sábado, 8 de novembro de 2014

QUERER DE AMAR E TANTO NÃO TER - Mafalda Veiga- " Velho "- Mafalda Veiga (legendado)


QUERER DE AMAR E TANTO NÃO TER

E o tempo chega de palavras anuentes
De um verso vendido a um forrasteiro
De olhares perdidos no meio de gentes
Que acabam sozinhas no mundo inteiro

Desse amor gratificado que vende ilusão
Um punhado de gente que se perde tanto
Quando é sentir roubado em doce pranto
Pelas ruas onde se arrasta meiga a solidão

Amar e tanto não ter somente por querer
Que angustia afere intima docilidade emoção
Abraço que apertado de vida não quer morrer

Querer de amar e tanto não ter e tudo desejar
A vida essa senhora que amante consome desilusão
Tantos braços apertados num só profundo doce olhar
...

musa

NO LUGAR DAS COISAS PEQUENAS

NO LUGAR DAS COISAS PEQUENAS

Aparecem pela manhã
No lugar de todos os instantes
E do tempo ficam distantes
Como o cheiro a canela e a maçã
E tornam se maiores
Ainda que menores
Pequenas lembranças de outrora
Réstias de ousados sentidos
No lugar das coisas pequenas de agora
Há tantos momentos esquecidos
Viagens a um passado profundo
As cores sons odores sabores perdidos
Que embelezam avivam o mundo
Fazem da negra cor do café um colorido
O aroma da alma cheia
A vida que a incendeia
E lhe arruma o sentido
Senta se ao seu lado
Como quem chega de uma longa viagem
Dando cor e feitio a essa paisagem
Talvez isso seja o passado
Das pequenas coisas no seu lugar
De um pedaço de tempo guardado
No vão secreto do olhar
A memória que de amor arrestou
O que o coração guardou
...

musa

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

ALMA CONCERTINA

ALMA CONCERTINA

Ecoam na sala versos musicais
A valsa dos dedos na alma diatónica
As palhetas livres em sonoridade
Há na pauta dos sons carnais
Borboletas na luz harmônica
Em volta das sombras da claridade
A dança da concertina
Em delirios de saudade
Na tua alma menina
...
musa

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

GRITO

O vento solta espartilho
Agita-se se enreda enleia-se
A tarde esmaecida de luz incendeia-se
Na escuridão sentida da chuva vem o rastilho
Há um grito abafado de um trovão por cumprir
Um uivo resgatado do raio a cair
Elegia da tempestade
A tarde que arde
O fogo molhado

Para além do horizonte o céu acinzentado
Escurece a luz esfriada na humidade parda
A chuva ripada faiscando ruge em oração
A procissão da porcela rasgando os céus
A ventania aproxima-se e não tarda
A mão pesada do poder de Deus
Quanto do tempo é solidão
E desassossego sentir

Não há lugar a fingir
No império do temporal
As lágrimas por esgrimir
Na partilha do bem e do mal
No pranto da salvação
As dúvidas do imoral
A perturbar a razão
...

musa

VENTO CHUVA FRIO

VENTO CHUVA FRIO

Lágrimas tombam sobre a terra do alto do céu
Derramam gélidas gotas frias em obliqua ventania
A chuva levando as últimas folhas das árvores como troféu
Dançantes as sombras descendo a escuridão como um véu
Uiva o vento em furiosa alucinante litania
Proclamando temeroso pesado o inverno
Encurtando as horas do dia
Fazendo eterno

Fria chuva vendaval
Entristece o tempo que há-de vir
Efémera leveza da claridade sepulcral
Que esfria esmaece alivia de pranto este sentir
As rosas que perdem as pétalas sob a chuva
As velas que se apagam na humidade
O tempo que repentinamente se muda
Em arrebatada docilidade
Forma-se o temporal
Que é tempo de hibernar
Tombam as gotas em miríade
De luminosas pedrarias
Como se o dia estivesse a chorar
Das suas tristezas as alegrias

Olho da natureza essa magnanimidade
E sinto-me pela metade
Nessas gotas de chuva em fantasias
Da luz sinto saudade
Em gotículas euforias
...
musa


domingo, 2 de novembro de 2014

DIA DE FINADOS

A caravana dos anjos passa
No sangue aceso dos delírios
Onde nem eu me sinta escrava
Das mortas horas e martírios
Da caminhada triste e brava

Círios acesos e flores viçosas
E o branco mármore tão lavado
Aos pés do Cristo lindas rosas
À cabeceira do túmulo crucificado

Murmura voz do pranto na mistura
A terra toda em tumbas e jazigos
Acesas as velas ardem a loucura
Das preces atenuando os castigos

Em gavetão ou ultima morada
Os sete palmos que alma há de ter
Do corpo a vida assim retirada
Quando no último suspiro morrer

A cera em doces pingos sobre a lage fria
Lágrimas como pétalas já caídas
Bruxuleia a tarde triste e sombria
A pedra e o pó sobre a campa rasa
As preces em salvação de tantas vidas
Silêncio que do grito verte vaza
A podridão das dores e das feridas

Os sinos dobram em dia de finados
Nas horas mortas e perdidas
Lembram faltas e pecados

A caravana dos anjos em procissão
Há tristezas vivas e sentidas
No ar o vento leva a oração
...
musa

TEU COLO DE MÃE AUSENTE

TEU COLO DE MÃE AUSENTE

Morreste a tarde morna ainda
O frio que veio ao entardecer
A luz desfalecida o olhar finda
O dia morto pranto entristecer

Partiste Mãe teu colo ausente
Recebe as lágrimas por chorar
Dor que o peito ainda consente
Nos lábios o beijo ficou por dar

Pressentida a morte trêmula tarde
Acolhe do regaço brando sentido
Vela que se apaga e não mais arde

O tempo minha Mãe resta tão vazio
Sentimental longínquo perdido
Pensamento réstia instante pavio
...

musa

sábado, 25 de outubro de 2014

MEINE BLUME

Olhas nos meus olhos como quem vê o mundo
Sorriso entrelaçado nos caracóis dourados
Os dedos por entre eles emaranhados
E o teu sentir murmurado doce profundo

É no teu olhar que eu me sinto o teu amor
Em todas as línguas universais
Prendes-me com a doçura e o calor
Dessas palavras mundanas carnais

E quando sorris e o meu nome se esfuma
Por entre o cigarro e o teu pensamento
Há uma palavra somente uma
Que confessa esse teu sentimento

Meine lieben meine blume mulher do meu encanto
Fico assim enternecida na voz rouca do teu sentir
E não há língua ou prece que eu ame tanto
Essa oração dos teus olhos que parece pedir
Risos emudecidos desse teu pranto
Que de amor eu possa consentir

Traduzo os sentidos na linguagem da tua boca
Haverá ainda outros que nunca te ouvi dizer
Mas é no teu silêncio que eu me sinto louca
Quando me ensinas palavras de prazer
...

musa

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ALMA DE NINGUÉM


Nunca ninguém em mim achou
A alma pó alma sentido
Alma alguma que em mim se encontrou
Nunca ninguém se queixou
Que a alma havia perdido
Talvez do limbo resgatada
A alma coisa nenhuma desprendida
Das profundezas do ser encontrada
Alma alguma desentendida
Em mim possa ser afundada
Como barca naufragada
Depois de andar à deriva
Adentro tão visceral fundida
Em carne sangue das veias latejantes
Alma carnal tão escondida
Espiritual preterida
Das vísceras esventradas fulminantes
Alma em ruínas quem não a tem
Casos perdidos vãs esperanças por cumprir
Portas fechadas onde não entra ninguém
Almas há por aí com muita vontade de desistir
No vão dos umbrais descaídos
Línguas de fogo alumiando
Tochas acesas a refulgir
Caminhos de almas incumpridos
Trilhos de espíritos penando
Luminescências círios ardidos
Círculos de fogo iluminando
Almas por arder
Pedaços do ser
...

musa

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ORAÇÃO

ORAÇÃO

Ensina-me o silêncio do sentir
O murmúrio a prece
A oração que acontece
Nos teus lábios a sorrir
Pelo doce olhar
Como rosa a florir

Imagens de rubro carmim
Na tua boca a bailar
Quando sorris para mim
Ensina-me de olhos silenciados
Nos teus lábios molhados
Da boca por beijar
Florida por fim

E em silente sentido
Oração prece ladainha
Murmúrio sussurro gemido
Pedir-te que sejas minha
Nesse olhar destemido

Rosa flor do roseiral
Do jardim da tua alma
De uma fé especial
Que de amor enfim se salva
Para ser tão sem igual
Do silêncio a liturgia
Da palavra a poesia
Do poema universal

Ensina-me o silêncio preterido
No triângulo do teu rosto
O néctar ainda não bebido
Nos teus lábios doce mosto
Que inebria o meu sentido
...

musa

domingo, 5 de outubro de 2014

PRECE

Queria que a morte viesse
Doce lentidão de sossego
Murmurada sôfrega prece
Num sorriso presa ao medo

Em leito labial arroxeado
Pálidas as faces de candura
Olhar vítreo enclausurado
Nas tábuas negras da loucura

Queria que chegasse silenciosa
Como coisa minha implorada
Prece de intimidade copiosa

Levasse a vida e o olhar do mundo
Que é tão triste amargurada nada
Tão cúmplice de este sentir profundo
...

musa

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

AINDA - ao Rui

Ao RUI pelos teus olhos negros...

AINDA

O que há dentro dos teus olhos tão negros
Bailados de sonhos por contar
Desilusões alegrias ilusões medos
Ainda mistérios credos paixões segredos
E a alma inteira de loucura abarrotar
Como se a aventura vivesse em ti
Que feitiço têm os teus olhos doçura
Negros olhos por quem me perdi
Colmeia vibrante onde busco mel
Há tanto no teu olhar de ternura
Os teus olhos como uma segunda pele
Em evasão cumplicidade procura
E eu sem saber o que fazer
Ainda por desvendar tanto prazer
Abelha de flor em flor
Pólen negro a florescer
Olhar quieto ao entardecer
Em timidez torpor
Ainda por ser
...

musa

LONJURA A DESORAS

O que dizem os teus olhos
perdido na cor dos teus espelhos da alma
deslumbrado pelo gentil rosto sereno
desgovernado nas curvas dos teus labios romã
onde pescador algum se salva
enfeitiçado pelos teus cabelos cor de feno
aurora resplandecente da luz da manhã
moreno amanhecer
redobrado prazer

que imagens me trazes do mundo
trago as melodias das florestas
o conhecimento intímo profundo
a alegria dos sorrisos e das festas
a respiraçao murmurante dos oceanos
as ondas da maresia dispersas
o cantar dos ventos em silêncio estranho
a sensualidade da musa do norte
o sonho sem medida sem tamanho
enleada num véu de cor transparente
suave brisa de encantamento
o entardecer que olhar sente
estendido o pensamento

há um brilho no teu olhar
um rasto de sombra em liquidez
profundidade de mar
ou espelho de timidez
ou flor por descobrir
orvalho colorido
vontade de descobrir
esse encanto sem sentido
onde o silente murmúrio do olhar
quase insano quase proibido
brilha humedecido e estende a mão
além do tempo que assim pode conspirar
pode até ser somente a ilusão
da terra que se estende além mar
que eu nunca conseguirei embalar
em vagas dos olhos nessa longura
alma estendida por toda a parte
em imensidão e loucura
unindo pontes do sentir

rebeldia em sensivel impulsividade
e tudo o que a alma possa permitir
há uma mecha de cabelo solta em desalinho
cumplicidade dos olhares em docilidade
dança de sentidos no teu rosto sereno
que escondem os teus olhos do destino
feitiço oração elixir ou veneno
perturbando a minha tranquilidade

o rumo o caminho
palavras a desoras
não sei se demoras
se fico a esperar
que sejam horas
para te encontrar
...

musa

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

OLHOS AZUIS

Versos de amor
teus olhos de cor
de azul que não existe
uma flor que resiste
no jardim por colher
tão azuis que ferem
anil imperfeito
qual alma no peito
se a tiverem
que não a possam perder
por olhar azul nenhum
como eu já me perdi
esses olhos azuis que eu vi
pétalas de sentir um a um
no meu olhar consenti
haver tão belo desabrochar
rosas azuis a despontar
em doce profundidade
ah... olhos teus de azul florido
orvalhando o meu olhar
de intensa felicidade
perturbando o meu sentido
dando cor à minha idade
em azulado proibido
...

musa

MATIZES

MATIZES
"o imprevisto transtorna a pontualidade do relógio.
é nessa incerta hora. amor.
que irrompes. como chuva torrencial.
um tique taque. que enlouquece.
és o tempo demencial
imprevisível
do meu relógio de pulso
a.s"

matizes ao abandono
sou gota intemporal
da caleira do teu sono
incerta pontual
a cor esbatida
sou demónio
que te seduz
sou vida
sonâmbulo ser
nuances luz
heterónimo
parecer
...
musa

sábado, 27 de setembro de 2014

LÁGRIMAS A SORRIR

... onde andam as gotas de chuva
as lágrimas dos teus olhos a sorrir
por onde anda a brisa do sentir
derrapando a última curva
antes de ser verso
e o vento varrendo de estrelas o universo
a chuva luminosa de Aquáridas ou Leónidas
mostrando da luz o reverso
céu de fogo carmim
meteoros caindo
ou o teu olhar sorrindo
para mim
...
musa


a folhagem do Outono explode em pequenos ladrilhos
mas tu ainda vens com o último quimono de Verão
da esplanada onde te encontras
avistas a ondulação
esfarelada dos navios
os teus cabelos como ulmeiros
estendem um abrigo
para o dueto mudo das caricías
a.s

há na ondulação dos teus olhos descobertos
o brilho dos espelhos ladrilhados
milhões de reflexos do prateado das vagas
a emoção de bailados secretos
sonhos desfraldados
memórias amargas
no encadeado da luz outonal
entre as cores adormecidas
o Verão nunca mais será igual
no embalo agitado das nossas vidas
...
musa

moro aqui
página em branco
trincheira inútil
imaginando-te a transpor
o muro alto das palavras
moro aqui
emboscado
tentando salvar
remendos de um futuro às escuras
os olhos pesam
os joelhos tremem
as portas estão trancadas
rapta-me
a.s

no vazio das tuas páginas deixo-me ser
morada aberta em cais nenhum
nas tuas mãos de sal a tremer
a trincheira onde um a um
os teus sonhos pescam a sonhar
um barco entre vagas a adormecer
onde as palavras vão navegar
dos teus sonhos que pescas a sonhar
nas páginas em branco por escrever
...

musa