagos anelares dos meus dedos
Soltos os caracóis suaves e belos
Revelando em madeixas teus segredos

E nas mãos a suave lembrança de os sentir
Esses carinhos entranhados de ternura
Cabeleira de criança solta ao vento a sorrir
A serenidade do tempo e a doce loucura

Ah… quantos enleios dos dedos desprendidos
Perdem-se de encantos na maciez dos relevos
Gozam a sedução dos caracóis assim sentidos

Insensatez instante em ondulados pensamentos
Deixo perdidos nos teus cabelos os meus dedos
Como rédeas soltas em crinas de suaves ventos

musa

A ERECTO POETA

A erecto poeta

Túrgido profano a mão
Eleva altar da voz
Sagração do sentir
Luz transfigurada
Silêncio erecção
Carnal Calíope
De um beijo
Sentido

Áspera a mão a queimar
Na teia fibra dos cabelos
Prende a boca a gozar
O verso que olhar não entende
E os poemas há-de sabê-los
Somente a poesia o sente
E ninguém quer compreendê-los

Hei-de saber
A tua mão acendendo a cabeleira
Na tua voz santo sepulcro do prazer
Como se pode dizer
Poesia dessa maneira
...
musa — com Vitor Hugo Moreira.

 OLIMPO BAR - PORTO

terça-feira, 25 de março de 2014

DESOBEDIÊNCIAS

DESOBEDIÊNCIAS

Doce claridade esfria luz obediente
E sinto-lhe a frialdade dessa ternura
Envolvendo-me o olhar terno e quente
Em desobediente e frágil loucura

Manto de luz cobre o sentir na ilusão
Espessa de olhos cheios de lagrimas
Acesa a chama seduz essa solidão
Onde clareiam disformes as magoas

E sabes porque faz um frio que ninguém sente
Como se o tempo fosse sempre em mim inverno
Que importa a luz e o calor que a vida consente

Eterno em mim desobediente o sentir dos sentidos
Pois que a vida não é mais do que o fogo do inferno
Onde desobedientes vão parar todos os perdidos

musa

FRIA PRIMAVERA

FRIA PRIMAVERA

Onde desabrocharam as flores que eu não vejo
Que ventos levaram odores que eu não sinto
Que asas voaram céus que desejo
Ser primavera que em flor consinto
Esperando quieto ensejo
Campos ao olhar floridos
E no meu ser despedidos
Este sentir que prevejo
Longe dos meus sentidos
Em flor frialdade
Instante saudade

Por onde andam perfumes da primavera
As cores salpicando o verde da paisagem
Sol bordando de calor iluminada esfera
Que aquece em luz e cor dócil estiagem

Olho além horizonte e tudo é frio
Do azul do céu agora tão cinzento
Prevalece no olhar húmido sombrio
Um abraço de maresia trazida pelo vento

Nas árvores tímidas folhas de um verde tom
Quase esmaecido pela gélida ventania
Estão tão sozinhas e o mar dá-lhe o som
Da dança frenética das ondas em agonia
Uivando o vento sobre as aguas revoltadas
A frialdade em agitadas vagas alteradas
Não há mais frio que uma primavera à beira-mar
E ao longe os campos de um verde acinzentado
As árvores se curvando a um Neptuno a gritar
Nos céus a chuva bramindo cântico agitado
E eu aqui sentindo este Março por desflorar
O perfume das flores no meu olhar fechado
Em silêncio escondido entristecido chorar
No mar e em terra há flores por abrir
Há instantes por sentir
Há flores por florir

musa

AO INCÓGNITO POETA - UM POETA NÃO SE PEGA (Sebastião Alba) - Parte 1


AO INCÓGNITO POETA


Há passos com fome e frio
Onde perdido o poeta anda escondido
Do rumo devaneio vazio
Nas bermas da alma alucina o sentido
E no olhar anda à deriva sombrio
Um gozo descanso desmedido
Do deixa andar
Ao desvario

Enfrenta a vida na incógnita existência
Onde parece naufragar
Palavras de pura demência
Que brilham a calma do seu olhar
E a aparência de mendigo
A alva inocência e o castigo
Levitam a loucura
Da condição de sem-abrigo
Onde a poesia perdura
E o poema é o seu amigo

Não lhe falem de inspiração
A ele basta-lhe a solidão

(in memória de Sebastião Alba)
...

musa

segunda-feira, 24 de março de 2014

Entre o Sono e o Sonho, Vol V - Antologia de Poesia Contemporânea 2014






PARABÉNS CHIADO EDITORA - com o meu poema "ROSAS DE MAR..."

Foi assim a cerimónia de lançamento do Volume V da nossa Antologia de Poesia Contemporânea "Entre o Sono e o Sonho", pelo olhar de Prasad Siva. Muito obrigado a todos os presentes e os nossos parabéns a todos os antologiados de 2014.
Entre o Sono e o Sonho, Vol V - Antologia de Poesia Contemporânea


TRISTE LUZ

TRISTE LUZ

Nos fiapos da solidão que se ampara de mim desprendem se tristezas evadindo se de silêncio no olhar a lugar algum que eu não saiba sentir.
Esta insatisfação que se apodera de mim mostrando-me a estranha sensação de nada ter e quase não ser além de pedaços trémulos de uma vida que se deixa viver.
A visão conturbada e bruxuleante de uma chuva de memórias que teimam ser e o sentir de todos os dias sem mudar uma vírgula dos sonhos arrumados na gaveta das necessidades ao fundo de inocentes saudades sem tempo de se iludirem.
Tenho um frio entranhado no vazio do olhar que ninguém parece entender e o sorrir escondido por entre a pele engelhada dos gritos abafados pelo calor de um Abraço por dar.
Nem dos beijos perdidos por entre lembranças sobram as palavras aprendidas em silente ilusão das desgarradas dos segredos nunca inventados em lábios formulados de sentimento a desfalecer agonias tímidas.
No fundo sobra a angústia de um final que tarda em acontecer pela magia das alvoradas despidas de afetos incumpridos no cerne melancólico da sensibilidade indicando o caminho de luz em busca de merecido descanso.
Sinto me tão cansada... e só...
musa

Só tu para transformar assim a tristeza...
...Em belo...

Beijo-te... Silenciosamente...


António

sexta-feira, 21 de março de 2014

SE HOUVESSE UM POEMA - Feliz DIA MUNDIAL DA POESIA

Há nos silêncios mais profundos
Um sentir que de palavras se desfaz 
Como o pó soprado dos tempos
Um deus criando mundos
De poemas e de ventos 

Se houvesse um poema
Oração de amor e paz
E a palavra doce serena 
Que no verso se desfaz
Quimera poesia

Além de todo sentir dos pensamentos
Os sentidos em colo de verso
O sonho que se desfazia
No pó dos sentimentos
A cobrir o universo
Com a rima nobre dos tempos
Em encanto loucura e magia
O poema assim disperso
O sentir da fantasia

Se houvesse um poema por dia
A silenciar os sentidos
Que feliz que eu seria
Todos os meus dias vividos 
...
musa

quinta-feira, 20 de março de 2014

MENINA DAS ÁGUAS DO RIO - Feliz Primavera

Murmuram as águas do rio
Um pranto quase sorrir
Ao leito do rio eu confio
Toda alegria do meu sentir

Em criança no rio nadei
As águas corriam baixinho
Às pedras molhadas confessei
Os sonhos os risos e o carinho

Nas águas límpidas e serenas
Brincavam meus sonhos de infância
Aos peixinhos declamava poemas
Ainda é grata essa lembrança

Era um rio de margens frondosas
Um pequeno açude fazia a água bailar
Águas perfumadas como as rosas
Bucólica paisagem idílico lugar

Haverá sempre um rio na recordação
De Verões refrescados pelas memórias
A saudade sentida na alma e no coração
Desse Tuela das minhas doces histórias
musa

(rio Tuela – Ponte da Pedra – Torre de D. Chama)

quarta-feira, 19 de março de 2014

TI BEATRIZ - MEMÓRIA DE UM PAI

Ti Beatriz (em memória de um Pai)
A última vez que a vi, saía do cemitério, ela cambaleando amparei-a, sem me reconhecer respondeu-me, sabe menina, já pouco vejo, são os diabetes. Tinha eu trinta anos.
E naquele abraço juntei a infância a tantas memórias esquecidas e a saudade querendo romper com o passado, uma aldeia transmontana onde resgatava assim as lembranças perdidas e o sentir rebuscado no fundo olhar espessado pela traição da saúde, toldado pelo tempo ingrato de tantas privações, ainda que uma pobreza às vezes feliz, prevalecia a tristeza dos dias fartos de mingua e desespero de sonhos.
Mãe de dez filhos, quando me reconheceu, encheu o olhar de lágrimas e disse-me, ai minha filha, eu era tão vossa amiga, há tanto tempo que não te via e agora quase nem te reconheço, falta-me a vista, tolda-se-me a memória, miséria de vida.
Agarrou-me as mãos e era ali que estava toda a minha infância.
Gémea da casinha amarela, vivíamos porta com porta, debaixo do mesmo telhado, o mesmo patim de cantaria onde tantas vezes adormecíamos os mesmo sonhos, vizinha da minha bisavó, com ela passei os melhores dias da minha infância e juventude, engrossando a braçada de filhos que Deus lhe deu, fazia-me sentir mais uma na gorda ninhada que pariu, comungando a vida que a consagrou mulher de esperas demoradas, no cruzamento da vida, um mastro escutando a solidão da noite, em madrugadas frias ou tentando esfriar a alma esgotada de pensar na demora do seu homem, em noites escaldantes de Verão, num desassossego de coração lavrado de mortificações, pela ausência do camionista noite e dia na estrada, levando farinha da moagem para o Porto, Lisboa, Faro, demorando às vezes uma semana no regresso ao lar.
Atrás dessas esperas estendia-se lençol de água em sermões remoídos de consciência. Muitas vezes as mãos tremiam a água gelada e cinzenta, do tanque comunitário, a agua suja da roupa encardida de terra, roupa suada da dura labuta dos campos agrícolas, lavoura resignada, às vezes suja das conversas das mulheres do soalheiro que despiam tudo e todos, deixando a nú as agruras da vida. Em conversas como pele de cabra curtida pelo sol, esticada pela secura do vento, como a roupa a corar sobre a relva ou sobre as giestas, entre horas de trabalhos e canseiras, enquanto o milho secava na eira ou espalhado na manta esperando ser debulhado, ou os feijões por malhar, depois de secos, desoras de silêncios como gritos esventrando privacidades e sinas alheias, escorrendo pelo crivo do isolamento, numa inesgotável teia de problemas de saúde e fome, e fracas condições de sobrevivência. Mas todos sobreviveram. Exceptuo um.
Sei que era pequena, muito pequena. Mas ainda hoje recordo a cena que mais lembra os miseráveis de Vitor Hugo.
A vida não me proibiu de assistir a uma cena chocante que é ver um enforcado, dependurado pelo pescoço, o corpo completamente distendido, suspenso de uma trave, a cabeça tombada para o lado e os olhos, duas esferas salientes, o retrato puro do medo e da agonia pela coragem ou insanidade de quebrar, sabe lá porque razão, com a fragilidade humana da existência vida.
Não há culpados nem inocentes, há todo um passado e todo um património afetivo, que de hoje em diante vinga as memorias pelo futuro caminhante deixando testemunho de vivencias menos felizes, levantando do chão feridas sem qualquer réstia de preconceito ou vergonha, apenas a configuração de um puzzle que é e será sempre esteio de todo meu sentir.
Os olhos vítreos do morto, olhavam para nada, como que esgotados de se abrirem até ao máximo, apenas pendentes, espremidos, sem cor, enegrecidos, no meio daquele rosto velho, uma barba grande e grisalha, numa pele enrugada e suja, o cabelo cinza terra, as roupas gastas e sujas, frias em todas as estações, um velho solitário, errante, talvez triste.
Todas as noites um dos netos percorria não mais de cinquenta metros que separavam a casa amarela do barraco que ficava por debaixo da grande amoreira, na cerca onde vivamos.
O avô, ausente durante o dia, esperava todas as noites a sua tigela de sopa para aquecer o estomago vazio. No barraco onde dormia, porque em casa já eram muitos, em quatro divisões viviam doze pessoas, entrava o vento, a chuva, o frio, e no Verão o calor era insuportável, e a lareira insuficiente para no Inverno aquecer a fome e o frio.
Enforcou-se sozinho, mesmo antes da sua neta e eu, abrirmos a porta desengonçada do casebre, e como de costume, pousarmos a tigela da sopa sobre o caixote, ao lado da candeia, sem lhe ouvirmos uma palavra, sem lhe perguntarmos se estava bem, sem lhe perguntarmos se precisava de alguma coisa ou se queria ir lá a casa aquecer-se um pouco à lareira.
O lar da Ti Beatriz aconchegava uma pobreza às vezes remediada conforme a paga do salario do pai dos seus dez filhos e a generosidade das terras, mas insuficiente para acudir ao pai dela que sobrevivia no limiar da existência humana.
Não veio a guarda republicana nem o delegado de saúde para tomar conta do enforcamento, aquilo era miséria a mais para ser questionada por pessoas alheias a esses vícios da vida, e o sucedido seria rapidamente esquecido, de forma a respeitar a vontade própria do enforcado que assim amenizou o resto dos seus dias, e porque apenas fazia sentido deixar aquela família em paz, sentir a sua perda, já não como uma dor mas sim como um alivio, menos uma boca para alimentar, com todo respeito pela pobreza, que ninguém era pobre porque queria, sem culpas nem ressentimentos, apenas uma vitória da morte sobre a vida.
A noite rosa da solidão desfolhava sobre as almas o luto lento do desconforto da pobreza envolta de lagrimas e inconsolável tristeza.
À memória desse Pai, com toda a gratidão pela existência dessa grande Mulher a Ti Beatriz, que na cegueira da sua velhice reencontrou em mim uma pequena brecha de uma claridade feliz, que foi palco de tempos difíceis, horas sangradas de desilusão e pranto, mas que aos meus olhos serão sempre gentes honradas e virtuosas, num berço que entre socalcos, fraguas, giestais, pequenos bosques abrigando clareiras e rios transbordando as minhas mais ternas recordações ainda que semeadas de medos e lágrimas.
Torre de D. Chama em um tempo que será sempre meu.
(na foto com três dos dez filhos da Ti Beatriz, a Fátima, Paula, e Glória Tomé)
musa

PAI DO CAMPO – FELIZ DIA DO PAI

Eram verdes os campos trazidos pelo teu olhar
Campinas de trigo soltas das tuas mãos
Eram agrestes as terras onde ias mondar
As ervas os caminhos dos sentidos em grãos
Nos sulcos da pele fendidos passos por caminhar

As olgas os prados as cortinhas as leiras as terras
Alimentadas de rios ribeiros poços noras chuvas
Tinhas nos teus olhos a longura esquiva das serras
A ternura do sentir quantas vezes em lagrimas turvas

O campo corria-te o sangue e fazia da tua pele paisagem
Não havia horas nem te marcava o tempo do teu existir
Toda a tua vida Pai era uma infinita e longa viagem
Que o campo imprimia no teu olhar doce intenso sentir
E a paternidade era a força do braço húmida estiagem
Que as palavras amanhadas de amor pudessem consentir

Sabes Pai do campo quantos abraços ficaram por dar
Quantos abraços enternecidos pela meiguice do teu cansaço
Quantos abraços além do colo ficaram presos no teu olhar

Há no amor de um Pai do campo um poema em laço
Que ficou por desatar

musa
(em dia do meu aniversário, com meu bisavô João... meu Pai do campo)

segunda-feira, 17 de março de 2014

RIO INSPIRAÇÃO

RIO INSPIRAÇÃO

Continuo a ser rio do teu olhar
Seixo amaciado de beijos
Margens da tua mão
Leito do teu abraço
Enternecida nesse estreitar
Macio nó apertado laço
O corpo todo paixão
Corrente de desejos
Doce aprofundar
Rio de sedução
Águas excitação
Louco amar
Inspiração
...

musa

SUSSURRO

SUSSURRO

Faltam poucos dias
Para deixar este mundo
Cumprir a tristeza do olhar
As horas languidas sombrias
O tempo coagido profundo
Deste triste sussurrar

Sinto e sei que serei cumprida
Na vida que se despede de mim
Nesta sensação sentida
Deste sussurro sem fim
Que por dentro tanto me sente
Este soluçar que me consente

Fecho os olhos a todos os cantos
Não há mais preces ou oração
Não há mais lágrimas de doces prantos
A humedecer me de solidão
Nem da tristeza os seus encantos
A devastar de desilusão

Sinto e sei o tamanho desta ferida
Lastro que se estende sentimento
Rumo certo da minha partida
Sussurro incerto do desalento
E deste pensar sem saída
Se encurta o tempo

São cinco sentidos sussurrados
Em estranha forma de vida
Saberei dos meus pecados
Na hora da despedida
...

musa

sábado, 15 de março de 2014

NÃO HAVIA CEREJAS NOS TEUS OLHOS

Floriram de neves frias
As cerejeiras em flor
Mas não havia cerejas
Florescendo das tuas mãos vazias
Nos olhos que de dor marejas
Quando em flor falas de amor
E trazes florações sombrias
Do que de mim desejas
A todas as estações
Que de dor em flor inebrias
De consentidas ilusões

Não há mais palavras floridas
Nos campos rosados de cerejeiras
Nem as lembranças perdidas
Nem o voo livre das borboletas
Nem as palavras prisioneiras
Escondem flores secretas
A perfumar de sentidos
As pétalas sentidas
Dos desejos tidos

De todas as estações em flor
Guardo as cerejas da tua boca
Floração de amor dor
E esta angústia louca
De não haver mais cerejas a florir
De não saber mais o que sentir
...

musa

quinta-feira, 13 de março de 2014

UM POEMA NOS TEUS OLHOS

filha de um rio
da nascente ao mar
a um colo foz
percurso sombrio
doce recordar
embargo da voz
meiga lentidão
leito serenidade
rio solidão
flor da idade
margens de sentidos
nos teus olhos um poema
e todos os caminhos percorridos
a embargar-te a voz serena
incapaz de cumprir
existência ou sentir
desse nosso olhar
a existir
como acreditar
em doce inocência
loucura transparência
fica a imaginar
profundo grito
tudo o que ficou por dizer
sabes… ainda acredito
que existem sonhos por florescer
no sopé das arvores de frondosa sombra
tapete de violetas
e não haverá olhar que esconda
onde deixamos nossas recordações secretas
as memórias como borboletas
a querem voltar
em doce corropio
o passado sombrio
agora a clarear
loucura
ternura
sim… veio para ficar
no meio de nós
no embargo da voz

musa

terça-feira, 11 de março de 2014

poema a um Amigo MARIO FRAGOSO


MORRER NA FOZ

MORRER NA FOZ

Chegarei ao mar
Serpenteando até à foz
Haverá ondas a cantar
Com a maresia da voz
E o murmúrio das sereias
E o grito das gaivotas
E as vagas como colmeias
E as nuvens como devotas
Deste meu eterno canto
Que tantas vezes é pranto
Inferno de sentires
Chegarei ao mar
Onde possa descansar
Mar alto de onde me vires
Acenar ao pensamento
Nas asas do vento
E de águas doces adormecer
Nos braços das águas de sal
De madrugada ao entardecer
Hei de morrer na foz de Portugal
...

musa

segunda-feira, 10 de março de 2014

AMOR OU RAIVA

AMOR OU RAIVA

Nada amo mais do que a poesia
Nada vivo mais do que um poema
Nada mais sou do que um verso
Amor ou raiva ou heresia
Ou essa dor que me condena
A ser mais triste do universo

E dessa tristeza enfurecida
Alimento o pranto do sentir
A essa dor sou consentida
E deixo o amor me ferir

E dessa raiva o desalento
Mais do que um verso uma ilusão
É no olhar o desalento
Que me vive a solidão

Desilusão amor ou raiva
Que caibam num poema ferido
Mas que da vida eu nunca saiba
O verdadeiro e único sentido

Desalento ingrato da paixão
Nunca o saberei viver de lágrimas
Toda a vida senti a frustração
Do que é viver penas e mágoas

musa

domingo, 9 de março de 2014

ESTRANHA PRIMAVERA

Já é primavera e ainda esta invernia
A cobrir-me o sangue do olhar
Esta estranha cinzenta vazia
Frialdade a despontar
E esta névoa desfraldada
De verdes mantos a florir
De sonhos prantos por sentir
Como se de uma tarde toda iluminada
De leveza e encantos e alegria
Nesta natureza emancipada
Que os olhos parecem chorar
De uma tristeza enevoada
Do anoitecer até de madrugada
Em dolente apática malfadada histeria
De uma primavera a orvalhar
Como verde maresia

Tantos orvalhos a te humedecer
E sim amor já é primavera
E há flores e árvores e verdes campos
Cheios de cores e doida quimera
A despontar-te o ser
O sonho desta estranha primavera
Por dentro do sentir a florescer
E de lágrimas nesse choro eu tivera
Como a folha o fruto a amadurecer
Ou estranhamente e só endurecer
Sentidamente estranho acontecer
Na vida no sonho se desfizera
...

musa