domingo, 31 de janeiro de 2016

FERRO-VELHO - Aguarelas JOÃO BRUM

Aguarela 20 x 30 João Brum
W&N 200 gr
2015
FERRO-VELHO

A paisagem velha caverna de paredes pintadas
O óxido ferroso das formas escuridão da pré-história
Dá movimento cor do amarelo ocre às cores metalizadas
Ramos e folhagem a coroar artistas de talento e glória

As árvores matizadas de azul verde marron vermelho
O chão preto castanho canela roxo ou esverdeado
Mesclam na terra os ácidos e sais do ferro velho
Com a humidade da luz e o ar límpido sulfurizado

Química pardacenta pigmentada dos polimorfos minerais
O fogo fundido húmus colorido da natureza em putrefacção
Gravura polimentada em brilho ouro velho e outros metais

Há fuligem pó de bruma a pintar de vida uma aguarela
As tintas diluídas sentidos ferrugem do pincel à mão
Na paleta a ternura sentimental do pintor na tela
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musa

SENTIDO SENTIR

SENTIDO SENTIR
Gostava de ter a capacidade de escrever coisas que levasses para a cama e se deitassem contigo...
A pele do sentir faz sentido na intimidade do prazer como se voasses chama fogo olhar abrigo
Na tua boca ninho sou pássaro a arder um voo de intimas sensações em cumplicidade e castigo
Torturas com as mãos em desassossego e luxúria a derme incendiada das palavras com que adormeces os cabelos de trigo
Depois de domado o animal em ti num jorro provocado riso excitação o lume que arde é loucura sedução e perigo
A rondar indomável desejo intensidade atracção de um beijo rastilho
Esse amor que não existe em lugar algum ou tempo que o faça existir quando separados os dois somos tudo depois em sentido sentir
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musa

MAGNÓLIAS DE DOR

Não consigo dormir
E atravesso a noite
Minha mãe solidão
E faço peregrina
A via dolorosa
Transfiguração
Do meu sentir
Choram as magnólias floridas
As pedras da escuridão das avenidas
Que a noite invade de dor
Em cânticos analgésicos
De silencio e lagrimas
Na lage do esplendor
Da loucura das mágoas
As horas maceradas
Pétalas de sofrimento
E esta dor não adormecida
Embala as trevas do pensamento
Violenta e crua em sentimento
Fere de sangue a própria vida
Procria de sono infanticida
Uma morte de útero e desalento
Não sei se viva descontentamento
Se esventre de química sentida
A carne da alma emolumento
Que sentencia proibida
Este louco tormento
Tão de mim consentida
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musa

MAGNÓLIA

Feliz aniversário Isabel Marcolino

Magnólia - para a ISABEL

Candura de um pincel
Que pinta os céus
Seda pura
Pétalas de mel
Mãos de Deus
A doce ternura
Solidão em flor
A vida em folhas
Entre a dor e o amor
Os dias são escolhas
Rosa magnólia cor
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musa

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

NÃO ME APETECE

NÃO ME APETECE

Não me apetece pensar
Se alguém me ama
Se alguém me quer
Se alguém me deseja
Se alguém me cobiça
Se alguém pensa em mim como mulher
Não pensar em mim
Não será ofensa
E a vontade orgulho dispensa
E a rebeldia atiça
E o desejo sem fim
Tem sempre licença
Licenciado então melhor ainda
Incita a excitação
E tudo apetece
E até favorece
A imaginação
A doce sedução
Do sentir
Não me apetece mentir
Quando a vontade é tanta
E a ilicitude encanta
E não conseguir resistir
É tamanha loucura
Capaz de consentir
Insana tortura
Freio de sentidos
Olhos perdidos
Suave candura
De ser
Existir por puro prazer
De tudo apetecer
Até em negação
Ao sim se render
Dizer com paixão
Sim e não
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musa

VAI CHOVER

VAI CHOVER
O dia tem cara de tempestade
Cinzento frio ventoso
Esconde do dia a claridade
Amua e torna-se chuvoso
Vai chover
Da varanda de lá de cima
Uns pingos soltam-se lentos
Parecem lençóis aos ventos
E o sol arredou a cortina
A tarde escureceu
Mas ainda não choveu
Vai chover
Está quase acontecer
As nuvens espessas cinzentas
Vestem-se cruas pardacentas
Carregadas de bátegas de águas
Choram profundas mágoas
Escuras negras macilentas
Que ao olhá-las até faz doer
Como se a chuva fizesse sofrer
E as grossas gotas húmidas
Fossem feridas
Sentidas
Vai chover
Não tarda a tarde será molhada
E o sol mais tarde vai aparecer
Como se não tivesse sido nada
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musa

FAZES-ME SENTIR

Para ti...

FAZES-ME SENTIR

"Fazes-me sentir partícula ínfima deste universo"
Quando deitado na cama ao meu lado
Vês no tecto do quarto
Um universo de ínfimas partículas
Que eu nunca soube dar a mais ninguém
E colocas o teu olhar esgotado
Nas águas rasgadas de suor em doce parto
E amacias nos lençóis humedecidos
O canto sublimado do cansaço das cutículas
E beijas e abraças o silêncio também
Quanta loucura no leito espaço

Depois recuperas as forças entorpecidas
Sacodes do corpo os sentidos
E abres ao mundo as pálpebras adormecidas
E sussurras-me lagrimas em gemidos
E ainda dizes deste mundo como é pequeno
Se pudéssemos gravar na alma o universo
Tatuar de estrelas o silêncio sereno
Ainda pó de sentir num verso
Na obscuridade do quarto onde sonhamos
Já o mundo acordou a ilusão
Suor saliva sémen e mais fluidos que respiramos
Somos tu e eu nesse planeta de excitação

As paredes do quarto cheiram a sentimento
E no chão partículas de instantes apressados
Devaneios e outros pensamentos carnais
Perfumam de vida o firmamento
E outros planetas nunca encontrados
Ferem a memória os efeitos especiais
A nave do desassossego vai-se embora
Fica um rasto de ausências virtuais sem fim
E esta saudade que tanto se demora
Dentro de mim
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musa

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

RESILIÊNCIA - "Lonely Survive" by Verlaine


RESILIÊNCIA

É tão de ti
Pesado
Espesso
Denso
Vivo

Infinita espessura
Quase dormência
Quase castigo
Quase loucura
Resiliência
Superação
Resistência
Solidão

E deixas-me no silêncio mais profundo
E a certeza de eu resistir
Como se não existisses no mundo
E fosse doce esse sentir
E tudo intacto de serenidade
Rodeia-me a resignação
A suprema abnegação dessa docilidade
Quase amor em negação
Hímen rasgado da verdade
Um hífen roubado
Em liberdade

Resisto quieta abandonada
No silêncio mais puro e sentido
Atravesso o tempo resignada
Passo seguro e cabeça levantada
Vagueio dilacerada em olhar perdido
Em sôfrego sofrimento silente nada
Em suspiro desilusão em dócil aceitação
Como se
De resiliente paixão
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musa

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

CATEDRAIS DO MAR - Aguarelas JOÃO BRUM

João Brum
Aguarela 15 x 30
W&N 200gr
2015

CATEDRAIS DO MAR

Em pousio sossegado vigília descanso
Que olhar alcança dos soberanos mastros
As velas resguardadas do vento manso
Embrulhadas as estrelas os cometas e os astros

Tantas aventuras já vividas em mar pelas catedrais
Crepúsculos e noites tingidas de saudade
A solidão navegada no brilho cintilante dos cristais
Barcos deixados no cais em doce liberdade

Imponentes veleiros elegantes caravelas, esquecidos do passeio
Aguardam no porto sob o espelho das águas
Outras viagens de aventura de descoberta de recreio

Guarda a catedral do mar teu olhar de prece
Aguarelas diluídas com pranto sal de magoas
Pintadas de silêncio quando inspiração acontece
...

musa

TARDE DE FOGO

TARDE DE FOGO
Quisera eu essa cítara de fogo chama querer
Guardar no seio dos teus lábios doce beijo
Um sussurro perdido de vontade e de prazer
Segredando ao ouvido todo teu desejo

E a tarde submissa aos teus loucos devaneios
Eram teus olhos rendidos ao vale do sentir
Carícias entrelaçadas no calor dos meus seios
A luz divina da tua boca como rosas a florir

Era tarde tão tarde as tuas mãos em oração
Fazendo do meu corpo o poente entardecer
Em loucura florida de meiga excitação

Crepúsculo da alma dos sentidos em flor
Na pele do olhar eterno corpo a endoidecer
Fim de tarde claridade em chamas de amor
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musa

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

PENACHOS RÓSEOS - Aguarelas JOÃO BRUM

João Brum
Aguarela 20 x 30
Bockingford 300 gr
2015

PENACHOS RÓSEOS

Róseos penachos salpicam as dunas
O silêncio perene da plumeira invasora
Bordam beira-mar de conchas e espumas
A maresia do vento dançante provocadora

Capim das pampas cresce dourado areal
Plumas suaves humedecem de luz a brilhar
Vagas em terra ondeando pela brisa de sal
Tamisam de purpura cor a praia e o olhar

O sossego secreto da paisagem salgada
Baila com as plumeiras valsa do céu azul de mar
No recanto perdido da marítima enseada

Um búzio anuncia o baile do capim
Sobre a areia branca as ondas de par em par
Fazem das dunas róseas de oiro jardim
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musa

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

MANTA DE RETALHOS - Aguarela JOÃO BRUM

João Brum
Aguarela 13 x 30
Bockingford 300 gr
2013
Versão João Brum de uma Aguarela de John Lovett.

MANTA DE RETALHOS

Lá longe o comboio ou casario
A paisagem em seu esplendor
Campestre bucólico sombrio
O sol matizando-a multicolor

Dá-lhe forma em manta de retalhos
Bordando os campos floridos
Por entre pinheiros e carvalhos
Os muros dividem os coloridos

A terra em sulcos e raízes no pincel
Manta húmida na paleta do pintor
Imortaliza a paisagem no papel

O casario ou uma viagem no tempo
O comboio leva os sonhos em retalhos de cor
Talvez a vida imortalizada nesse momento
...

musa

INCERTO SENTIR DE MIM

Incerteza dos dias
És tristeza tão límpida
Translúcidas sombrias
Na amargura doce
De uma lágrima por cair
Essas horas e dias
Instante que fosse
Tempo arrastado a te sentir
Magnânima espera
Sabendo que não vens
E o corpo desespera
E o olhar a fingir
Momento incerto
A vida livro aberto
Na boca beijo secreto
E o coração a mentir
E a angustia pranto
As mãos abnegadas
E a chuva a cair
Incerteza desencanto
Lágrimas e pequenos nadas
E esta vontade desistir
Tanto tanto tanto
...

musa

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

SOLITÁRIA ÁRVORE - Aguarela JOÃO BRUM

 João Brum
Aguarela 20 x 30
W&N 170 gr
2015

As árvores morrem de pé na solidão
Do bosque perdido na clareira memória
Não sem a doce luz e vã ilusão da glória
Que tomba folhas secas na neve do chão

Esteios sombras verdes do universo
Pálidas bandeiras dessa frágil natureza
Uma a uma as palavras escritas do verso
São da floresta musas de tanta beleza

A árvore deusa mãe solitaria despida
No flanco regaço do monte onde habita
Em nudez a paisagem tão perdida

Renova se a cada estação prece primavera
Para ser elegante majestosa e tão bonita
Ainda que na morte a ronde essa quimera
...
musa

ZÍNIA ONDE?

ZÍNIA ONDE?

Nasceu a primeira flor no espaço
Zínia da cor do sol na escuridão
Entre as estrelas da terra a um passo
De florir jardim do firmamento solidão

No escuro silêncio secreto orbital
Floresceu timida e tão distante
Flor de um encanto doce espacial
Mais valiosa do que um diamante

Não sei que perfume fragrância odor
Possa ter em tão longinquo canteiro
Bela solitária exuberante no seu esplendor
Rara flor magia do astronauta jardineiro
...

musa

AMOR RECUSA

AMOR RECUSA

É talvez o último verso que te faço
Recusa deste amor em vil sofrer
Talvez mais do que prazer o meu cansaço
A recusar as lágrimas de assim viver

Esta entrega de instantes nos teus braços
Em fugidio amor de doce intimidade
No leito secreto dos amantes tão devassos
A essa luxúria de beijos na saudade

Meigos devaneios de corpos em entardecer despidos
Por momentos que amor tão puro de ternura
Mas nos olhos a alma entristecida dos sentidos

Talvez o único verso onde tanto te amei
Amor maior não fora esta vida de loucura
Que recuso mais viver porquanto não morrerei
...

musa