domingo, 31 de agosto de 2008

SANTA TERESA

Santa Teresa D'Ávila

Neste êxtase místico de Santa Teresa, vêmo-la como que ferida por uma seta de amor divino, das mãos disparada por um anjo (que não deixa de nos lembrar Cupido), e nesta escultura pode apreciar-se toda a sensualidade e movimento que o autor emprestou ao mármore, onde retratou a santa apaixonada ou a santa das grandes paixões.

Pranto de Moema

Da serenidade desse chão ardente dos Paraguás
No fértil rio Itapirucú das campinas dominante
Banhava-se formosa musa entre cheiros de lilás
Esperando que as águas trouxessem seu amante /
Moema índia muito amada por Tambatajá deus do amor
Cresceu donzela na solidão enaltecida dos mortais
Na abundante floresta sob o bramir suave da sua dor
Foi espalhando suas brancas rosas tristes e fatais /
Veio nobre igara riscando ao longe o horizonte
Afundeando duma tempestade o tempo incauto
Mas bela índia de medo e sombra na sua fronte
Corre das praias das selvas mansas do mar alto /
Amargas lágrimas trouxe o guerreiro branco ao seu olhar
Estranho esse vento de partida chegou impiedoso colossal
Zarpou de toda terra sentida e foi no horizonte a navegar
Deixando tempo saudoso lamento seu canto a murmurar /
Choros de tristeza sem conta nasceram no seu lindo peito
Saudade imensa tanta do seu Caramuru jovem guerreiro
Nação ditosa de selvagem formosura cresceu nesse leito
Nas águas do amor da dor beleza desse povo brasileiro

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Parto do Pranto

deixa-me ter nos teus braços o parto do pranto

no teu olhar deixa rebentar as águas em delírio e encanto

abrir as pernas em doçura ardente

dentro do meu peito sentir tão quente

nasceres em mim

abrir-se a alma como entrada nas fráguas

pedras escravas de todos os sentidos

de todas as mágoas

de todos os choros paridos

enquanto as ancas se aprumam no jeito

as carnes se alargam

se alagam em sangue no leito

espasmos em flor e uma a uma a contracção

as dores se afagam

voltam a vir

os olhos se apagam

para da dor saíres tu

e eu tanto te sentir

num parto de dor e comoção

o corpo extenuado nú

acabado de parir

uma paixão

PUTA PROMESSA A DA MARIA

Maria por pressas já vai cansada farta de tantas promessas feita submissa de mármore pedrarias na goela a raiva incontida que tanto fel e mel lhe darias atravessada ao olhar a humidade sentida sabendo a nada sabendo a vida Ah! essa Maria raivosa das esquinas esbotenadas pombinhas escancaradas peitos roubados de sossego por passeios espraia o medo perde a saudade e a esperança nas ruas da amargura e do absurdo as mãos a tremer de vingança o corpo a jurar ser criança e os homens a querer tudo botões de rosa desfeitos em saliva esculpidos de beijos e de sal a pele dourada como a espiga num campo de trigo visceral Maria apressa a sua deixa não tem tempo para o amor já nasceu em forma de gueixa de um triste parto com muita dor

Mulher

Ah! mulher, por onde espraias as tuas ancas
nas vagas mansas do teu ser
nos pés um belo par de chancas
na flor do teu corpo teu querer
no teu peito dores tantas
meia de vidro por coser
na teia de linho tu fazes mantas
pelo teu olhar a humedecer
corre o riso das crianças
os temperos do comer
as tuas muitas andanças
o desejo a florescer
e à noite
deitas-te só
acordas cedo e mal dormida
esqueces o medo limpas o pó
fazes a comida
e o teu corpo de novo adormece
no embalo do teu choro triste
de mágoas que a tua vida tece
de palavras que sentiste
a uma dor que te obedece
uma alegria que nunca viste

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Gazela Ferida

Vou contar-te um segredo mas não digas nada
Quando a noite desce clara sou gazela à solta
Vivo escondida e triste na floresta encantada
Vai-me procurar brilhante lua que te envolta
Nada temas e nem digas o que te diz meu segredo
Se olhares a clareira enevoada aí me encontrarás

Quieta e mansinha de olhar meigo de muito medo

Depois desse longo caminho que da tua vida farás

Nessa clareira eu vivo o meu destino disperso
Aninhada espero dentro da toca meu abrigo
Sou a gazela à solta como palavras em verso
À guarda das intempéries da caça e do perigo
Destino que te pede implora me venhas libertar
Rompas clareira à luz da lua em fúria e ousadia
Descobrindo o meu segredo que é este versejar
Gazela solta do medo por esta encantada poesia
Escuta na escuridão apinhada de silêncio e grito
Inferno que se solta abrigo dessa imensa solidão
Vou estar lá num poema sublinhado e a negrito
Emboscada de negra bruma sublimada de ilusão
Escuridão só minha em meus lábios a tremer
Gazela que tu procuras com seu olhar de sal
Corres a floresta louco sem saber o que fazer

Procurando o seu choro por sentir tanto mal

Na floresta escura ébria sem sentido clandestino
Vai pisando devagar essas folhas secas pelo chão
À procura de mim gazela guardando o teu destino
Como se fora ela a rosa desabrochando em botão
Mas a estranha floresta onde vivo é quimera
Perdida do tempo que não tem em mim lugar
Nunca tive Verão Outono Inverno Primavera
Sou apenas solitária gazela que se deita ao luar
Serão meus leves passos estações da tua sina

Quando choro lamento toda mágoa em gritos
Dor que fere tristeza e que num canto desatina
Espaço de duro silêncio que amarro de conflitos

Na húmida terra vou deixando meus passos

Gravados todos os lamentos de gazela ferida

E das folhas soltas eu vou desfazendo os laços

Que me têm atada à secreta noite desta vida

OCULTA SOMBRA

na oculta sombra onde te sinto sou só a floresta virgem de tudo / fica o silêncio meditado no longe que trouxeste do negro mar / onde uma razão cambaleante se embrenha no insólito absurdo / fica o vazio procurado perto das clareiras límpidas a fumegar / todas as folhas secas pelo chão massacradas de passos já feridos / todas as húmidas gotas da solidão a humedecer como sentidos / e o corpo a proferir sentenças a largar amarras de todo o seu ser / a deixar por terra as desavenças como manto de flores a florescer / fresco húmus dessa beleza meiga onde eu me deito até morrer / vaza de mim seiva de tormentos e toda esta vontade de tudo querer / como se toda a alma fosse feita de momentos e o corpo só de prazer / como se a carne fosse terra chão duro de sentimentos e eu coração / como se toda a minha vida fosse gritos raiva incontida e sedução / fosse na floresta raiz espiritual que clama a vida tão conturbada / folha apenas pelo chão seca desfeita migalhas de vida feita nada / esvaída sangue linfa putrefacta esmorecida numa natureza morta / desfolhada de todos os sentidos em pétalas de mágoas e tristeza / rasgados todos os nervos cortados os pulsos a pele dura e a aorta / apetece-me fugir largar tudo abandonar-me sim com toda certeza /

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

YouTube - Tim e Mariza

YouTube - Tim e Mariza

Fado do Encontro


Vou andando / Cantando / Tenho o sol à minha espera / Tão quente, brilhante / Sinto o fogo à flor da pele / Tão quente, beijando / Como se fosses tu / Ao longe, / Distante, / Fica o mar no horizonte / É nele, por certo / Onde a tua alma se esconde / Carente, esperando / Esse mar és tu / Pode a noite ter outra cor / Pode o vento ser mais frio / Pode a lua subir no céu / Eu já vou descendo o rio... / Na foz / Revolta / Fecho os olhos penso em ti / Tão perto / Que desperto / Há uma alma à minha frente tão quente, / Beijando / Por certo que és tu / Pode a lua subir no céu / E as nuvens a noite toldar / Pode o escuro ser como breu / Acabei por t'encontrar / Vou andando /
Cantando / Tive o sol à minha frente /
Tão quente brilhando / Que a saudade me deixou / Pra sempre, por certo / O meu amor és tu

ADEUS

...a todas as mulheres que um dia tiveram a coragem de dizer ADEUS !
Quero ir embora, deixa-me ir, já sem demora, deixa-me partir seguir o meu caminho
Vou indo ao encontro do destino
Dizer-te adeus carregando o luto negro a trouxa da vida lá dentro escondido o medo
Adeus por todas as palavras esgrimadas nos cumes inversos de meros sentidos
Adeus por tudo o que ficou por dizer no desapego das mãos dadas por todas as bofetadas e todos os castigos
Adeus por prantos agoniados quebrantos talhados em olhares despidos e roubados de vultos clareados em abrigos de maldição
Adeus promessas de prazer e sedução no corpo lavrado de tão imensa espera e comoção deixado ao abandono por tão penosa traição a sofrer
Adeus alma vadia torturada na silenciosa desilusão doce do ser ofegante de amor e paixão pedindo delirante que quer morrer
Adeus solidão da minha vida pejada de seres tão cheios de alegria tão felizes de viver

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Noivado

Noiva
Seguravas no teu olhar
O mar dos meus olhos
A ondular
Parados de um abstracto puro
Falavas-me de longe
O teu discurso tão seguro
E eu sempre voltava ao teu lugar
As nossas mãos peganhentas
De promessas sinceras
Conduziam as caricias
Sedentas
Enlaçavam-se em nós como heras
Trepavam de amor
Dizias-me que eramos noivos
E eu chorava
Em flor
Desabrochava
Muda de espera e de ilusão
Guardava em mim
Essa palavra bonita
No coração
Noiva até ao fim
Sem o ser
Amava
Sendo-o para ti
Sonhava
Rolando cada sonho
A florescer
No choro por ti desencadeado
De volta ao real da vida
Num eterno
Noivado

ALMA

Entrega-me as rédeas da tua alma e deixa-me galopar os teus sonhos

Na áurea luz dos teus sentidos deixa-me ser clarão de alma

Quero entrar no labirinto espiritual da tua alma e afundar-me dentro

Quero ser o teu centro

Fascina-me o nome alma quarto de palavras

Onde é seu aconchego entre as ervas bravas

Profundidade repleta de todos esses sentidos

Desperta espiritualidade dos sonhos prometidos

Expressão secreta nessas tuas faces duras e vagas

Interior orgásmico vertendo dos olhos prevertidos

Em todas as sensações que no meu corpo rasgas

Como véus mantos linhos voiles e sedas vestidos

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Pedra Negra

pedra negra essência mímica leve e pura espalhada sobre o areal de muitas marés fazes o percurso da razão e da loucura roçando velas cordas em convés teu traço duro de leveza baila rondando sobre a areia como se negro fosse pureza como se bela fosse feia mas pedra negra dura leve tu és vinda das entranhas do mar salgado percorrendo mares de lés a lés lava fria e quente fluído morno e gelado caíndo como lágrima do olhar da sereia de todas as mágoas do oceano transbordado vindo ondulando sobre as águas até à areia essa negra pedra negrume atiçado barro cal e vidro feito pedra grés

BUENA DICHA

Pede a uma cigana que leia tua sina
São leituras sábias as dessas mulheres
Dá-lhe a tua mão ao cruzares a esquina
Mas não lhe dês os olhos se tu não quiseres
Cuidado com ela
Não lhe dês a alma
Esconde o teu olhar
Procura na mão a linha paralela
Aquela que salva
Quem te vai matar
E se esconde nela
Só para te roubar
Deixa-a amaciar teus desejos teus sentidos
Verter na tua pele sonhos prometidos
Deixa-a cruzar as tuas linhas
Contar-te de um futuro que tu já não tinhas
Ah, cigana lê-lhe a buena dicha do seu coração
Diz-lhe que sou eu que estou no seu caminho
Conta-lhe da vida que vai ter e eu não
Se ele não me quiser mais no seu destino
Coloca meu ser minha alma na sua cabeça
Olha a sua pele cor de terra e de fogo
Suas muitas saias todas coloridas
Deixa-te ir nas regras desse jogo
Deixa que te conte das tuas muitas vidas
Ser seu amor mesmo que não pareça
Ser sua esperança que lembre que esqueça
Ser a sua sina de muitas almas tidas

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pontão Nevado

Partiste do pontão nevado do meu olhar
Levando pequena barca branca remando
Sobre as frias águas em plenitude ondular
Sentiste tristes olhos azuis de gelo soluçando
Mais do que em mim partistes louco e só
Como se da minha alma fosses abandono
Como se da terra do meu corpo fosses pó
Mais do que tristes folhas de pálido outono
Partistes da parte do meu ser em leve pranto
Na saudosa quietude silenciosa do lago sombrio
Ouvi-te a sussurrar meu nome em doce canto
Oh! melodia chorosa descendo levemente o rio
Mais do que essa harmonia de água e choro
Deixou dentro de mim teu ser tamanho vazio
Lento percorrer por onde fico e me demoro
Sou da tua meiga sombra luz ténue teia e fio
Partiste a caminhar indo nas águas paradas
Desassossego profundo lago escuro solidão
Ai! como sou orvalho de tantas madrugadas
Chuva vento lago tempestade raio furacão

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Alma Roubada

Não sei onde levaram tanta tinta de penas
Por esse cosmos de poeiras sentimentais
Não sei onde deixaram às dezenas
Tantos beijos cordiais
E o amor
Amor Amor Amor
Onde deixaram esse astro de prata e oiro
Capaz de levantar mastro e vela
Enfrentar lobo e toiro
Levar barco e caravela
E o amor
Tão depressa é alegria como já é dor
Tão depressa é contentamento
Como já é distanciamento
Aonde levaram o amor
Em tálamos de ninfas e de deuses do Olimpo universal
Em camas de segredos e alcovas guardando medos
Na boca de canções de poesia versial
Deixando correr a tinta por entre todos os dedos
E o amor por onde levaram o amor
Na guarda desses tempos imemoriais
Tão só deixaram pranto
Tão só deixaram mágoa
Em pele descarnada de sentidos sensoriais
Palavras por manto
Palavras por água
No teu choro no teu riso
Amor Amor Amor
Do meu juizo
Da minha loucura
Do meu mando
Estás sempre que eu preciso
Amor da minha alma roubada
Já não ando
À tua procura
Já não ando
Procurada

sábado, 16 de agosto de 2008

PAPYRU'S DE DOR E DE PAIXÃO

Pediste do meu ser algo em poesia / E que havia eu humildemente dizer / Dizer de tudo o que em mim bramia / Em lágrimas de papiro a florescer / Foste essa Editora que me acolheu / Luz dos meus olhos que brilhavam / A poesia de penas que vos comoveu / Os versos da alma que encantavam / E da mão fechada deixei escorrer / Tinta de penas de uma alma vazia / Apenas guardada a dor de não ter / O que o meu ser renegava e sentia / Papiro que cresce à margem de um rio / Na sombra da alma poemas e palavras / Juncos de raízes num verso sombrio / Branca folha escrita a tinta de mágoas / Papiro verdura dos pântanos lagos e das ribeiras / Tronco sagrado florindo sol em pequenas espigas / Cordas sapatos velas de barcos pequenas esteiras / Vestidos e mantos de reis rainhas e até de papisas / Papel real mecha de círios em lâmpadas de azeite / Adormecido secretos confins de belos sarcófagos / Raiz perfumada tornando a pele cetins cor do leite / Tiras de embalsamar roendo pele como saprófagos / Grande Papiro de Harris Livro dos Mortos de Ani textos sagrados / Guardados em tumbas nas pirâmides das areias do Egipto antigo / Secretos fragmentos de sonhos e de vidas à luz assim revelados / Talo comestível de pequenos filamentos macios doce como o figo / Papiro da vida sonho da morte sentida somente o meu ser / No papel vazio escondida uma memória deixo a solidão / Dou-vos o que eu sou passado e presente e o que sei dizer / No papiro escrevo toda a minha história com o coração/

AMOR...


O tempo intacto em tuas mãos fechadas
lambes na minha pele poeira de estrelas
e as tuas mãos nos meus seios marcadas
minha pele pulsante de tanto querê-las
nas tuas pernas meu corpo ao abandono
sobre ti esta carne apunhalada de prazer
corpo dor tão perdido sem rosto sem dono
entregue em tuas mãos apertando até doer
seguras meus seios contra a tua comoção
e escondes teu mastro túrgido possante
marcas no meu dorso teus lábios de paixão
na flor do meu corpo te entregas delirante

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

«Há poucos dias passaram-se vinte anos da nossa vida...»

Sem ódios, sem discussões, sem desabafos absurdos, sem confissões promiscuas, sem olhares ocultos, sem medos nem infidelidades nuas e cruas, sem palavras aguçadas, apenas um cansaço maduro, uma aptidão para o abandono e a necessidade de vaguear por uma solidão masoquista e o sadismo de rasgar sentimentos e emoções que apenas nos tactearam a pele sem verdadeiramente as sentirmos, sem a necessidade de amar e ser amado, atendendo ao odor do arquétipo imaginado de felicidade conjugal. Acabou-se a nossa vida a dois. ainda que não haja uma razão válida para que isso tivesse acontecido, vê-se na nossa flor da pele o verdete que os anos deixaram, tornando-nos verdes de uma mágoa profunda, por tudo aquilo que nada fizemos pelos dois. Afundamo-nos num egoismo patético e numa apatia irreal, sem darmos por isso, contraímos o vírus da destruição do socialvelmente humano, o terrível desinteresse das normas da sociedade comum, tentamos quebrar o quotidiano ordinário para transcendermos para uma utopia insensata e desastrosa. Não tivemos tempo para dar as mãos e conduzirmos os sentidos, o amor, o carinho, o respeito, a ternura, através do nosso tacto, fizemos amor como se abre uma torneira e se rega a relva seca de um jardim, deixando correr a água livremente sem contenção, tentámos falar de nós, dos outros e de tudo, transformando cada palavra num tijolo duro, erguendo um muro cada vez mais alto, deixamos cada dia temendo a noite e o absurdo de estarmos juntos num leito instável, afagando a nossa alma cansada de tudo, o nosso corpo esvaziando uma paixão de meras ilusões. Faltamos a todas as promessas que esquecemos de jurar pelos dois, falhamos o encontro com Deus, atiramo-nos numa insaciável vontade de nada fazer e assim morremos a necessidade de sermos dois num só. Construímos um lar, uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um fogão, um frigorifico, um sofã, uma televisão, contraímos um crédito e juntamos-lhe a máquina de lavar-roupa, o micro-ondas, a máquina de lavar-loiça, a arca congeladora, mais os copos de cristal, o serviço de jantar, os talheres de prata e tudo mais que penetrou na nossa intimidade. Fiz rendas para as toalhas de banho, bordei toalhas de mesa, comprei toalhas em Marrocos mas esqueci-me de tecer no tear da nossa vida a manta da nossa união e do nosso sossego. Os dois travamos uma luta de silêncios e fomos vencidos pelo marasmo da razão silenciada por tudo em puro desassossego. Nada construímos de sólido e seguro, não tivemos filhos, nada projectamos para o futuro e nada negamos a nós mesmos, apenas deixamos ruir os sonhos que viviam na nossa alma destruídos por um vendaval de emoções fugidas ao coração. Agora cada um de nós seguirá o caminho que vier ao seu encontro, e nada de promessas, nada de enganos, sem um único sonho por companheiro, apenas uma morna nostalgia a namorar uma alma cansada de tudo, magoada de negro, apenas um amor e uma dor do tamanho do mundo, por este fracasso de vida e a única certeza de uma solidão que muito nos vai fazer sofrer aos dois de saudades de tudo. Foi assim, e agora vamos ser felizes para sempre... a solo. Porque eu nunca senti vontade de ter um companheiro e com vinte anos sentia-me muito bem sózinha e porque tu, com quarenta anos, vestias bem a pele de lobo solitário, sendo assim, dificilmente os dois seriamos os protagonistas de um conto de fadas, pois está agarrada a nós esta estranha forma de vida e apenas num momento dormente os dois tentamos sacudi-la do nosso ser, respondendo a um chamado das profundezas da alma e agora, passados que foram todos estes anos, revelado que é o nosso fado, sem lar, sem emprego, sem amigos, sós e sozinhos, que vamos fazer das nossas vidas, do nosso fado oculto, que é que vamos fazer de nós, que outras lutas nos esperam, que caminhos vamos percorrer, que sentido vamos dar à nossa existência, onde vamos, onde vai o nosso amor? Nem toda a experiência que Kaufman aprisionou no seu último e recente livro, nos serve para enxotar os nossos medos, os vazios que a cada instante tomarão conta das nossas lembranças, o sentimento impotente de acordar só e a necessidade de se sentir sozinho com o outro mesmo ao lado, habituados a uma saudade e a uma solidão entranhadas na nossa pele como sal das nossas lágrimas tombadas por uma mágoa furtiva e teimosa das nossas vidas fugidas dos sentimentos. Apenas uma esperança aflorará a alma gentil de cada leitor porque o desespero é a última causa do homem. Não fomos feitos um para o outro, fomos feitos para ficarmos sozinhos. in "A PASSAGEM DAS MÁGOAS" romance 1998