quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

TORRE D. CHAMA - a lenda

- Quem conta um conto, acrescenta um ponto ! - E uma lenda ? - Monta a tenda! Lenda, do latim legenda, “coisas que devem ser lidas”, originalmente a palavra designava histórias de santos, porvindas de conventos com tradição, ensinavam sobre a magnífica vida desses servos de Deus. Também eram contadas pelos saltimbancos que, chegados a um lugar, montavam a tenda e contavam factos associados a peripécias do maravilhoso e do sobrenatural, coisas de pasmar, com um carácter fantástico e/ou fictício, as lendas combinam factos reais e históricos com factos irreais que são meramente produto da imaginação aventuresca humana, e essa narrativa fantasiosa vai sendo transmitida pela tradição oral através dos tempos, valendo-se da memória colectiva popular, ainda que ao ser recontada, a lenda, sofra variações, desde a sua origem até aos novos factos, ela aponta sempre para a problemática do comportamento humano em relação ao sagrado e ao profano, e ao inverossímel e à dificuldade que o próprio homem tem, em aceitar e compreender a natureza e tudo o que o rodeia. A terra, a água, os rios, as fontes, os penedos, as antas, as grutas, os outeiros, as pedras, a morte e até a ressurreição, são o denominador comum na explicação imaginativa que tantas vezes se espelha desfigurado, nas lendas, e que do seu fundo autêntico, nos presenteia com uma acção localizada no espaço e no tempo, sem uma finalidade objectiva de moralidade, apenas preservar a oralidade popular num ritual impulsivo em que a língua domina, cria, produz “coisas de dizer”. Existindo antes da formação de Portugal, “Turris de Domina Flâmula” como aparece nas chancelarias medievais, diz a tradição popular, que num morro a nordeste do povoado, habitava num castro luso-romano, lugar de pedras estranhas, com pias de lage que se julga serem lagares ou supulturas, e onde foram achados utensílios de cobre, bronze e cerâmica, e também peças de ourivesaria e moedas, uma princesa moura chamada de Dona Chama. O nome evidencia claramente a existência de uma construção em forma de torre, e uma dona do lugar que seria “Flâmula”, ou “Châmoa”, e depois “Chama”. Do séc. X, chega-nos um testamento de uma D. Châmoa (ou D. Flâmula, ou D. Chama), filha do Conde D. Rodrigo. Châmoa Rodrigues, sobrinha da célebre Mumadona, que foi a edificadora do Mosteiro e castelo de Guimarães, mulher fascinante, visionária, guerreira, a mais poderosa do noroeste ibérico, achando-se em perigo de vida fez-se conduzir a esse Mosteiro e institui testamenteira essa sua tia, mais tarde Condessa Mumadona, deixando-lhe em testamento um vasto poderio de terras, uma fiada de castelos e torres, e muitos povoados, porque sendo ela a senhora das terras de ribadouro, no ano de 960, é bem provável que fosse ela a fundadora da localidade. No séc. XIII, no Foral de D. Dinis, já aparece com o nome de “Torre de D. Châmoa”, elevada a vila de povoamento muito remoto. Talvez a lenda da “Dama Pé de Cabra”, cuja versão mais antiga, remonta aos finais do séc. XII, tivesse influênciado, de certa maneira, inspirado a explicação para a vida solitária da dama da torre, tendo então contribuido para suavizar o defeito físico que, da cinta para baixo, estorvava a formosa mulher. “Melusina”, figura mitológica da Idade Média, meio-mulher, meio-animal, passou então a ser uma dessas “cousas de dizer”, que a oralidade popular se encarregou de espalhar por toda a Europa, transviando-a da Biscaia até Torre de D. Chama, foi um pulo de uma loba. Ou de uma cabra! Esta entidade mítica que deu origem a uma linhagem nobre, revela bem o poder sobrenatural que envolvia mouros e cristãos, às avessas com o demónio, e este maravilhoso encantatório popular narrado na forma de lendas de mouras, cristãos, encantamentos, mortes inexplicáveis, fortunas fabulosas, fenómenos ligados à terra, aos penedos, aos outeiros, serve de forma a modelar a incredualidade sobre uma mulher que não era cristã, seria o demónio, vivia sózinha, mas que era imensamente rica e poderosa, pois era dona de muitas terras. D. Chamoa, ou Dona Chamorra, era rica e vivia só, num promontório que se perdia de vista, numa torre, provavelmente de um castelo, propriedade dessa grande senhora gentia, nesses tempos em que os mouros residiam nessa terras, coabitando com os cristãos. Lá em baixo, a seguir à densa floresta que circundava a torre, nas hortas e cercanias, trabalhavam a terra, gente cristã e de poucas falas, mas que não deixavam de cogitar sobre a estranha existência daquela dama que nunca se via fora da sua torre. Escondia ela um segredo pessoal, além da sua inclinação ilicita para os cristãos de belas feições que atraía à sua torre e com eles se satisfazia, dos seus apetites carnais mais vorazes e insanos, que tinha a ver com a deformidade dos seus pés, que terminavam forcados como os das cabras. Era muito formosa a dona, muito alta, já que o parapeito da janela da torre, de onde ela dava ordens aos criados e vassalos, ficava muito abaixo da sua cintura, com longos cabelos cor de azeviche e olhos muitos escuros e tristes. Todos lhe tinham muito respeito e ninguém se atrevia a afrontá-la, sendo que a água que recebiam na aldeia, provinha de uma cisterna muito profunda, que ficava nos domínios dessa dama, já que os rios distanciavam muito do povoado e a água da cisterna da torre, que nem no pino do verão secava, era a única que corria até à fonte da Biquinha, no sopé do monte onde havia a torre. Para afugentar a gente que a conhecia e adulava, servindo-a sem nunca a ver de perto, ela fazia correr histórias fantásticas sobre bruxas e lobisomens que ela dizia encontrar nas clareiras da floresta por onde se passeava solitária, durante as tardes, e assim mantinha afastados aqueles que por curiosidade ou maldade a queriam desmascarar. Mas havia os pobres cavaleiros de longe, que buscavam caça grossa, fazendo muitas léguas atrás da presa, indo embrenharem-se na floresta onde o sol coado criava uma bruma mágica que os entontecia e os aprisionava, até a Dona Châmoa aparecer, num dos seus passeios bucólicos, levando-os em seguida, até à sua torre, pois todos eles se encantavam com a sua formusura. Dentro da torre, ela dormia com eles, e no dia seguinte, matava-os, para que eles não fossem contar sobre a sua meia fealdade natural ou quiças, segredo de moura encantada. No povoado já ninguém estranhava a cor avermelhada que tinha a água que provinha da cisterna, nem o seu sabor férrico, mas espantavam-se quando alguém aparecia a reclamar um cavaleiro perdido, um caçador que nunca mais tornara a casa, já havia muitos meses. Dona Châmoa atirava com os corpos para o fundo da cisterna, livrando-se assim dos cadáveres assassinados, que friamente perpretava num acesso de insânia e angustia, antes que o seu coração se prendesse por algum deles. Aconteceu, certa vez, que um cavaleiro muito cristão, andava sempre protegido do maligno, foi levado para a torre e certo da sua sabedoria e paciência, deixou que a dama adormecesse acostada a ele e ao senti-la profundamente adormecida, retirou-se suavemente do quarto da torre, levando consigo um anel, cousa de grande valor e bem conhecido dos criados, metendo-o no seu dedo como sinal de que fora a dona que lho dera para assim o deixarem passar livremente, enganando os guardas, e que lhe serviria para provar a história que dali em diante iria contar pelas gentes da região. Mas eis que Dona Chamorra desperta e se dá conta do sucedido, gritando pelos guardas manda-os em busca do cristão fugidio para que voltasse para junto dela, eles chamando: - “a Dona chama! A Dona chama!” Ainda na floresta, cavalgando o quanto podia para não ser alcançado por ninguém, pode ouvir a voz encantatória da brisa sobre as folhas, sussurrando: - A Dona chama… a Dona chama… Dona Châmoa ou Chamorra, com o desgosto de ter sido descoberta, atirou-se para dentro da cisterna e desapareceu, matando-se a si mesma. E muitos séculos depois, ainda se ouvia dentro do profundo poço, quando se atirava uma pedrinha lá para dentro, ouvia-se: - a dona chama…a…a…a dona chama…a…; daí chamar-se a Torre de Dona Chamorra, passou a chamar-se a Torre da Dona (que) Chama. Por outro lado o cavaleiro que se salvou a si próprio, gritava a todos quantos o queriam ouvir: - Dona Chama Chamorra, pernas de cabra e cara de senhora. FIM

sábado, 21 de novembro de 2009

PALAVREÓLOGA

Mito-mythos é uma palavra grega em que os mitos e a mitologia falam grego, ou melhor, nos falam em grego. No subconsciente europeu o mito faz tremer os grandes narradores fundadores, aqueles que atravessaram gerações nas nossas sociedades arcaicas. Ainda que se pense que os mitos são um assunto dos outros, nós somos os oblíquos interpretes desse transmitir radiográfico, um aspecto da nossa mais soberana tradição, o mito greco-romano, o mito judeu cristão, os mitos são as histórias que se contam os homens para melhor se conhecerem. E se os mitos fundadores no ocidente nos vêm sobretudo da Grécia antiga, nós os trabalhamos ainda melhor para elaborar outros, sugerindo o mito, pátria de ontem, segmento de uma identidade nacional de hoje. O que é o mito? Claude Lévi-Strauss coloca a questão no pensar do índio americano e diz nos que é uma história do tempo em que os homens e os animais não estavam ainda distinguidos nas suas verdadeiras identidades. Talvez porque a palavra visionária de outros valores, se perdesse na mestiçagem de complementos e neologismos entre antagónicas forças de uma ingenuidade tida nos primários conhecimentos do crescimento da razão. Se a questão fosse apresentada a Eurípedes, o poeta trágico grego das Mulheres de Tróia e da Medeia, ele mostraria numa cena familiar, sentadas junto da fiandeira, escutando as histórias que toda a gente conhece, as belas histórias ouvidas junto aos mais velhos como testemunho de gerações de inventores orais de existências, as crianças de olhar pasmado ouvindo contar de animais que falam como os homens. Para Eurípedes os mitos, elementos orais da tragédia, eram apenas colecções de histórias cuja função era perpetuar crenças sobre concepções primitivas, relatando a histeria dos negados e/ou vencidos, compondo memorávelmente, cenas duma psicologia fortemente louvável, como ao falar das mulheres da cidade de Tróia que não eram consideradas como membros da sociedade. Dos Sumérios aos Babilónios, uma tradição de interpretações que se queria fosse ciência oral ou saber reflectido nos tempos vindouros. A ilusão do sonho pela mão dos antropólogos até à antropologia cognitiva contemporânea como o terreno de eleição para compreender o que são as representações culturais. Viajantes missionários, etnólogos, historiadores, todos vão dar asas à imaginação para contar em teorias as suas interpretações e suas similitudes surpreendentes entre histórias contadas aos quatro cantos do mundo, e aquelas que carregavam a marca da mitologia exemplar dos gregos, assumindo esse papel de ilusionistas do sonho prontos a acordar a adormecida crença nos espíritos, os mitos como o pensamento, revelados efeito duma análise confusa da realidade. Os deuses da mitologia não podiam ser que personificação das forças da natureza, altas figuras imaginadas nascidas duma linguagem primária sobressaída do subconsciente, e a imergência cúmplice desse estado de espírito primitivo e irracional à espera da passagem do mito à razão. A cumplicidade da religião e da magia nos braços do mito para num esforço medir forças entre o impacto dos símbolos, os ritos tributados, os costumes, os artefactos, e o selvagem e o domesticado, até ao nascimento do verbo. Nesta tribo de palavras, do mito à palavra, a palavra expressa, a fábula, a razão de vários autores, Jung, Lévi- Strauss, Tylor, Chase, Fiske, Cassirer, Frazer, Campbell, entre outros, e o Mito do Eterno Retorno de Mircea Eliade, a imaginação nas suas andanças secretas entre a alma e o espírito, os mitos podem ser: Teológicos - quando constituem narrativas sobre os deuses; Cosmogónicos - quando respeitam à Criação do Mundo (no princípio era o Verbo, como se lê no Evangelho segundo S. João, em consonância com a descrição contida no livro do Génesis - se nos ativermos apenas à teologia/mitologia cristã); Culturais - quando se centram sobre as actividades dos heróis que, tal como Prometeu, quiseram melhorar as condições de vida dos homens; Escatológicos - quando oferecem visões do fim do mundo e do Além; Soteriológicos - quando dizem respeito aos rituais de iniciação e/ou magia, de que o mito de Orfeu constitui, sem dúvida, um bom exemplo. O mito, incrustado como está na linguagem humana, é apenas actualizável através do discurso, ou seja, para que se conheça, o mito tem de ser narrado, ou contado. Assim, se na linguística saussurena encontramos uma distinção entre langue e parole, na linguagem mitológica, por sua vez, langue e parole intersectam se : - O significado do mito apenas é acessível quando o mito é analisado na sua globalidade, ou seja, os vários elementos que constituem o mito, se dissociados, obstaculizam a produção de sentido; - A linguagem do mito é simbólica, alegórica e metafórica. Mas haverá maior mito do que a própria palavra, o verbo, verdadeira caixa de Pandora, qual Fénix renascida das cinzas, a linguagem em todo seu esplendor resgatado, fulgor esmaecido pelas teorias de que à passagem do tempo serão imunes os mitos património da humanidade, deixamos escrito por palavras sinais, materializados ou não, tudo o que se compõe de proezas humanas e animais com a força da verdade e a manifestação do real. O ser humano capaz de se desdobrar em múltiplas faces, apoiado na razão, difere do mito, pois nele isso já não acontece, mesmo havendo em tudo o que o homem faz, pensa, quer, sente e crê, a sua cultura de ritos. Quando os ritos esquecem os mitos, começa a necessidade de criar o simbólico, onde a escrita abole o rito e deixa o mito entregue ao rito da escrita, gerando assim uma "perda" entre o rito do mito e o rito da escrita, que se reflectiria na própria relação/ referência linguagem/ língua/ narração, contribuindo para que o mito seja a língua do sagrado. A linguagem é o sagrado se manifestando em língua. Por isso, o mito é a linguagem de toda língua. Na poesia, o que se revela memória do mito é o apelo do lógos para dizê-lo. Por isso, mais no silêncio e no vazio do que nas palavras, sons, gestos e cores, está presente o mito enquanto memória do silêncio da poesia. O rito é o lógos se fazendo palavras, música, dança e pintura do mito. Uma reflexão da ligação do mito com a literatura a arte está exposta na interpretação de Schuback: "Ao narrar que Ulisses [Kafka] com cera nos ouvidos jamais poderia ouvir que as sereias não teriam cantado e, assim, descobrir que o mito seria ilusão. Kafka mostra que a literatura é itinerário para a verdade do mito. Literatura é a saga de Ulisses de volta para o mito" (1). Não só Ulisses tapa os ouvidos com cera, mas as sereias não cantam: "Mais do que silêncio, elas deixam em cena o seu não-canto e assim a ausência de encantamento que constituem 'armas ainda mais terríveis do que o canto'" (2). O canto quotidiano nos enche de contentamento, mas nos pode obstruir o caminho para o não-encantamento, para o silêncio. E esta pode ser a verdade do mito, o supremo encantamento, a morte, porque depois que o silêncio fala, qualquer palavra é excessiva, cada um achou a sua plenitude. Ulisses ao ouvir o que não pode ser ouvido só se salva porque se amarra ao limite que toda fala implica. O máximo de limite da fala frente ao ilimitado de todo silêncio está na palavra cantada, onde o encantamento advém como real e como possível, como desvelado e velado, como ordinário e extraordinário, onde a ambiguidade se faz o uno de toda diversidade. A palavra cantada sendo sucessão de sons se faz sentido enquanto uno de toda realidade. Por isso, o ritmo é o real se dando, se manifestando em formas no devir contínuo da não-forma. Eis porque na pausa não há ritmo, só na fala cantada do silêncio. (Manuel Antonio de Castro – O Acontecer Poético – a historia literária) Foi por meio da poesia homérica que o pensamento mítico manifestou-se na literatura, dando ao mito a dimensão grandiosa de uma verdade posta pela palavra. O mito é a história narrada. Ele conta uma história sagrada. Para Mircea Eliade, o mito é tido como uma narrativa verdadeira e uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser abordada e interpretada em perspectivas múltiplas e complementares, uma vez que o mito relata um acontecimento que tem lugar no tempo primordial, o tempo fabuloso das “origens”. ... ana barbara santo antonio

sábado, 7 de novembro de 2009

CORPÓREA PRIMAVERA

Pérfida primavera que aos meus olhos de lágrimas cheira
Nas minhas mãos humedecidas grita de rebentos sulcados
Na boca sabe-me a terra de húmus sangrenta verdadeira
Fustiga de cor negros risos meus lábios ardentes pecados
Impetuoso teu ventre de raça tez enclausurada meu olhar
Sossega teus seios renascer de flores folhas frutos d’ouro
De ramos estendidos cobres teu corpo ateia desabrochar
Pronta missiva o estio de cores secas cobiçado o tesouro
Estéril tua primavera que nos meus braços adormeces nua
Figura donzela de olhar azul eterna musa de cabelo louro
De sentidos corpóreos fios de luz espalham como raios lua
Ah! Fosse teu ser mulher de cores sabores cheiros olhares
Prenhe de vida renascimento em chão coroado vindouro
e… por grandeza seres primavera em mim até te cansares
...
musa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

CHORO PRESO

... que sabes quem sou
a humidade seca
das lágrimas
que não te choram
entre a insanidade
e a demência
elas afloram
negra existência
dura saudade
em manchas de negra cor
verdade do que me dou
luz mórbida do cometa dor
perdido buraco negro
porque dentro dele sou
onde teus olhos demoram
ânsia sonho e medo
como luzeiro aceso
dos olhos que te choram
astro em choro desprendido
de mil raios de luz fulgente
como se olhar te tivesse mentido
por entre filamentos que exploram
longínqua triste estrela cadente
e os teus olhos tivessem sentido
dores lamentos duma luz demente
enquanto de rubor tuas faces coram
num olhar choro incontido
que por dentro já nada sente
desse brilho lágrimas perdido
... do que sabes do que sou
tenho no olhar choro preso
lágrimas que a humidade secou
num fogo lento nunca aceso
...
musa

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

SOB A LUZ DA ESCRITA - VIOLETAS DO PRADO

VIOLETAS DO PRADO
As violetas do prado não são umas violetas quaisquer
Nascem selvagens na terra arrefecida
Perfumam o prado como se fosse uma mulher
Em traje negro de roxas rendas vestida
A terra seda húmus de odor humedecida
Bordam hortas lameiros prados desfraldadas cortinas
Um jardim de flores odores vida
Fazem das violetas versos rimas
Como alcatruzes de chuva ao luar
E na bordadura fumegante do ribeiro
Entre lírios grinaldas goivos pervinca boninas
Na terra húmida fria escura a desabrochar
A tinta roxa liquida do tinteiro
De um poema por escrever
Sob a luz da escrita
Feito de violetas pequeninas
Com um perfume intenso doce endoidecer
Violetas tantas e tantas e mais
Imenso jardim que jamais posso esquecer
As hortas olivais cortinhas quintais
Podem existir em todo mundo
Mas o cheiro das minhas violetas do prado
Em mim para sempre guardado
Não existe na natureza jamais
Assim entranhado profundo
...

musa

domingo, 27 de setembro de 2009

PALAVRAS MINHAS SENTIDOS TEUS

escrevo
para te encontrar
antes dos sentidos
de palavras
imaginando
trago-te de cheiros
fecho os olhos vejo
cor da tua pele
na tua iris
flores nos canteiros
na tua alma
perfumando
desejos
meus sentidos
excitados
em doce calma
no tacto
do que não sinto
mas imagino sentir
percorro palavras
como se me fosse a vir
na surpresa do gosto
de te ter
e...
de olhos fechados
sinto-te de prazer
de costas voltadas
silêncio sol posto
quase escuridão
aproximas-te
devagar
de mãos dadas
o rosto a corar
toda uma antiga
excitação
querendo nascer
querendo brotar
lembro
o que tivemos
de palavras
em mensagens
quase nuas
vibrando
de sentidos
as minhas
e as tuas
divididos
se devemos
ousamos
divagações
se queremos
ser além
de tudo mais
prometidos
apaixonados
iguais
perdemo-nos
de provocações
enamorados
lado a lado
de palavras
e sentidos
num querer
intenso
húmido
salgado
imenso
como se de amor
me viesse
no tacto
e na tua mão
sem regras
sem pudor
e num desejo
te tivesse
em absoluta
paixão
intenso
ardor

PRESSA EM TE TER

tenho pressa em te ter
sentir-te comigo
tempo sideral
perdido em abraços
beijos olhares
meu doce inimigo
até te cansares
nesta pressa mental
que tenho de ti
sem saber o que quero
desespero
nesse sentido
por ti
pressa dos teus braços
num aconchego profundo
do tamanho do mundo
em lentos passos
pressa dos teus lábios
em doce tentação
morna paixão
saber dos sábios
quimera
ilusão
torpor
desta pressa em te ter
só pode ser
amor
por ti

PARQUE DA CIDADE

percorria
ao longo do lago
caminhando vereda
encostada ao verde chão
da ideia que trago
no meu coração
árvores arbustos
flores cheiros cores
água odores mágoa
profusão de sentidos
invadem parque da cidade
corpos bustos
passeiam perdidos
quase já sem idade
sonhos vencidos
sem liberdade
rochas
areias
tochas
pedras
ameias
ervas
sendas
vadios
tendas
rios
deixo me ir na solidão natureza
pássaros vibram em mim sentidos
peixes brilham vermelho beleza
nas águas escuras ficam escondidos
o lago do parque da cidade
respira fétido intrépido morto
sua áurea inurbanidade
que jaz posto
saudade

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

CAVALGAR

Pela mão endeusada
venho-me de palavras
através do silêncio ateu
musa desvirginada
numa missão glorificada
em enredo lento de sentidos
desprendidos da mão de Orpheu
me prendo em leve pranto
solta poesia em toda eu
gemidos sussurros lamentos
doces fluido encanto
há uma lua que não se cansa
de irradiar sentidos em mim
faz-me ser égua solta
em nua cavalgada
como se meu cavaleiro fosses
louco intenso frenesim
e nas fases
dessa lua imaginada
luar torpor
tenho-te assim
de palavras
submergidas de espanto
tidas loucuras
preliminares da tentação
sem consentires
nem imaginares
corro pradarias
estendo pelo chão
meu dossel manto
banho lagos galerias
de ternura inquietação
deixo-me
em rios de mel loucura
nos cascos devolvo a terra
em pegadas de excitação
enquanto espalho ternura
no pranto de toda esta escrita
movida de sentidos em brisa
deixo reflectida cansaço
esfriado pelo luar
que tamisa prados de olhares
sem nada pedires
onde me sinto sentida
serei se assim deixares
a terra céu mar onde vires
luar gota orvalho sombra
palavra sensação vida
desliza
quando de mim sentires
pálida apreensiva ilusão
em leve coalho da mente
puderes ler
o que uma alma sente
de amor de vida
e de paixão
sentida