sábado, 26 de maio de 2012

HALL DE SENTIDOS

Ao todo fundo do meu ser
Há no escuro transparecer
Há um hall de sentidos
Há um sombrio entardecer
De instantes adormecidos
No mármore frio
Entrada de sonhos
Chegar tardio
Que sempre acontece
Depois de adormecer
E num hall de sonhos me perder

Como quem desaparece
Num eterno despertar
Podendo deixar acontecer
Entrarem sonhos no sentir

Adormecida
Sombra a fluir
Desço a escadaria
Entro numa outra vida
Sobre a laje fria
Repouso os sonhos que sonhei
E o sono faz-me companhia
Está por lá porta fechada
No hall da entrada
Onde me deixei
Pedra pesada
De faces lapidada
Subtil inscrição
Morada eterna
Tumba de solidão
Repousa o ser

O corpo e a alma sem idade
A vida sem querer
Há uma porta aberta
Um abrigo de eternidade
Há uma porta secreta
Para a casa da saudade
Que emoção desperta
Sobre a pedra fria
Lágrimas e poesia
musa

CHEIRAS A VIOLETAS MULHER

CHEIRAS A VIOLETAS MULHER

Inebria-me teu corpo nu
Odor desprendido num sopro de brisa
A minha mão que desliza
No sentir dolente e cru

Cheiras a violetas mulher

Doce jardim que és tu
Na maciez imprecisa
Da imaculada tua tez
Elevam-se odores perfumados
Em teus calores suados
No meu olhar cortês
Olhando-te por inteiro
Toda corpo de rio
De margens plenas de frescura
Meu privado ribeiro
Onde mato a secura
E todo meu cio
Loucura

Cheiras a violetas mulher

Prado feitiço ternura
No fresco recanto do teu peito
Onde esse odor perdura
Suave devaneio do leito
No limiar do desejo
A insinuar o beijo
Imperfeito

Cheiras a violetas mulher

Quando o meu olhar em ti deito
Excitação atordoada
Odor em mistura de vontade
Nessa sedução exalada
Frio que assim despertas
Perfume sensualidade
Tórrida infinidade
Desse cheiro a violetas
Que te cobre toda a pele
Num jardim proibido
De cio resgatado
Nudez sentido
Possuído
Amado

Cheiras a violetas mulher

Estás toda em mim
Pudesse eu somente escolher
Violetas no meu jardim…
musa

quarta-feira, 23 de maio de 2012

SENTIR ILUSTRADO

Tenho por dentro memórias
Forradas com papel encerado
Tal como nas muitas divisórias
Da casa que aluguei dentro de mim
Toda forrada de um sentir ilustrado

Sei que ainda sabes o colorido
Da forma que sentes o sentido
Cada caricia na textura
Trabalhada com ternura
O cheiro novo do papel
O odor da cola e do verniz
Como se vestisses uma alma pele
E com isso já te sentisses feliz
Esquecendo as esquinas esbotenadas
Da velha cómoda de madeira
Com fissuras esbranquiçadas
Mas tão elegante à sua maneira
Nas gavetas arrumadas
Que deixava entreabertas
Mostrando esse ilustrado sentir
As minhas memórias secretas
Assim escancaradas
Como se as estivesse a parir
E tão vaidosa que me sentia
Orgulhosa e habilidosa
Dava comigo a rir
Frente ao gavetão vazio
Acariciando o papel frio
Com os meus enredos
Na cómoda fantasia

Não sei se algum dia te falarei dos meus medos
Do que guardo em cada papel mudado
Dos meus sonhos e dos meus segredos
Que estão lá… no fundo desse gavetão fechado
musa

terça-feira, 22 de maio de 2012

SÚPLICA - Dueto com MIGUEL TORGA

SÚPLICA
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
...
Miguel Torga

SÚPLICA
Eu sei, ser esse mar de azul quase transparente,
Silenciado oceano sem ondas que possam agitar,
Sentir que em mim navegas como quem consente
Urgência das respostas que o silêncio vem gritar,

E… longe de mim…
Sendo-me em ti vou suplicando,
Vida perdida a desejá-la tanto,
Amor sofrimento vou calando,
Num sem fim de dor e pranto,

Doce súplica feita sal de lágrimas a sorrir
No colo dos teus carinhos prometidos
Não basta talvez que me confies teu sentir
O tempo passou deixando sonhos esquecidos

Assim, ver-te e ouvir-te de novo que calmaria
Saciando-me do sal desse teu choro
Por teu nome sabes que suplicando gritaria
Pois é em ti que eu me sinto e me demoro

Súplica prece rogativa oração
Canto este vibrante sonoro
É talvez a voz da paixão
musa

AO AUTOR PORTUGUÊS

Vives do sal de marés de palavras
Sulcadas em vagas de terra de sentidos
Sobrevives das ondas de lágrimas salgadas
Em batéis naufragados de sonhos proibidos

Vives de um Camões sobrevivente
De um Fernando Pessoa por cumprir
De um auto do inferno de Gil Vicente
De um país inteiro por sentir

Vives ou não da Arte feita de sonhos
Apolo que deste Olimpo se esqueceu
Lutas com garra para defender demónios
De uma vida que nunca ninguém compreendeu
...
musa

domingo, 20 de maio de 2012

VENHO DO CAMPO

Venho, vindo do campo pés na terra
Em passos que o caminho lavra e guia
Por entre o pó a lama lodo e a pedra
E o sol que insistente arde e alumia

Astro rei que cobre sombra dos meus passos
O meu rosto beija puro e vibrante
E enche de rubro fogo triunfante
Em desespero de sombreados devassos

Venho do campo à luz matinal aurora delirante
Plácida ilusória forma ilusão breves traços
Na glória dos passos caminho confiante

Trago aromas lânguidos proféticos profundos
O suor das mãos dos pés dos cansaços
Venho do campo carregado com todos os mundos
musa

MANHÃ SUBMERSA

Veio o cavalo de chuva
Romper esporas da madrugada
Pisando a manhã turva
Nascida acinzentada

No trote espesso do relinchar
Gotas de punhais espetadas
No dorso da manhã fazem pingar
O suor das têmporas acossadas

Corre corre cavalo alvorecer
Na tua manhã submersa
Que acordou a chover
A luz que o cansaço dispersa

E assim frágil iluminada
Brilha húmida opacidade
Cavalo rompendo alvorada
Chove em nome da saudade

O dia que clareou de cinzento
Por detrás do denso nevoeiro
Manhã submersa do tempo
Que nasce e morre primeiro
...
musa

LÁGRIMAS DO MAR

O mar entristeceu
Tomou-se de tamanha tristeza
Nem sei bem o que lhe aconteceu
Para ficar sentido com tanta certeza

Olhou para o fim da tarde
O dia que assim escurecia
De mansa e leda claridade
E de vagas revoltosas se enfurecia
Escurecendo a luminosidade
Trazendo a noite ao abraço do dia

Soltou as lagrimas esse mar rebeldia
Num choro compulsivo inconfidente
Brotando da ténue melancolia
Nostálgico ser que chora e sente

Lagrimas de mar
As mesmas que por dentro me sentem
Oiço-lhe a fúria capaz de me naufragar
Barcos veleiros navios que adentro me entrem
Num desassossego que em mim possa ficar
Tudo e tanto que de mim inventem
Tudo e todos que me façam chorar
...
musa

BEIJOS DE PAPEL

Na folha nua virginal
Boca apetecida de tinta
Branca fria como a cal
Esse beijo que eu sinta
Em lábios de papel
Desejos escritos
Na ponta do pincel
Beijos inscritos
Folha e pena
Texto ou poema
Sabores restritos
Inspiração que acena
Ao beijo branco
Doce encanto
Sobre a folha nua
Provocando o tinteiro
Querendo-a sua
Num beijo derradeiro
musa

UM TEMPO DE PINCÉIS E POESIAS

Via-te atravessando paisagens
Guardadas em gavetas de sentidos
Num pequeno caderno de viagens
Deixavas teus sonhos perdidos

Poeta pintor maior do que a fantasia
Nas cores que partilhavas de emoção
Eu ensinava-te o amor à poesia
Num enlace de palavras tintas e paixão

Um tempo de pincéis que pintavam Pessoa
Silenciados sentidos que em murmúrios do olhar
Se comprometiam por ruas de Lisboa

Eras tu e eu embaixadora e o estrangeiro
Por caminhos de melancolia entre a terra e o mar
E todo esse desassossego estranho e inteiro
...
musa

CHAMAMENTO AZUL

Para além de todo firmamento
Palco de extremosas estrelas
Nesse doce contentamento
Das cores de azuis aguarelas

Eram telas feitas poesia prece
Na paleta de humedecido sentir
Teu azul chamamento acontece
Na cidade feita eterno despedir

Jamais voltaste para o Porto sentido
As pontes que atravessaste sem querer
São hoje o meu caminho consentido

Faço delas ligação a esse chamamento azul
Atravesso margens de inóspito prazer
Rumo a um instante horizonte lá no sul
...
musa

sábado, 19 de maio de 2012

LUGRE POÉTICO

http://marinhadeguerraportuguesa.blogspot.pt/2011/01/navios-da-real...


Airoso lugre dos temporais
Rainha Santa que ao mar se fez de velas
Bacalhoeiro de altivos mastros
Rompendo águas de chumbo sepulcrais
Batendo forte nos cascos das caravelas
Onde as ondas se fazem azulados pastos
E os veleiros arribam entre elas
Lugres pesqueiros castos
Na mão de tenebrosas procelas
Invadem as águas frias
Nos abraços das tormentas
Nos lábios de esperanças sombrias
Nas mãos de alvoradas magentas
Do colo das águas das rias
Catedral de madeira cordas e nós
Arrepios fados preces violentas
Velas latinas quadrangulares
Coros pregões latidos da voz
Quase em silenciados cantares
Numa faina de duros sentimentos
De pensamentos similares
Lugre dos mares salgados
De alegrias e desalentos
De sonhos e desagrados
Mais de riscos e tormentos
Uma vida poética ao mar
Mãos calejadas de esperança
A solidão insistente no olhar
Que a morte tantas vezes alcança
Que em terra se teme a matança
Que o medo faz naufragar
Que o medo faz a aliança
Que o medo faz soluçar
musa

quinta-feira, 17 de maio de 2012

BRINCOS DE CEREJA

Eram tempos de romaria
Alvoradas ao pomar
Fazer das cerejas poesia
E nas árvores ir brincar

Gaiata pequena colhia cerejas
Com que enfeitava as orelhas
Com pardais e as pardalejas
E aos zumbidos das abelhas

Sentia-me uma princesa
Empoleirada na cerejeira
Admirando tanta beleza
Enfeitiçada pela brincadeira

Brincos de cereja como rubis
Fruto tão doce avermelhado
Faziam-me uma criança feliz
No meu reino abençoado

Cerejas rubras e maduras
Por entre a folhagem verde
Menina de tantas loucuras
A comê-las matava a sede
musa

DIA DA ESPIGA

HOJE É O DIA DA ESPIGA...

- O Dia da espiga ou Quinta-feira da espiga é celebrado no dia da Quinta-feira da Ascensão com um passeio matinal, em que se colhe espigas de vários cereais, flores campestres... e raminhos de oliveira para formar um ramo, a que se chama de espiga. Segundo a tradição o ramo deve ser colocado por detrás da porta de entrada, e só deve ser substituído por um novo no dia da espiga do ano seguinte.
As várias plantas que compõem a espiga têm um valor simbólico profano e um valor religioso. Crê-se que esta celebração tenha origem nas antigas tradições pagãs e esteja ligada à tradição dos Maios e das Maias.
O dia da espiga era também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar. Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam". Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.
A simbologia por detrás das plantas que formam o ramo de espiga:
- Espiga – pão;
- Malmequer – ouro e prata;
- Papoila – amor e vida;
- Oliveira – azeite e paz, luz;
- Videira – vinho e alegria;
- Alecrim – saúde e força.


Fui ao campo colher o ramo
Para formar a minha espiga
Colho flores para todo ano
Sigo os passos da formiga

Fui para a seara bem cedo
Ainda bastante orvalhada
Na claridade do arvoredo
Fiz a espiga de alvorada

Juntei pão ouro e prata
Ramo de amor e vida
Azeite e paz luz à farta
Vinho e saúde pedida

Espiga com malmequeres
Papoilas e ramo de oliveira
Vou levar-to onde quiseres
Videira alecrim para a vida inteira
No DIA DA ESPIGA onde estiveres
...
musa

quarta-feira, 16 de maio de 2012

DESCARNADA DE SENTIMENTOS

Descarnada de sentimentos
Seguindo o escoar do tempo
Por toda a eternidade
Feita fragmento
Na veia de todos os lamentos
No sangue de toda a saudade
Olho para dentro de mim
E já nada vejo
Descarnada no sentir
Tenho apenas um desejo
Deste mundo partir

Possa até admitir
Que a vida tem por certo sua beleza
Há os pássaros e as flores da estação
Há toda uma natureza a florir
Há por dentro uma única certeza
Enraizada profunda solidão
Que adentro teima em surgir
Como da vida sua paixão
E em mim persistir

Às vezes pergunto-me onde vai
Sangue que me corre
Sentidos que me sentem
Sou carne descarnada sensivelmente
Desta alma que se esvai
Deste ser que por dentro morre
Desta carne descontente
Sou alma que em lágrimas escorre
Onde vai rio de sentir de sangue quente

E eu me sinta tão diferente
Tão profundamente
Descarnada
De pensamentos
Tão perdidamente
Transparecer
De sentimentos
Inanimada
Ser
musa

terça-feira, 15 de maio de 2012

FRAGRÂNCIAS

Destilei aromas de poesias
Perfumes de agradável toque de frescor
Aromáticas essências de especiarias
Tirando das palavras doce odor
Escritas descritas nostalgias
Essências no seu sublime esplendor
Dos cítricos florais
A lima laranja limão
Degustei-lhes o sabor
Na química e nos sais
Oleosa sensação
Cheiro de intensos roseirais
Suave água de rosas
Em plena floração
Poemas e prosas
Sofisticados misteriosos sensuais
O cravo a canela o manjericão
Pele cheirando a baunilha e pimenta
Transpirando mística ilusão
Que calor da pele esquenta
Com cabeça corpo e base
Leve solta oxidase
Notas de fantasia e fragrância
Onde a sensualidade assenta
Frescura húmida que é quase
Entre o etéreo puro sideral
Delicado vapor de elegância
Se escapa libido perfumista
Fugaz aéreo natural
Da magia secreta do alquimista
Em harmoniosas composições
Metamorfose de voláteis odores
Tal a sinfonia das paixões
O cheiro de tantos amores
musa

segunda-feira, 14 de maio de 2012

DISSE-TE ADEUS E AMEI


Disseram-me que vinhas e eu recebi-te no encantamento interior dos meus lábios cerrados, mordisquei lembranças saboreadas no palato dos segredos, eu que ainda nunca te tinha partilhado no sal das lágrimas esgrimidas pela saudade, voltejei como borboleta surpreendida pelo calor da luz em áurea colorida de castelos de cores fundidas no tecido alvo acinzentado da transparência salpicada de um jardim ao sol da minha pele esfriada pela excitação da tua vinda, ainda que misteriosa sensação arrebatando a fúria de todas as ilusões, vinhas no encalço de esperanto e medo cobrindo sentidos alvorecidos no acordar de todos os sonhos em cada pétala das flores desabrochadas na cobertura de todos os sentimentos repartidos em corpo e alma, e dos pensamentos ficava a neblina matizada de odores perfumados olhos que se encantavam com a pele que despia todos os meus desejos feitos de sol e poesia...
...
musa
Uma gota de vida em poético sentir... palavras que a poesia eterniza num instante que a faz surgir...

PALAVRAS DE MÁRMORE

Na jazida da alma esfarrapada
Fissuras de sentir latejam
A parede do corpo amolgada
Transparece brechas luminosas
Rasgos que sobejam
Palavras em prosas
De mármore

Duras lisas e frias
Mãos vazias
Rocha metamórfica
Actinomórfica
Silhuetas sombrias
Esbelta escultura
Amórfica
Paredes brutas
Poesias desbastadas
Saliências incultas
Formas aprisionadas
Adorável aparição
Asas libertadas
Palavras de mármore
Doce ilusão
Ramos de árvore
Galhos a esculpir
Pedra imaginação
Terno sentir
Sílex embutir
Silente sensação
Solida ilusão
Imbuir
musa