terça-feira, 14 de agosto de 2018

PRANTO SILENCIADO

PRANTO SILENCIADO

Aprendi a orar ao silêncio
Sobre todas as mágoas adormecidas
Construí um templo de memórias esquecidas
Da alma fiz um altar
Das veias círios a arder
E o sangue em lágrimas por queimar
O amor que ficou por fazer

Aprendi a amar num silêncio de pranto
A teia que o tempo ajuda a tecer
Que o feitiço a oração ou quebranto
De silente sentir
Ensina a esquecer

Aprendi dos ensinamentos
A profundidade
Dos sentimentos
A densidade
Dos pensamentos
A intimidade
Em verbos nunca conjugados
Em modos nunca soletrados
Em tempos nunca inventados
De silenciados devaneios
Ou versos por escrever
Dos mais íntimos anseios
Ou mais secretos enleios
Do que ainda pode acontecer

Aprendi a prece
O silêncio murmurado
O choro mudo e sufocado
A dor que enlouquece
Bem fundo o interior
Da lágrima fecunda
De resignado amor
A tristeza profunda
Sem voz ou clamor

Aprendi com paciência
Sem querer ou esperar
Deduzi sem qualquer ciência
Que o saber e o calar
A ser fruto da experiência
Tem mais lágrimas do que chorar
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musa

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

PAPOILAS

PAPOILAS

Morre devagarinho seda brisa ruborizada
Campestre luminosidade de um entardecer no prado
Silvestre tonalidade  esmaecida matizada
Não mais selvagem e singela do que a flor do cardo

Vermelha a esconder da luz o ópio alucinante
Com que seduz as aves a esvoaçar o campo
De pétalas em fogo manso na seara ondulante
Como se o sol derramasse em chamas o seu manto

Encarnado e negro de fímbrias delicadas
Os campos de papoilas do Monet parecem cheios de borboletas
Esvoaçam como bailarinas aladas

Culpa da aragem em melancólica ventania
A contar sonhos e outras memórias secretas
Ou somente o vento a escrever poesia
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musa

ABÓBORA

ABÓBORA

A abóbora não sei se ainda menina
Em impetuosa liberdade de natureza
Saltou o portão e a crescer pequenina
Logo se fará grande e de boa riqueza

Na rede espalhou as folhas viçosas
E o velho portão não mais se abriu
As suas raízes por entre as rosas
Guardam segredos que o sol sorriu

Da casa amarela sua graça é o jardim
Canteiros à janela que ainda dão flor
E a abóbora cresce diante do patim

Também eu cresci selvagem e madura
E da casa amarela guardo muito amor
Quase Cinderela em conto de loucura
...
musa

ERVA CIDREIRA

ERVA-CIDREIRA

Num recanto sombrio do jardim
Uma nesga de sol empoeirado
Faz o encanto obscuro do patim
Rebenta a erva cidreira ali ao lado

Junto à frescura da cantaria da serra
Frente à janela virada a poente
Um canteiro de húmida e boa terra
Acolhe como um berço a florida semente

Perfumada verdura de macio sabor
Calmante e digestivo o chá tão generoso
Guarda-a o sapo jardineiro por amor

Mansamente o estio no fim da estação
De um sol dourado quente e luminoso
Seca a ramagem em divina sagração
musa

NINHOS DE FOGO

NINHOS DE FOGO

Restam alguns eucaliptos chamuscados
A serra toda ardeu
Em chamas os troncos queimados
Erguem-se ao alto a  testemunhar ao azul do céu
Que todo o verde desapareceu
E ao negro olhar a montanha ardida
Tristemente perdida
A serra algarvia de luxuoso manto
Perdeu fauna e flora e todo o encanto
No fogo criminoso da vida
Perderam-se os ninhos e os esconderijos dos animais
Os céus rasgados por um alarido choroso
Nus os caminhos e os muros calcinados e o grito impiedoso
Das línguas de fogo a cortar como punhais
O ritual monstruoso
Da serra a arder
E o bando de aves desorientadas
Que fugiram para não morrer
Esvoaçam as cinzas acetinadas
desliza no chão o negro cetim
E um voo sem fim
Desespera viver
...
musa

POBREZA CITADINA

Madrugada fresca ainda anoitecida
nas ruas da cidade
Florescem silêncios de papelão
Na avenida sossegada entristecida
Crescem espinhos de solidão
E os gatos disputam soleiras de portas
Em sombrias e fúteis horas mortas
Lutam de garras acesas como lampiões a parir
Dores exaustas compadecidas
e raivas a essas vidas presas
De um tormento por sentir
Roupas rotas e encardidas
E toda uma vontade de desistir
No desespero de luas divididas e ilesas
De qualquer obrigação
Na sua luminosidade imprevisível
No desassossego de becos nauseabundos
Adormecem sonhos profundos
De uma dor estranha e invisível
toda uma miséria escondida
Que o dia parece esconder
Em meiga e faminta desilusão
Mesmo que por debaixo do cartão
Uma vida
Espere para morrer
...
musa

BAÇO OLHAR

BAÇO OLHAR

Há um barco
De memórias em cinzas
Solitárias sombras
Ardidas de cansaço
A dobrar esquinas
Em ruas sem sentido
E nas ombreiras de aço
Portas mal fechadas
Soleiras calçadas
De silêncio esquecido
Embaciado salgado
Marés de lágrimas
Ao azul rendido
A romper becos escuros
Líquido alterado
Velas de lençóis
Em madrugadas de altos muros
Tolhidas por orvalhos passageiros
E cais de vagas tardias
Portos sem tempo
Odores e cheiros
Ilusões vadias
E nas calçadas o lamento
De ruas desertas
Vagas melancolias
Janelas abertas
Em prostituída intimidade
Luminosas e sombrias
E todo um oceano desmemoriado
E o pranto a transbordar
A lembrança e a saudade
E a tormenta e o passado
Onda a onda sobre o olhar
No areal eternidade
Ruas a morrer na praia entristecida
A casa já sem telhado
Um rio em ruínas
O lado triste do litoral
Lá longe no areal
Olhos baços de neblinas
Uma concha perdida
Talvez o lado esquecido
Da vida
Entre o bem e o mal
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musa

MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO

MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO

Seis horas da manhã, o calor aperta, e os vinte e oito graus à sombra derramam a profusão de luz que a janela não consegue estancar, pois o corropio de calor atravessou toda a escuridão da noite e em nada refrescou a madrugada deste tórrido Agosto.
A dois passos do mar, o litoral já não é o que era, nem uma brisa para atenuar o sufoco desta tropicalidade caliente que teima em trazer do norte de África, o bafo poeirento do deserto.
As almas desassossegadas pelo calor agitam-se em gritos e barulhos, novidades no recanto, tão apegado ao silêncio e ao sossego, a azáfama borbulhante de sons e línguas faz-me recordar outro país, outras vidas.
Ninguém merece passar uma noite em branco por causa do calor, dormir de janela toda escancarada, e não lembro alguma vez desde que assentei arrais nestas paragens, assim ter acontecido, o lugar sempre foi muito fresco, mas agora sufoca, e bem cedo, neste madrugar atribulado, a rasgar o silêncio da manhã luminosa, berra uma criança e grita uma mãe, e outros barulhos fazem concerto das horas inapropriadas a esta musicalidade contribuindo para a poluição sonora do cedo erguer.
" - Mange Elodie, depeche toi, on t'attend de finir, t' a que avaler tout ça, merde, j' en ai marre des gosses, on est lá toute lá journée."
E o discurso a viva voz, entre barulhos de coisas que tocam o chão e outras que batem noutras, somado com o choro das crianças e o cão que ladra, alegra a manhã e promete a ilusão de circunstância de tempo e de lugar, deslocados no mapa dos afectos, quando a infância tinha o selo especial das migrações.
O discurso avança agudo e irritado, a teimosia das crianças não cede a chantagem emocional, nem se compadece de estatuto ou contrato, somente a condição de progenitora testa limites de paciência e compreensão, nem duas línguas dão conta do recado.
" - Acaba de comer, caralho, tu me fais chier avec tes merdes comme ça, vamos que eu não tenho o dia todo, mange!"
O imóvel é chique, coisa para duzentos mil para cima, situado na primeira linha da praia, com uma vista deslumbrante.
O discurso continua, grosseiro, repetitivo, insensível ao choro da criança, ao desespero do calor, à voz masculina que ameaça com porrada em ambas, e as manda calar em tom bastante ameaçador. Seguem-se mais choros, mais gritos, o cão que ladra ainda mais, e a manhã assim tão animada, num domingo de Agosto, por estas paragens, remete para um filme de aldeia transmontana em pleno Verão.
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musa

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

CLAMOR AOS ANJOS

CLAMOR AOS ANJOS

Chamam às preces sinos badalados
Na torre altaneira viçoso alarido
E dessa maneira sabem-lhe o sentido
Clamam misericórdia e perdão de íntimos pecados

Ouvem-se os sinos ritmados dobram
Crenças e fé de nobre religiosidade
Não mais do que virtude ou amor cobram
Que os deuses não querem saber da intimidade

Da manhã à tarde e a noite que é segredo
Melodia dos sinos a chamar anjos à terra
Há que contar alvíssaras de tanto medo

Sosseguem os espíritos no seu descanso profundo
Os sinos não dobram por quem perdido erra
Nem são invocados a vir a este mundo
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musa

SOMBRA

E a sombra acende o fogo dançante
Mansa e leda magenta
Avança na obscuridade
Lapidado diamante
De rubra tonalidade
Lua sangrenta
Negra fuligem
De cor barrenta
Oxidada origem
Explode a escuridão
Em fases a implosão
Iodada ilusão
De um vermelho solar
Nacre lunar
Espelha o infinito
Estende em sangue a mão
O eco sangrento do grito
Num eclipse solidão
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musa