quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

MARÍTIMA TEMPESTADE


há ventos assobiando vagas alteradas
ou águas murmurando alturas revoltadas
o mar parece subir encostas de um céu alto
do chão de  areias soltas nas ondas dá um salto

furioso de ventania e chuva em tempestade
são beijos de maresia enfurecida de ansiedade
tombando no areal com fúria e com vontade
salgando de chuva e vento um tempo sem idade

é tão escuro tão húmido tão frio tão cinzento
negro de olhos parados em vagas agigantadas
Adamastor moldado pela mão de sal do vento

Procela iluminada de raios e trovões em alto mar
Esculpida de medo horizonte em vagas alteradas
Marítima tempestade dentro da alma a rebentar
…
musa

DO AMOR DECLARADO

tem pátina velha as palavras de amor
desta férrea declaração de sentidos
mão forjada no fogo fel amargor
dos sentimentos esquecidos

por mais que a buril o pensamento
do cinzel gasto de lembranças
há lascas perdidas pelo tempo
como cacos velhos de faianças

o amor ah o amor assim perdido
não lembra esculpir tal sentir
esbotenado assim ferido
na hora insana de o partir

entrelinhas como se fora de papel
adivinhando quem o sente e subentende
escrito rasgo a queimar à flor da pele
lavra de fogo coração de quem consente

dos cinco sentidos o amor declarado
chama acesa de delírios inconfessos
temperamental torpor inominado
de tantos martírios perversos
…

musa

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

FIM DE TARDE EM FOGO

Junto ao mar há indivisíveis emoções
Momentos feitos de nuvens em tons de fogo
Brisa a raiar de ventania ilusões
Vagas onde olhar afogo
Alaranjado entardecer
Avermelhado caloroso
Fim de tarde a arrefecer

E o silêncio cheira a maresia
E o doce dia parece morrer
E há murmúrios e tremores
E há o olhar em poesia
E há passos e torpores
Como um voo de gaivota planando
Sobre o areal despido
O mar entrega o sentido
Aos meus olhos sussurrando
As ondas dançando
Em espuma e areia

E toda a vida se incendeia
Diante dos olhos em fogo rubro
Chama nos céus se ateia
A tarde morre de mansinho
Ao deus Neptuno me curvo
E brindo o sonho e a luz
Esta emoção que me conduz
Este sentir em desalinho
Esta solidão quase gemido
Como se o mar fosse o altar
E o entardecer cirio aceso
Fogo na alma consentido
Este amanhecer em mim preso
Quase morrer quase perdido
Deixado assim acontecer
Tarde em mim feita prisioneira
Chega ao fim desta maneira
…
musa

sábado, 14 de dezembro de 2013

ESTRELAS E PALAVRAS

Coloco as estrelas e as palavras no silêncio
E afogo em deslumbrado sentir pasmação
Rasgo com os olhos céu aberto escuridão
E conto pontas e pontuação nesse breu imenso

E há-de haver escuro sentir em brilho silenciado
Luz de prata a raiar silentes sentidos do universo
Palavras e estrelas num firmamento afogueado
Que queimem iluminando o fogo aceso deste verso

A noite pontuada de silêncio e de palavras é uma prece
Que olhar adora em longínquo altar de adoração
E por entre estrelas luminosas a luz se tece

Hei-de tê-las cirios acesos no brilho dos olhos fluorescentes
E na alma a luz que aquece sentir e solidão
Um universo pejado de sorrisos inocentes
…
musa

1983 - Luís Cília - "Arte Poética"

1973 - Luís Cília - "Fecundou-te"

1971 - Luís Cília - "Ternura"

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

MEU CHORO LENTO


Sabes
Aquelas asas negras que me puseste no peito
Quando as trevas ao seu seio te chamaram
E as lágrimas como labaredas nos meus olhos se inflamaram
Alma incendiada dor um fogo lento arder no leito

Não havia prece a atenuar o pensamento
Cálido altar jazida penas desassossego
Enterrei com o choro loucura sofrimento
Mortalha ferida de tortura e medo

Resistirei a esta perda sentimental insana
Chama ardente que me queima ilusão ausência
E me faz sentir sofrer moribunda estranha

Quantas vezes ainda choro esse sentido
Morno sentir que me afaga combustão demência
Ficou em mim sensível desalento vencido
...

musa

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

PELE DE SENTIDOS - Márcia com JP Simões - A PELE QUE HÁ EM MIM (Quando o dia entardeceu)


Visto a tua pele de desejo
As tuas vestes de sentidos
No teu olhar me vejo
Despida de nus vestidos

Sobre as águas frias
Na noite vestida de lua
Fazemos carícias sombrias
Sobre a nossa pele nua

Dois náufragos desesperados
Com a vida por um fio
Libertamos nossos pecados
Sobre a margem do rio

A cobra que larga a pele
Rastejo sobre o teu peito
Largo quentes fluidos
Marco território leito
De agre doce mel
Murmúrios gemidos
Olhar quase fel
Em todos sentidos

Sagro-me desejo
Sobre ti honro cavalgar
Mordo-te num beijo
Em louca fúria arfar
Entro em ti

Pois de carícias já consenti
A pele rasgada pelas mãos quentes
E por dentro já senti
Doces torturas pele lavrada veios ardentes
Com falo a penetrar
A senda dos meus sentidos
Que em gozo possa vibrar
Rendida aos caminhos perdidos
Sobre o teu corpo molhado suor
Os olhos fechados em tentação
Cavalgo sem pressa fazendo o amor
Os dois vencidos nessa paixão
Afogo loucura excitação e cio
Já sem sentidos gozo rendição
Ousamos tesão ousamos ardor
Fazemos amor rio
Sedução
Fervor 
…

musa

sábado, 7 de dezembro de 2013

SUSPIROS

O que faço com as saudades
Suspiros
Dizes-me tu

Suspiros frágeis doces leves
Suspiro
Digo-te eu

Em suspiros intensos breves
Olhos perdidos a suspirar
Procuram-te em silêncio no céu
Levo o meu sentir até Veneza
E nesses sentidos sinto-me presa
Atravesso a ponte do teu olhar
Perco-me na distância silenciada
Suspiros de predador e de presa
De uma passagem enamorada
Suspiros parecem levitar
De uma saudade calada
Perdida a suspirar
Olhar prisão
Doce paixão
Por calar

São doces os suspiros guardados
Dois sentires enamorados
Ficamos a suspirar
Na ponte da solidão
…

musa

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

MELODICA DOR

o medo de ter-te é igual ao medo de perder-te
é sentir nas veias escorrer desilusão
esta angustia a vencer-me
no sangue da solidão
onde possa perder-me
em descontentamento sem razão
e a não te ter-te
por dentro ferida
amarga sentida
morrer-te

há um jazz esfumando-se labirinto fumo
a melodia desprendida
perde-se ofendida
tanger profundo
desiludida

a voz rouca do trompete ergue-se no ar
da boquilha à campânula estridente
parece de dor reclamar
o que a alma sente
e chora vencida
por querer-te

e o fumo e a melodia e o choro
as lagrimas da pauta musical
esta amargura onde me demoro
esta loucura insana carnal

melódica dor em exaustão
musica tremula envolvente
jaz amor complacente
em medo ilusão
…

musa

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

ÀS VEZES ( dedicado ao RB…)

          photo Santiago Belacqua
ÀS VEZES ( dedicado ao RB…)

Às vezes querem dar-me madrugadas por abrir
E afogueiam inebriados céus de cores intensas
Às vezes inventam manhãs orvalhadas de sentir
E as noites adormecem-me suaves doces imensas

E os sonhos vagueiam em carrossel deslumbramento
Às vezes são o fogo lento desse sentir inebriado
Como despertados sentidos em céu do pensamento
E o dia florescesse dentro do meu peito fechado

Êxtase de contentamento em céus da alma deslumbrada
Todas as palavras florescidas néctar chamam sentimento
Às vezes clamam somente por uma melodia declamada

Há nos céus do meu país trilhos de azul e rosa num verso
Desbotando cores em brancas nuvens do firmamento
Como se o meu sentir fossem poemas do universo
…

musa

terça-feira, 19 de novembro de 2013

SONETO DO DESCONTENTAMENTO

os meus olhos humedecem lívidos prisioneiros
de um cansaço que adormece nos meus braços
esgotados tecem laços de sentidos traiçoeiros
que molham as faces ao brilho dos olhos lassos

escorrendo sentimentos em lágrimas perdidas
o olhar lividez esvoaça como aves migratórias
em bandos voos partem em choro combalidas
como alguém que atento ouve tristes histórias

olhos fincados num além de um horizonte presos
à espera de um vento que varra de sossego lugar
desse espanto do sentir em movimentos surpresos

na prisão sentimental das lágrimas pensamento
ficam as palavras humedecidas por chorar
o que por dentro é somente descontentamento
…
musa

AOS POETAS VISTAM OS POEMAS DE PIJAMA - MUNDOS DE VIDA


                                      http://www.mundosdevida.pt/

Vesti-te o poema de pijama
Pintei o dia com estrelas
Semeei ninhos pelo chão
Fiz do verso uma cama
Fechei de palavras as janelas
E adormeci-te no meu coração

Meninos de Mundos de Vida
Abraços de sonhos em poesia
Tanta é essa alegria consentida
Que assim se vive em fantasia
Em tão ternurenta realidade
Das mãos da felicidade
Colos que nascem das estrelas
Em escuridão sentimental
Das palavras mais belas
De que se faz Portugal
E outros mundos
Doces profundos
Em meigo carinho
Esperam feliz destino
O abraço mais pedido
Um colo um olhar
Um maternal sentido
Que alguém lhes possa dar
…

musa

MAR AUSENTE - Ernesto Cortazar — Alone at Sea


MAR AUSENTE

quando o mar já nada tem a nos dizer
e ainda ficamos a olhar a ultima vaga
e nos olhos se espelha a desfazer
a espuma branca em azul água

na calma maresia por cumprir
rasgos de cascos em profundezas
como se mar alterado fosse sentir
as ausências e todas as incertezas

e deixamos tombar da alma inquietude
mar ausente que se apressa ao areal
a cada maré que vai e vem de solicitude

há nas ondas incumprimento e maresia
que o vento levanta encrespado carnal
e chega ao meu olhar húmida poesia
...
musa

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

FOGO ORIENTE

Tu és o fogo
Eu sou o vento que o alimenta
Em dócil voragem
Faminta sedenta
Fogo oriente do meu sentir
Que maré transforma tormenta
E dentro do meu sentido parece existir
Dos olhos incendeia piras sagradas
Fogueira brilha a refulgir
Chamas ardentes doiradas
Alimentadas pela ventania
Fogo irado da sedução
Acende a tocha nostalgia
Em adormecido vulcão
Lavas húmidas salgadas
Despertadas pela mão
O vento fazendo arder
Convulsiva excitação
Em aragem prazer
Brisa adormecida
Na palavra acendida
Fogo oriente do ser
…

musa

ORIENTE SENTIDO

Há um céu de ouro folheado
Pétalas douradas de branco
Como se o sol fosse pintado
Em azul sentido manto
Doce oriente

Nuvens bordadas doirado algodão
Nimbos cúmulos drapeados sentidos
Vento que borda docemente
Manto dos anjos ilusão
Com sonhos cosidos
A ponto cheio
Linha de ouro

Céu marmoreado leve enleio
Esconde humedecido tesouro
Que a terra toda há-de cobrir
E desse Oriente sentido sentir
…

musa

FLOR ORIENTE

      
A Oriente
A vida é longa
O mundo é pequeno
Ao lado do sol nascente
O poema é um pagode
Com lanternas vermelhas
Decorado com rosas velhas
O interior é uma ode
Entoado de poesias
De aroma suave sereno
Brilhando mil fantasias
Em asas de pavões
E bordados corações
A fervilhar emoção
Em flores de cerejeira
Sakura marca a estação
Erguendo rosada bandeira
A oriente do país em flor
Assim chega a Primavera
Ganhando vida e cor
Numa viagem quimera
Paisagem bucólica sorridente
Assim é o Japão para lá do Oriente
…

musa

terça-feira, 12 de novembro de 2013

ÁGUAS PURAS

                               mar da Granja
queres um poema
no colo das tuas pedras
no convulsar das tuas águas
no cume das tuas vagas
dos meus olhos lustral
em pia batismal
águas serenas
paralisam sentir
dorme o verso
mar universo
quer existir
poesia

queres um poema
das águas do rio Jordão
em ritual purificação
vento escultor
vagas esculpidas
espumas destemidas
sal e dor
elevam-se do rio
que mancha a poesia
de um crepúsculo tardio
calandra solta vendaval
traz a noite ao dia
nas águas puras
águas escuras
nas águas impuras
purifica-se a poesia
do poema desejo
do vento e do mar
imortaliza-se o beijo
diante do meu olhar

queres um poema
nos meus olhos a grivar
as palavras casco de navios
as rochas humedecidas
pelas marés a naufragar
de musgos líquenes feridas
com o sangue de todos os rios
que ao seu leito vêm repousar
em assoreado descanso
nesse mar revoltoso e manso
navegam poemas à deriva
em olhar e maresia
vagueia a palavra perdida
da mais pura poesia
…

musa