quinta-feira, 5 de outubro de 2017

DELÍRIO DE UMA PRECE

DELÍRIO DE UMA PRECE

Por mais que eu reze meu amor
Deus não atende o meu pedido
E rezar não faz mais sentido
A suplica perdeu a validade
Sem receita válida e sem paixão
Já são poucos os dias a respirar
Procuro ansiosamente o caminho da eternidade
Um atalho ou a dúbia direcção
Delírio de uma prece ou a insanidade
Um milagre ou o perdão
E saber que estás doente
Encurta o caminho do meu sentir
Não que eu queira desistir
Este desassossego que alma consente
Já derrubei altares maiores
Já acalmei profundas dores
Já amei impossíveis amores
Amei como ninguém
E Deus sempre atendeu a minha prece
Sempre acontece
Eu perder alguém
...
musa

DAS VELAS ARDIDAS

DAS VELAS ARDIDAS

Anda para o colo destas palavras meu amor
Ainda mornas pelo calor das velas ardidas
Sulcos fundos suados das velas esculpidas
Dos pingos a escorrer a cera na pele o torpor

A abrir caminho de ardente sentir a cera quente
Das tuas mãos ternura regaço de cumplicidade
Como um colo um abraço que recebe consente
Arder de desejo na chama acesa da intimidade

Das velas ardidas a cera teima ser do teu olhar escultura
De afectos sensíveis entre os teus dedos a paixão
Ardem os desejos carnais de tanta loucura

Acende as velas meu amor a cada prece do teu querer
Ilumina de luz e sonho o silêncio terno do meu coração
Que nunca se apague no tempo o círio aceso do prazer
...
musa

SÚBITA INOCÊNCIA

SÚBITA INOCÊNCIA

Das tardes clandestinas
A súbita inocência
De uma lágrima
Perdida

Como inocência roubada
Em súplica pedida
Nas horas vespertinas
A tênue anuência
Do olhar humedecido
E a fazer sentido
Tal apetência

Sem dizer não
A sensível essência
Dos olhos a brilhar
Como que a pedir
Um brilho excitação
Inocente sentir
A desorientação
Da tarde

Se todas as terças
Fossem segundas
Ou quartas
E sem que o peças
O teu olhar oferecido
Nas mãos onde te afundas
Pudesse fazer sentido
Ler as tuas cartas
E o tempo esquecido
Uma terça a esperar
E quando eu voltar
Nessa hora inocente
De silêncio no olhar
De riso perdido
Como quem consente
O impossível amar
O beijo pedido
O encanto vencido
O segredo vivido

E saiba calar
Uma hora uma tarde um instante
Já que é á terça que vem o amante
...
musa

AMOR IMPOSSÍVEL

AMOR IMPOSSÍVEL

Faço-te versos meu amor
Que outra forma tenho eu de te dizer
As palavras que o corpo cala a dor
Caricias que mãos não podem escrever

Este amor impossível mensageiro
Que traz adentro torturante poesia
Ou será o invisível amante derradeiro
Que dos versos a paixão sacrificaria

Este amor escondido em fogo lento seduz
Não se quer em livros no tempo guardado
É farol de vigia que o espirito conduz

Ambos distantes sonhamo-nos a pensar
Em silêncio de versos nosso amor calado
Prazer e tanto desejo nos corpos a ofegar
...
musa

PALAVRAS INVENTADAS

PALAVRAS INVENTADAS

"
Eu invento tudo,
às vezes olho
para dentro,
voltar no tempo
dos meus eternos desejos.
Eu que olho
a lua de cabeça para baixo,
vivo a vida a tropeçar,
caio,
e novamente caio.
Não há melhor contratempo
quando não vens,
porque gosto de ficar assim,
ao sabor do vento.
E a vida continua
aos tombos,
levanta e cai,
e sempre tropeçando,
à espera de ti…
E tropeço...

J."

Nesta invenção de palavras escritas
De ausências e silêncios e esperas
A desilusão com que gritas
Choras e desesperas

Os eternos desejos fulcrais
Cataventos quebrados
As sombras carnais
Os olhos molhados
Pelo orvalho do olhar
E no chão a intimidade
As nossas lágrimas a cintilar
A dor ainda adormecida
Em cumplicidade

A terra prometida
A lua fugidia
Aos tropeções
A nossa poesia
Dos abraços o cansaço
A alma tão sentida
As desilusões
Os sonhos
De cal e de aço
Areia e luz
O tempero
Do vento que conduz
Palavras inventadas
O desespero
Sem fim
Nas tuas mãos fechadas
Ainda esperas por mim
...
musa

TEMPO DE OUTRORA

TEMPO DE OUTRORA

Avenue de Bourdonnais au Champs de Mars cantava no meu olhar
O tempo era uma antiguidade ou biblioteca de decoração
Coberta de pó a ferragem negra atravessa qual armadura a minha imaginação
Quantas horas vislumbrou a torre ali naquele lugar
Citadina paisagem de janelas fechadas às horas impulsivas de sentir
De escondidos pecados e secretas virtudes por contar
Nem ninguém leva dali segredos na hora de partir
Que a torre altaneira sentinela dama está atenta
Na chávena de porcelana de Sévres um aroma a chá de menta
Desafia a torre no tempo de outrora e na altura
Em sequiosa e demorada loucura
De uma inspiração sedenta
Um jogo de ruas por onde fugir
Suspiros e sentimentais delírios
De imaginados martírios
Que a história alimenta
Em complicidade a consentir
Tantas memórias dessa cidade
Quanta intimidade
Ainda por descobrir
...
musa

OUTONO

OUTONO

Tua alma de pássaro que ainda não partiu
E estende sobre o chão poesia
Folha de ouro em infinitos dourados
E o vento em lambidelas furtivas varre com a mão
Memórias incendiadas de melancolia
E das copas despidas como ponte que ruiu
As aguas em gritos continuam a correr
E os olhos tingidos de sois lacrimejados
Acendem fogos de lavas a escorrer
E um vendaval fustiga a alma desnudada
E o pássaro perde as penas
Exausto parece morrer
Na espuma do silêncio esquecido
A gritaria das chamas em exumação
Esvoaça o sentido
Na fogueira mansa iluminada
O outono dos versos a cair dos poemas
As palavras a mudar de estação
Alaranjados amarelos ocres vermelhos
Crepuscular iniciação da eternidade
A secular treva dos vales já tão velhos
A historia é uma folha caída
De nuances de intimidade
No outono da vida
...
musa

BREVE A VIDA MEU AMOR

BREVE A VIDA MEU AMOR

A vida é breve meu amor
Reside nas pedras por escrever
Nas silabas soletradas de cor
Nas palavras por dizer
Letra a letra no horizonte
Como um poema a entardecer
Breve como um sol por
Gélido tardio da luz que finda
Ou das pedras ainda

Das frias pedras do monte
Do orvalho a frialdade
Das sombrias serras a fonte
De onde beber a saudade

O carvalho bem frondoso
A dar sombra aos meus sentidos
Atrás das pedras esquecidos
Os sonhos do sonho Saudoso
Nos teus olhos tão perdidos
No meu peito sequioso
Dessa sede já bebidos
Os versos de um povo silencioso
Dos silêncios mais profundos
Dos mais distantes mundos
Do grito mais penoso
Na pedra secular

No granito onde gravar
Palavras tristes sensíveis
Como dores invisíveis
Ou lágrimas por chorar

Tenebrosas horas versos meus
Nesta loucura brevidade
A possível saudade
Que entardece os céus
Para além das pedras em silhueta
A recortar vales e montes na escuridão
Ou somente um voo de borboleta
Ou coisa parecida na negridão
Luminosa e secreta
Desta breve paixão
…
musa

ENTARDECER DA VIDA

ENTARDECER DA VIDA

"Não se pode impedir um entardecer de acontecer"

Entardecer nas nossas bocas
Arrefeceu o olhar da pele das palavras
Há nos versos embevecer
Que parece florescer de verbos imperativos
Roseiral de madrugadas frias
O tempo nos teus olhos adormecido
Não há palavras por dizer
A breve distancia do sentir
As linhas da vida sombrias
Raízes de saudade e prazer
Faz se tarde para me despedir
Com as mãos cheias ou vazias
Deste amor tão tardio
Nos olhos cansados e tristes
E o silencio por um fio
A prender esta solidão a que resistes
Na espera de mais um entardecer
Porque é tão bom esperar te para viver
...
musa

CASA DE VIDRO

CASA DE VIDRO

A casa de vidro com flanela a entorpecer a madrugada
Onomatopeia de latidos com a bruma da manhã dispersa
No sangue fervente das palavras iluminadas de metáforas
Traves erguidas entre inspiração e regras da imaginação
Uma réstia de loucura que atravessa
Temporal dizer de coisas da vida
Confissão de sentidos talvez nada
Ou a palavra perdida na arqueologia do chão dos sentimentos
Que a dizer da busca do profundo olhar
Caco a caco reconstruirei o desassossego
Ou talvez chegue mais fundo ao medo
A tal metáfora do existir
O sentir incumprido
Do pó da terra o verso mais enigmático
Do sexto sentido ...
musa

O MUNDO COM SABOR A OUTONO

O MUNDO COM SABOR A OUTONO

Ainda é Setembro e no sonho desta madrugada
O cão da vizinha ladra e arrasta a trela no cimento da garganta escondida
Os degraus do pequeno prédio são o toque da alvorada
Tiros em salva ladrados em correria
Uma espécie neuronal de enxaqueca e poesia
Por dentro da casa há uma melodia perdida
Queria o verso com sabor a Setembro e a silêncio demorado
E despertar no aroma dos últimos figos embrenhados numa cáspite a sibilar
Folhas caídas de palavras desconjuntadas
Sono veneno a romper do olhar
O tempo ostracizado da manhã poética
Um aroma de café e marmelos em latidos a correr
A porta aberta das depressões outonais
A alma em altares de prazer
A dúvida em preces carnais
O mundo com sabor a outono
Um cão vadio sem dono
Atravessa os dias com o mesmo cheiro
Talvez profundo e inteiro
O sono evadido num ladrar sonolento
Volte do Verão com vontade de dormir
E a cama com rodas e voadora
Disperse em musicalidade sensível o sentir
O som dos olhos arregalados
A estranha intimidade dos versos esfarrapados
Quando o cão que não foi à rua
Escreve o verso arranhando
Um barulho de endoidecer
A alma dorida e nua
Do outonal tempo caminhando
No poema com um travo a marmelada
A pornografia dos sentidos por escrever
...
musa

NÃO É LAMENTO NÃO

NÃO É LAMENTO NÃO

Tenho uma dor
Tão minha
Que não sei de onde vem
Lacinante ardor
Negra andorinha
De beiral em beiral
De estação em estação
Filha de ninguém
A devorar o coração
A massacrar e a ferir
Íntima carnal
Selvagem animal
A dor em caudal
Rio de solidão
A escorrer este sentir
Sem nada para se ver
Esta insistência existir
Este lamento e doer
Apetecido desistir
Sofreguidão
Deste insistente sofrer
Sem rosto ou ferida aberta
Ou sangue a escorrer
Mas a carne tão desperta
Tão sentida e tão viva
Tão dúbia tão incerta
De viver a morrer
Nulo sofrimento
Tão difícil acreditar
Que é sério este lamento
...
musa