sexta-feira, 22 de agosto de 2008

BUENA DICHA

Pede a uma cigana que leia tua sina
São leituras sábias as dessas mulheres
Dá-lhe a tua mão ao cruzares a esquina
Mas não lhe dês os olhos se tu não quiseres
Cuidado com ela
Não lhe dês a alma
Esconde o teu olhar
Procura na mão a linha paralela
Aquela que salva
Quem te vai matar
E se esconde nela
Só para te roubar
Deixa-a amaciar teus desejos teus sentidos
Verter na tua pele sonhos prometidos
Deixa-a cruzar as tuas linhas
Contar-te de um futuro que tu já não tinhas
Ah, cigana lê-lhe a buena dicha do seu coração
Diz-lhe que sou eu que estou no seu caminho
Conta-lhe da vida que vai ter e eu não
Se ele não me quiser mais no seu destino
Coloca meu ser minha alma na sua cabeça
Olha a sua pele cor de terra e de fogo
Suas muitas saias todas coloridas
Deixa-te ir nas regras desse jogo
Deixa que te conte das tuas muitas vidas
Ser seu amor mesmo que não pareça
Ser sua esperança que lembre que esqueça
Ser a sua sina de muitas almas tidas

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pontão Nevado

Partiste do pontão nevado do meu olhar
Levando pequena barca branca remando
Sobre as frias águas em plenitude ondular
Sentiste tristes olhos azuis de gelo soluçando
Mais do que em mim partistes louco e só
Como se da minha alma fosses abandono
Como se da terra do meu corpo fosses pó
Mais do que tristes folhas de pálido outono
Partistes da parte do meu ser em leve pranto
Na saudosa quietude silenciosa do lago sombrio
Ouvi-te a sussurrar meu nome em doce canto
Oh! melodia chorosa descendo levemente o rio
Mais do que essa harmonia de água e choro
Deixou dentro de mim teu ser tamanho vazio
Lento percorrer por onde fico e me demoro
Sou da tua meiga sombra luz ténue teia e fio
Partiste a caminhar indo nas águas paradas
Desassossego profundo lago escuro solidão
Ai! como sou orvalho de tantas madrugadas
Chuva vento lago tempestade raio furacão

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Alma Roubada

Não sei onde levaram tanta tinta de penas
Por esse cosmos de poeiras sentimentais
Não sei onde deixaram às dezenas
Tantos beijos cordiais
E o amor
Amor Amor Amor
Onde deixaram esse astro de prata e oiro
Capaz de levantar mastro e vela
Enfrentar lobo e toiro
Levar barco e caravela
E o amor
Tão depressa é alegria como já é dor
Tão depressa é contentamento
Como já é distanciamento
Aonde levaram o amor
Em tálamos de ninfas e de deuses do Olimpo universal
Em camas de segredos e alcovas guardando medos
Na boca de canções de poesia versial
Deixando correr a tinta por entre todos os dedos
E o amor por onde levaram o amor
Na guarda desses tempos imemoriais
Tão só deixaram pranto
Tão só deixaram mágoa
Em pele descarnada de sentidos sensoriais
Palavras por manto
Palavras por água
No teu choro no teu riso
Amor Amor Amor
Do meu juizo
Da minha loucura
Do meu mando
Estás sempre que eu preciso
Amor da minha alma roubada
Já não ando
À tua procura
Já não ando
Procurada

sábado, 16 de agosto de 2008

PAPYRU'S DE DOR E DE PAIXÃO

Pediste do meu ser algo em poesia / E que havia eu humildemente dizer / Dizer de tudo o que em mim bramia / Em lágrimas de papiro a florescer / Foste essa Editora que me acolheu / Luz dos meus olhos que brilhavam / A poesia de penas que vos comoveu / Os versos da alma que encantavam / E da mão fechada deixei escorrer / Tinta de penas de uma alma vazia / Apenas guardada a dor de não ter / O que o meu ser renegava e sentia / Papiro que cresce à margem de um rio / Na sombra da alma poemas e palavras / Juncos de raízes num verso sombrio / Branca folha escrita a tinta de mágoas / Papiro verdura dos pântanos lagos e das ribeiras / Tronco sagrado florindo sol em pequenas espigas / Cordas sapatos velas de barcos pequenas esteiras / Vestidos e mantos de reis rainhas e até de papisas / Papel real mecha de círios em lâmpadas de azeite / Adormecido secretos confins de belos sarcófagos / Raiz perfumada tornando a pele cetins cor do leite / Tiras de embalsamar roendo pele como saprófagos / Grande Papiro de Harris Livro dos Mortos de Ani textos sagrados / Guardados em tumbas nas pirâmides das areias do Egipto antigo / Secretos fragmentos de sonhos e de vidas à luz assim revelados / Talo comestível de pequenos filamentos macios doce como o figo / Papiro da vida sonho da morte sentida somente o meu ser / No papel vazio escondida uma memória deixo a solidão / Dou-vos o que eu sou passado e presente e o que sei dizer / No papiro escrevo toda a minha história com o coração/

AMOR...


O tempo intacto em tuas mãos fechadas
lambes na minha pele poeira de estrelas
e as tuas mãos nos meus seios marcadas
minha pele pulsante de tanto querê-las
nas tuas pernas meu corpo ao abandono
sobre ti esta carne apunhalada de prazer
corpo dor tão perdido sem rosto sem dono
entregue em tuas mãos apertando até doer
seguras meus seios contra a tua comoção
e escondes teu mastro túrgido possante
marcas no meu dorso teus lábios de paixão
na flor do meu corpo te entregas delirante

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

«Há poucos dias passaram-se vinte anos da nossa vida...»

Sem ódios, sem discussões, sem desabafos absurdos, sem confissões promiscuas, sem olhares ocultos, sem medos nem infidelidades nuas e cruas, sem palavras aguçadas, apenas um cansaço maduro, uma aptidão para o abandono e a necessidade de vaguear por uma solidão masoquista e o sadismo de rasgar sentimentos e emoções que apenas nos tactearam a pele sem verdadeiramente as sentirmos, sem a necessidade de amar e ser amado, atendendo ao odor do arquétipo imaginado de felicidade conjugal. Acabou-se a nossa vida a dois. ainda que não haja uma razão válida para que isso tivesse acontecido, vê-se na nossa flor da pele o verdete que os anos deixaram, tornando-nos verdes de uma mágoa profunda, por tudo aquilo que nada fizemos pelos dois. Afundamo-nos num egoismo patético e numa apatia irreal, sem darmos por isso, contraímos o vírus da destruição do socialvelmente humano, o terrível desinteresse das normas da sociedade comum, tentamos quebrar o quotidiano ordinário para transcendermos para uma utopia insensata e desastrosa. Não tivemos tempo para dar as mãos e conduzirmos os sentidos, o amor, o carinho, o respeito, a ternura, através do nosso tacto, fizemos amor como se abre uma torneira e se rega a relva seca de um jardim, deixando correr a água livremente sem contenção, tentámos falar de nós, dos outros e de tudo, transformando cada palavra num tijolo duro, erguendo um muro cada vez mais alto, deixamos cada dia temendo a noite e o absurdo de estarmos juntos num leito instável, afagando a nossa alma cansada de tudo, o nosso corpo esvaziando uma paixão de meras ilusões. Faltamos a todas as promessas que esquecemos de jurar pelos dois, falhamos o encontro com Deus, atiramo-nos numa insaciável vontade de nada fazer e assim morremos a necessidade de sermos dois num só. Construímos um lar, uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um fogão, um frigorifico, um sofã, uma televisão, contraímos um crédito e juntamos-lhe a máquina de lavar-roupa, o micro-ondas, a máquina de lavar-loiça, a arca congeladora, mais os copos de cristal, o serviço de jantar, os talheres de prata e tudo mais que penetrou na nossa intimidade. Fiz rendas para as toalhas de banho, bordei toalhas de mesa, comprei toalhas em Marrocos mas esqueci-me de tecer no tear da nossa vida a manta da nossa união e do nosso sossego. Os dois travamos uma luta de silêncios e fomos vencidos pelo marasmo da razão silenciada por tudo em puro desassossego. Nada construímos de sólido e seguro, não tivemos filhos, nada projectamos para o futuro e nada negamos a nós mesmos, apenas deixamos ruir os sonhos que viviam na nossa alma destruídos por um vendaval de emoções fugidas ao coração. Agora cada um de nós seguirá o caminho que vier ao seu encontro, e nada de promessas, nada de enganos, sem um único sonho por companheiro, apenas uma morna nostalgia a namorar uma alma cansada de tudo, magoada de negro, apenas um amor e uma dor do tamanho do mundo, por este fracasso de vida e a única certeza de uma solidão que muito nos vai fazer sofrer aos dois de saudades de tudo. Foi assim, e agora vamos ser felizes para sempre... a solo. Porque eu nunca senti vontade de ter um companheiro e com vinte anos sentia-me muito bem sózinha e porque tu, com quarenta anos, vestias bem a pele de lobo solitário, sendo assim, dificilmente os dois seriamos os protagonistas de um conto de fadas, pois está agarrada a nós esta estranha forma de vida e apenas num momento dormente os dois tentamos sacudi-la do nosso ser, respondendo a um chamado das profundezas da alma e agora, passados que foram todos estes anos, revelado que é o nosso fado, sem lar, sem emprego, sem amigos, sós e sozinhos, que vamos fazer das nossas vidas, do nosso fado oculto, que é que vamos fazer de nós, que outras lutas nos esperam, que caminhos vamos percorrer, que sentido vamos dar à nossa existência, onde vamos, onde vai o nosso amor? Nem toda a experiência que Kaufman aprisionou no seu último e recente livro, nos serve para enxotar os nossos medos, os vazios que a cada instante tomarão conta das nossas lembranças, o sentimento impotente de acordar só e a necessidade de se sentir sozinho com o outro mesmo ao lado, habituados a uma saudade e a uma solidão entranhadas na nossa pele como sal das nossas lágrimas tombadas por uma mágoa furtiva e teimosa das nossas vidas fugidas dos sentimentos. Apenas uma esperança aflorará a alma gentil de cada leitor porque o desespero é a última causa do homem. Não fomos feitos um para o outro, fomos feitos para ficarmos sozinhos. in "A PASSAGEM DAS MÁGOAS" romance 1998

Amor consigas...

Amor... consigas meu pensamento sobre meus seios cobertos de trigo

A alma em devaneios secretos quando não estou contigo

Consigas percorrer caminhos campos em flor pela mão do vento

Consigas deixar-me levar na limpidez da água dos regatos que rasgam prados de sede de amar por um só momento

Consigas na timidez do teu olhar envolver-me em última instância por um rasgo de luz a cintilar em brilho e elegância de sentimento

Amor... consigas penetrar a minha alma encontrada com a tua

Consigas vibrar o tempo de sedução e prazer na breve paixão da noite com a lua

Consigas esse tempo intacto na profundidade do meu silêncio penetrante tacto a tacto na raridade de um cometa distante

Consigas o cosmos de todo o meu ser pulsante em teus abraços sedutores de amante apaixonado por prazer sem hora sem laços apertados delirante de outros amores encontrados de um passado palpitante

Amor... consigas o pão da tua boca sobre a minha pele de fome ardente

Consigas então encontrar-te em mim até ao fim da tua vida insistentemente consentida em ter-me em ti por dentro por fora numa demora de tempo e instãncia de corpo e substãncia onde para amar não há hora

SEARA ÂNSIA

São parcas as palavras nesta distãncia de volúpia antiga
Querer seara ânsia em flor num fogo de Agosto
Tocar a tua pele dorida com a lança de uma espiga
Beber do teu suor qual morno ardente mosto
Amar-te entre cheiros silvestres papoilas trigo e o encantamento das cigarras
Despir diante de ti minhas vestes e entregar-me na ânsia das tuas garras
Gato selvagem rompendo ondulante
Por entre o trigo queimado de tórrido sol amante
Delirante caça atrevida em labirinto fechado
Entre a morte e a vida
Caçando a presa amedrontada
Inquietantemente seguida
Num campo de trigo e de joio entrelaçado
Encurralada na seara alta e loira de ponta em espiga é papoila em flor
Cada ramo maduro é viga haste que sustenta esse amor
Delimita seu chão em cio duro que afasta a presa apaixonada
Deixando seu odor correndo como um rio na terra rasgada
Sagrado vaza da sua fonte a ferver
Excitada inflamada agitada
Mel de entranhas por prazer
De mil desejos cruxificada
Até morrer
Entregue aos gemidos extenuantes de acre e fel
Abrindo seu monte em espasmos perdidos
Abandonada
Seara dossel
Eis que no encontro fatal toda a seara se agita
Em sussurros sentidos
E desse grito imortal a fera em seus braços se fica
Nesses momentos vividos
De fel e mel

A TUA FÊMEA

Na noite sibila acordo cansada de espera
foram meus sonhos despertos que me levaram até a ti
à beira do lago beijo meu corpo forma quimera
agito a água e espero
procuro por ti
a lua reflecte silhueta nua de seios sentidos
na escuridão sente-se o cheiro de fêmea no cio
deixando cair no lago profundo seus olhos perdidos
afundando-se em segredo
deixa-os ir na corrente do rio
noite que esconde tamanho que é seu desejo
flor do corpo abrindo de luz e ânsia e medo
querer inquieto
desejo desperto
sonhar
morrer sentindo tanta vontade de amar
uma fome de querer desejar sentir
à espera à espreita
um falo secreto que a quer penetrar
enquanto se deita
num ímpeto sonho quase a desistir
um quase acabar
a ruir
corpo que acorda molhado despido
colado de sonhos impuros perfeitos
com as mãos marcadas de suor vertido
como morno leite jorrando dor em seus peitos
sentada à beira do lago a fêmea olha a lua
a mesma reflectida nas águas paradas
as suas pernas escancaradas
o ventre roliço
a pele tão nua
o olhar mortiço
tão só tão crua
num fervor
desespera
a fêmea olha a lua
à tua espera
enfeitiçada
de amor

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Meus sonhos de menininha

Fui criança com sonhos a sorrirem pelo olhar

Deixei-me ser menina pelo tempo de mão dada

Namorei toda a vida com sede imensa de brincar

Já crescida fui mulher e fui tudo e não fui nada

Paris que eu amo

Sei das tuas casas em pedra d'ançã

Ruas que tiveram meus passos

Sei-te de cor na fria manhã

Os riscos os traços

De negro era a sombra que te descobria

Prenhe de sonhos que queria vender

O Sena aos meus pés sereno corria

Rio selvagem de luz sem o ser

Os cheiros os rostos os nomes provocados

Tudo na cidade é em mim fantasia

Sei-te de cor de olhos fechados

Num travo de mel rubi malvasia

Paris que me tens de corpo e alma em ferro forjado

De formas esculpidas sombra de mulher só

Meu sonho lá ficou na cidade guardado

Como terra que sou e terra que será pó

Cálice de um vinho ainda por beber

Os lábios sangrentos os olhos chorados

No teu chão fui mulher no teu chão vou morrer

No teu chão estão guardados

Os sonhos que não vou ter

Saudades de um corpo roubado

saudades de um corpo roubado

na gaiola doirada de um sonho de menina

deixei o meu corpo transformado

mulher

luminura sagrada feminina

tanta foi a doçura que roubastes

o mel dos meus olhos que tirastes

o sorriso que dos meus lábios levastes

para um tempo que não quer ser mais meu

uma vida tão longínqua da tua

fui dada a Orfeu

por um quarto de lua

desflorada e prometida

aprisionada

fui mulher

pedida

em casamento

enganada

pela rua

uma qualquer

que o tempo

deixou

para trás

ficou

CÉU DE FOGO

Vou dar-te neste céu afogueado

pedaços da minha alma

meu corpo iniciado

em fogo sensual

ateado

Vou dar-me a ti por inteiro e repartida

primeiro o corpo

depois a alma

depois a vida

jogo ritual

vou dar-me sentida

em brasa incandescente

por ti perdida

ardente

sensual

pedaço de cor em fogo

o corpo inteiro

por ti morro a viver

por ti grito calada

por ti quero sem querer

sentido prisioneiro

desespero

afogueada

a minha alma se incendeia

com palavras de tortura

esse fogo que em mim ateia

tanta loucura

tanto querer

por ti

arder

domingo, 3 de agosto de 2008

Entre o mar e o céu

Entre o mar e o céu

a tarde quase a morrer

deu-me o tempo

a luz, o sonho e o momento

prestes a escurecer

viestes tu

desconhecido e ausente

sobre o areal tão nu

a minha alma a querer-te

o teu corpo presente

e as tuas mãos

falarei das tuas mãos com palavras vibrantes

e na areia perder-te

escorrendo entre os meus dedos

vagas de luz gigantes

o céu e o mar

e todos os meus medos

com o sol, partir

com o dia, chegar

dar-te em segredos

a alma o corpo o ventre carregado de excitação

serena

e toda eu me abrir

para ti

por pura e plena

paixão

À PROCURA DO PONTO G, DA ESCRITA

Não sei quando, nem como, ou porquê, me passou pela cabeça esta ideia de encontrar o ponto G, da minha escrita? Em Agosto de 1988, fiquei fascinada e deliciada com a leitura do livro"A Tarde de um Escritor", do escritor alemão Peter Handke, dando-me conta de todo o meu processo de autognose, como escritora compulsiva que só se sentia bem a escrever, sozinha no seu quarto, indo encontrar neste pequeno livro o grande tema da solidão humana e, para além dela, a difícil arte de existir no mundo, desleixando-me eu própria, das minhas relações sociais, querendo estar apenas eu, só, na solidão do meu mundo de palavras com a minha pena e as minhas penas. Tão secretamente como é conhecer a alma humana e todos os seus subterfúgios. Modesto auxilio será pois a escrita em que nos debruçamos num fim de tarde, para aí, possuidores de conhecimentos seguros e das leis da harmonia entre a mente e a pena, expormos toda a nossa virilidade intelectual, toda a nossa afirmação pessoal e psicológica, produzindo com palavras em ritmos esplendorosos, todas as nossas amarguras e a sensível solidão que nos inspira - a ignis sacra - expressão dos pensamentos num prazer incomensurável, deslumbramento, sublimação, palavras fulcros fecundos do êxtase que sente o escritor quando saído da nebulosidade do seu dia-a-dia, se recolhe para o seu templo, assumindo o seu talante, de inspirador de oráculos, evocando palavras túrgidas que a sua alma esconde em segredo e as atira para a virgem folha, concebendo desse modo, a erótica mancha de letras que formam palavras, que formam textos, que fazem poesia ou prosa, ou apenas puramente, exprimem os domínios da compreensão criadora do homem. Passo a passo, degrau a degrau, a criação literária à feição daquilo que se solta dos sentidos, definindo nitidamente o carácter do ser, não é senão o cumprimento da rebeldia do poder magnífico que obsidia o pensar, absurda tentação que sintetiza todas as faculdades humanas vibrantes, sem perderem a sua caracteristica fundamental, que é a captação intrínseca de em tudo ver a arte, de tudo lhe parecer artístico, nobre o suficiente, para ser imortalizado em palavras, imagens fotográficas, pinturas, esculturas, digno de ser exprimido através do delírio sagrado da inspiração, materializado esse fogo espiritual da alma, sugestionado por essa mágica escrita, como dois corpos amando-se sobre o tálamo das ideias. É de absoluta justiça que se diga que poderá existir o tal ponto G, da escrita! E que tem muito a ver com o temperamento do escritor. Compreendendo conjuntamente, o manusear com certa perícia, a laboriosa arte de escrever e a fonte dos sentidos, com a sua nascente, os seus rios, os seus afluentes, a foz, e por fim, o mar. A oceânica paixão, magistral vontade que ocupa a maior parte do planeta terra, aqui a mente humana, o mar dos sentidos onde tudo vai desaguar, onde se adora a beleza do pensamento na sua esplêndida nudez, linguagem matizada de precisão e clareza, e beleza feminina, de intensa excitação espiritual que vibra no quotidiano de cada alma humana, que evoca e descreve pensamentos e sentimentos, imprimindo comoções da imaginação humana, tão realistas quanto obscuras, abusando da catarse mental, como um processo comparado ao divã do psicanalista. Muitas vezes essa escrita, essa criação artística literária, é a maior arma contra a doença, qualquer doença, distúrbio psíquico ou fisíco, que nos dá a força necessária para nos sublimarmos desse instante decadente da nossa momentânea vida. Mas voltando ao ponto G, cujo nome vem do ginecologista alemão Ernest Grafenberg, diz-se que se for estimulado de forma lenta e profunda, fazendo vibrar, pulsar, pode provocar um orgasmo intenso e delirante. Desencadear a estimulação do intelecto, decorrente dessa forma lenta e profunda, compenetrada, em que o escritor se masturba de palavras, de metáforas, de eufemismos, de hipérboles, etc., desses vícios, engenho e arte, figuras essas que são um magnifíco recurso para velar pensamentos pornográficos, enfeitando-os com visualidades duma linguagem que lhe sai das profundezas da sua alma, levando-o à ascensão emocional que admite o abuso dessa autognose fazendo-o vibrar de vida. A escrita e o ponto G, são essa litania caprichosa que todo o escritor procura. Obcecado pela superior preocupação literária que consiga impressionar, emocionar, impregnar, deleitar, atrair qualquer leitor, ela deve deslizar suavemente, sem suspeições de plágio, sem rupturas de sucesso, nem pecando pela dureza e inflexibilidade das suas formas, aquém de um golpe de misericórdia, cuja dolência morna, tire todo o prazer de uma leitura sadia e a sua liberdade estrutural das palavras, sem interferir, sem infringir, sem recalcar as regras básicas de uma boa escrita emocional. A meu ver, o ponto G é simplesmente a harmonia das palavras com o pensar, numa afectuosa cumplicidade de sentidos e imaginação. Um sem o outro não existem, e a criação, é como dizem os franceses, esse «enjambement», fusão, enlace, abraçar de dois corpos que acontece quando o casamento é perfeito, entre o pensar e a palavra, temas soltos, livres, que repudiem as leis da lógica, dando azo a tanta ficção, fantasia, a magia absoluta e infinita, com todo o seu esplendor de uma escrita criativa e feliz, que tantos ousaram alcançar ao tocarem no seu ponto G, fazendo-o de uma forma maleável, vibrante, pulsante, adaptada a todas as combinações do ritmo e da harmonia e exigências temperamentais de cada escritor. Essa criação não é mais do que a sublimação de todos os sentidos, despertos e estimulados, por essa maravilhosa e engenhosa ferramenta, que é o nosso pensar imaginativo. Esqueça-se um pouco de sexo e procure dentro da sua alma o seu ponto G da escrita! Ana Bárbara de Santo António