domingo, 29 de janeiro de 2017

A PELE DA VIDA

 A PELE DA VIDA 

Trago vinhas
Versos liquidos
A escorrer
Do olhar
Vinhedos nas faces coradas
Segredos por contar
Trago palavras minhas
Ainda por escrever
E sonhos sentidos
Em linhas paralelas
Trago paisagens de janelas
Encostas despidas
Viagens e lembranças
Imagens perdidas
De longínquas andanças
Vinhos por beber
E no copo vazio
Marcas de lábios doridos
Trago na boca gemidos
Nos olhos um longo rio
E seiva de saudades
Raízes de um tempo perdido
De arrancadas intimidades
Sulcos na pele ressequida
Chão duro a estremecer
De um pranto a derreter
Tristes outonalidades
Em lonjura de inverno
Trago vestida
A pele o manto eterno
Loucura da vida
...

musa

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

GRÃO DE MALICIA

GRÃO DE MALÍCIA

Na tarde de todos os encontros
Quando desespero se faz espera
E se fantasiam todos os confrontos
E se faz do frio primavera
Os corpos aquecidos de loucura e cio
Entre doces gemidos e um beijo fugidio
E a boca em rendição
À ternura do tormento
No rastro da excitação
No fruir do sentimento
Malícia em aventuras doidas carnais
As tuas mãos nas minhas cravadas
Em movimentos sensuais
Fortemente agarradas
Como areia a escorrer
Em intima vontade
Fazendo estremecer
No gozo da saudade
No palco da paixão
Exultas um grão de malícia ardente
Na pele húmida e quente
Nas linhas da tua mão
Uma sina de endoidecer
Há linhas longas de prazer
E a vida a acontecer
...

musa
https://musarenascentista.blogspot.pt

SE FRIA A MADRUGADA ABRIR EM FLOR

SE FRIA A MADRUGADA ABRIR EM FLOR

Bem cedo desabrocham as luas da manhã
Que luz incendiada de orvalho belo florido
Amanhece em pérolas de sangue vertido
Sobre o gelo fogo da terra crua e malsã

A formar ribeiros dos regatos ainda em flor
Borbulha a água como beijos de inocência
Por entre a relva fria em terna florescência
Suspira a natureza dócil húmido esplendor

Se fria a madrugada luminosa ténue em botão
Rendida aos beijos da alvorada soalheira
Ainda que gelada pela invernia da estação

Das neves adormecidas em gelo descanso
Desperta em luxúria campesina a vida inteira
Para florescer num olhar azul doce e manso

musa

MANHÃ DE SINCENO

MANHÃ DE SINCENO

As manhãs como auroras gélidas de alvo sinceno
Que ao longe os montes vestem de noiva invernia
Brancas flores silvestres dançando ao vento ameno
Na paisagem coberta de neve densa a neblina fria

Esmaece a sombra do dia clareando em sol ausente
No gelo pingando como franjas de um xaile branco
No chão húmido bafo respira em flor a névoa quente
Acordando a vida em misterioso e velado manto

Puro de algodão molhado que se esfuma ao passar das horas
Da madrugada tímida ao mais belo instante do anoitecer
Derramando a escuridão em todos os recantos e demoras

Trazendo mais sinceno e neve a engrossar o frio da montanha
Que parece chorar de orvalho gelado e os campos entristecer
De uma alvura inóspita e grandiosidade meigamente estranha

musa

AZUIS DE SENTIR

AZUIS DE SENTIR

Se azuis os teus olhos mar imenso
A roubar de pranto a cor dos céus
Que mundo este onde eu pertenço
Tantas lágrimas a chorar a Deus

Se azuis na cor em profundidade
Que estremece a boca de sorrir
Ao ver-te flor azul intimidade
E mostra da alma todo o sentir

Se azuis para além do espanto
Em cada recanto deste mundo
A rasgar paisagens de encanto
E doce olhar belo e profundo

Se azuis de vida e de ilusão
E de palavras semeadas
Em tinta escrita pela mão
Deixando por aí pequenos nadas

De azul eu vejo o tudo que senti
Do céu ao mar na terra e ao sonhar
Os versos azuis que eu já escrevi
Os sonhos azuis que já vivi
Os lutos azuis que já esqueci
De tudo o que perdi sem nunca amar

musa

OLHAR DE AMANTE

OLHAR DE AMANTE

Buscam os meus olhos ainda dos instantes
Que sagrados sentidos desenraizaram
De beijos que só conhecem os amantes
Em bocas que de silêncio incendiaram

E perdidos a olhar paisagens na lonjura
Dos corpos que apartados sonham viver
São as mãos unidas que conhecem a loucura
Dos passos que em medidas saboreiam o prazer

De afagos caricias desejos de intimidade
Lembram tempos de partilha e amor
Mesmo que somente lhes reste a saudade

Dos versos que cantam olhar tão penetrante
De sabores calores cheiros odor
De olhar te perdida quando sou tua amante
...

musa

POEMA DE QUASE AMOR

POEMA DE QUASE AMOR

Que ele sinta o quanto de amor lhe tenho
E quanto em lágrimas o venho lembrando
E quanto em cada dia ignoro e desdenho
O sentir esquecido em que vou enredando

As horas que tristes sombrias de amargura
Amada e sofrida de um pranto prisioneiro
No peito em profundidade a húmida loucura
Estremece o sentido de um desespero inteiro

Que olhar algum em verso possa poder dizer
Que lavada a alma pacífica do coração amado
E não mais sente essa vontade louca de morrer

Porque a vida em impossível e angustiante paixão
Esse quase amor feito poema de sentir declamado
É tantas vezes invocado em humilde e doce oração

musa

AO MEU ANJO DA GUARDA

AO MEU ANJO DA GUARDA

Guardas-me e em ti confio
Confio-te a minha vida
Que a tomas como desafio
Assim guardada e sentida
Saquiel arcanjo profético
Fogo de Deus
Chama consentida
Arquétipo
Guardador dos céus
Da terra espiritual
Protector
Uriel Zachariel
Pacificador
Universal
Da vida
Amor
Iluminado de azul anil luz
Em todo o esplendor
A prece invoca e seduz
A doce íntegra partilha
A infinita vontade
A suprema maravilha
A felicidade
Príncipe da profecia
Docilidade
E da inspiração
Arcanjo de Júpiter
Quinta-feira em ascensão
E sintonia
De viva memória
E libertação
Que a vitória
A clarividência
O conhecimento
Retornem glória
Sapiência
Pensamento
O dom da honestidade
Como a melhor verdade
Em sentimento

musa

BORDO A ROSAS A VIDA

BORDO A ROSAS A VIDA

Quieta no meu canto
Num desassossego de luas
Numa inquietação de saudades
Bordo a silêncios e a pranto
Memórias ténues e nuas
Em seda intimidades
Teço de tempo o manto
Em fio de luz o canto
Dos gritos que cantei
E em silente desespero
Com vida rematei
De um lamento sincero
A alma bordei
O sangue das rosas
As estrelas do universo
A ternura dos confins
A loucura das prosas
O intimo verso
Do gesto e afins
No pano de linho
Bordo o destino
O passado o presente e o futuro
Ponto a ponto furo a furo
Na pele presa no bastidor
A cada laçada o fio da vida
Bordo um coração de dor
Sentida
...

musa

PEQUENO POEMA PARA LOGO ALI

PEQUENO POEMA PARA LOGO ALI

: 41.026227, -8.640509

Deixo as coordenadas
Para esse curto caminho
O sitio exacto onde repousar
Uma praia deserta e algumas vagas
O areal dos sonhos como destino
Bem perto das ondas do mar
Onde o vento enfraquecer
E se sinta a maresia
A salgar o olhar
De azul ternura
E faça estremecer
As palavras de poesia
Em doce loucura
Nas arribas da rebentação
Para logo ali
Não distante da lonjura
Os versos que senti
Murmúrios de saudade e solidão
Em litoral de sentidos
Nas penas da alma para a mão
Esvoacem a memória das palavras
Serenas aves migratórias
A glória e as mágoas
E um pedaço de mim
E as coordenadas as minhas histórias
De um regresso sem fim
...

musa

NUMA OUTRA VIDA HAVERÁ UMA HISTÓRIA DE AMOR PARA CONTAR

NUMA OUTRA VIDA HAVERÁ UMA HISTÓRIA DE AMOR PARA CONTAR

A casa quieta
Guarda segredos
Sentimental desperta
Sorrisos e medos
Memórias a ranger
E há uma gaveta a esconder
Tristes cartas de amor
Versos por escrever
Palavras de saudade e de dor
E alguma poesia
E pelo chão roído de abandono
Livros de velhas histórias
Rituais de magia
E o esquivo gato sem dono
E nas paredes manchas e marcas de glórias
Em teias de lembranças
Há ainda aromas de sentidos
E o espirito de uma vida maior
Um rasto de intimas esperanças
Nos objectos esquecidos
Um rosto esplendor
A contar do passado
Alguns sonhos perdidos
Como se o baú fechado
Se abrisse ao espanto
Num palco de afectos
E esses instantes secretos
Com a pátina do encanto
Despertassem de adormecidos
Como coisas para viver
Pedaços consentidos
Na alma por morrer
Um poema recordação
A marcar o destino de paixão
De algo que há-de ser
...

musa

TERRA MAR CÉU

TERRA MAR CÉU

Bastam-me três coisas para me convencer
Ganhar aceitar perder
A terra que do espaço é o planeta azul marmoreado
Essa imensidão de mar profundo e azulado
E o céu mesmo que luminoso e estrelado
São os meus olhos azuis a iluminar
No mais intimo olhar
Que a vida é um trio sereno pintado
Do azul mais bonito que se possa imaginar
A cor fria do infinito movimento
Geradora de vida e luz
Na sombria imagem do firmamento
Em silêncio que seduz
A dócil interrogação
E adentro questiona a vida
À insustentável leveza da solidão
Estará o homem sozinho?
Nesta existência perdida
Numa errância por destino
...

musa

AMOR SENTIDO

AMOR SENTIDO

Não sei escrever
Versos que te digam
Dias de silêncio que castigam
Ânsia ausência de viver
Que os cegos de amor urgem sofrer
A tímida saudade de sentir
Não sei mais mentir
Nem em raiva confiar ou ainda crer
Ou de acreditar ou de esperar
E nunca desistir
Porque ainda há
E existirá
Réstia de esperança e de prazer
Não sei porque ainda espero
Este amor que deixo morrer
De solidão e desespero
Sem nunca o ter
E sabendo que nunca o terei
E nunca tido
Foi o único homem que eu amei
De corpo e alma imerecido
Pelo prazer silêncio que lhe dei
De toda a paixão que confessei
E que ainda guardo no sentido
...

musa

INDOMÁVEL TRSITEZA

INDOMÁVEL TRISTEZA

São assim tristes como quem lágrimas chora
Sem no lívido frio rosto escorrer
Uma única gota de tristeza deitada fora
Na face endurecida o pranto a desfalecer

Indomável sofrimento espelho da alma
Do maior descontentamento que o sentir da vida
Em desassossego desabriga a calma
Que os olhos vertem de dor ferida

Vítreos de uma aflição em névoa e saudade
A cobrir o azul sombrio em orvalhado olhar
Desnudando no rosto a mais triste intimidade

Em acinzentado e húmido vendaval e maresia
Como se no mar da alma fosse a naufragar
A mais triste e meiga essência da poesia
...

musa

DOS OLHOS TRISTES

DOS OLHOS TRISTES

Impetuosa a loucura
Se um verso o consentir
Atenuem de poemas a tortura
Salvem os meus olhos
Do insano sentir
Da ilusão
Dos rios
Dos recantos sombrios
Onde a luz não entra
Dos cardos da escuridão
Dessa morte lenta
Que se apressa sangrenta
Promessa que enfrenta
Os mais tristes frios
Da vida em imagens
Dos cristais sentidos
Das gélidas paisagens
Lugares perdidos
Olhares esquecidos
Onde nunca ir
E se da luz florir
A ilusória poeira
A salvo os olhos consentidos
A viver dessa maneira
Opaca densa névoa a toldar
O longe adormecido no olhar
...

musa

ESPERAR

ESPERAR

Já não sei mais o que espero
Este inverno longo e frio
Das ruas sombrias e ausentes
Do amanhecido desespero
O caminho ao vazio
As mãos escondidas e quentes
O sentimento que não quero
As palavras eloquentes
Da apatia a florir
Nobre o desfile da pressa loucura
O sol que não quer abrir
A espessa tortura
O gelo que teima em ficar
E o denso nevoeiro em pesado abraço
Profundo perdura
Carrega silêncio e cansaço
E com dois dedos de alma
Fecha o olhar
Liquido e baço
Desesperado a desistir
A resistência do sentir
Uma réstia de esperança que ainda dura
O corpo escondido debaixo do cartão
A esconder a dignidade
Nos lábios o beijo da solidão
Na boca a arroxeada tonalidade
Da vida em escuridão
A humana miséria a esperar
Porque tarda tanto desesperar
...

musa

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SER TRANSMONTANA ( a GRAÇA MORAIS)

SER TRANSMONTANA ( a GRAÇA MORAIS)

Bem cedo cerram-se as portas
Sem trinco ou tranca ou fechadura
Das trindades às horas mortas
Há um silêncio talhado em loucura
Um esgrimir de barulhos em luta
Um desassossego por sentir
A noite enforca-se de tortura
O dia afunda-se de labuta
Tudo parece chegar e partir
E dos currais grunhos  enfeitam a madrugada
Abrem-se os portais da bruma
A névoa fria emaranhada
Das lágrimas feitas de espuma
Na sombria luz clareada
Que em baforadas de melancolia se esfuma
Morde de uma pobreza infinita
E o dia sem sol ainda grita
Já os lameiros estão pisados
E as terras em descanso
Embaladas na invernia
São portais escancarados
Temem o pranto manso
Do inquieto rio a correr
Em bucólica fantasia
A vida a estremecer
No ventre da alma das mulheres transmontanas
Há o labor o parir e as rezas do ser
Palavras secretas divinas e mundanas
Como se existir pudesse transparecer
Por entre frinchas e aberturas
Uma réstia de luz de marfim
Que a negra e profunda solidão

Bem enraizada em mim 
Do avental ao xaile e ao lenço
São uma herança sem fim
São a minha condição
Neste chão onde eu pertenço
...
musa