quinta-feira, 5 de outubro de 2017

SUPLICO AOS ANJOS QUE TE ABRACEM POR MIM

SUPLICO AOS ANJOS QUE TE ABRACEM POR MIM

Como se abraça alguém que não podemos abraçar?
Deponho a minha súplica aos pés dos anjos
Todos estes dias tenho procurado dentro de mim as mais sensatas palavras e com a serenidade possível tentado escrever o silêncio dorido do meu coração deixando vazar da alma o desgosto imenso da treva insana que a vida contraria pelo sofrimento um raio de sorrir no húmido olhar
Nem sei se haverá versos ou poesia que possa acalmar a dor do coração e enxugar o pranto das memórias
Não sei se haverá sossego algum que o tempo possa apagar da alma o luto profundo desta melancolia tão cheia de dúvidas
Esta incompreensível angústia como ruína de afectos sensíveis de algo abandonado
As palavras desmembradas tão incapazes de serem poema como um corpo prisioneiro na sua incapacidade física
Como se nada do que aconteceu existisse e desse pesadelo o sonho se lembrasse que era sonho
E a vida tivesse a certeza de que cedo ou tarde esse abraço seria dado reconfortante e meigo
Ainda que a mansidão das lágrimas sejam a mensagem do tempo que recua como o rio que seca e demora a correr ou a fonte esquecida até nascer de novo
Com a tua perda e a tua dor imensurável parte de mim também morreu e nem os anjos trarão a paz perdida
Só me resta que eles te abracem por mim te reconfortem de carinho e dêem colo às tuas mágoas inimagináveis para quem nunca nada perdeu de si
Nenhuma prece em sentido espiritual consegue preencher o espaço entre dois braços e fazer sentir ou colmatar a ausência que a morte deixa num abraço que não se pode dar
Talvez um dia muito além desta realidade possamos concluir esta dádiva de sentimento
Confio nos anjos para que te abracem por mim
Não estás sozinho estás sempre no meu pensamento
...
musa

ESPERA EM SILÊNCIO

ESPERA EM SILÊNCIO

"30/12/2010
As palavras não seriam palavras sem silêncios
J"

Sou a luz do teu silêncio na original solidão do vazio
Umbral de espera onde ainda não chegaram os teus passos
Como um farol o meu corpo abriga de abraços o teu olhar sombrio
A luminescência da alma sensível mar onde naufragar
Sentidos solitários ou devassos gritos de cansaços
Enseada de palavras à espera de aves em migração
Silenciado voo sentimental de versos de uma aurora a cintilar
Para onde eu vou um dia depois da minha solidão
Sem súplicas ou incertos desejos
O mais que os caminhos devem da luz que nos guia
Do túnel de infindáveis beijos
A arribação da silente melancolia
Sem sentir nem esperar
Talvez um dia
Quem sabe
O silêncio sejam as únicas palavras de quem vive sem poder amar
...
musa

PARA AQUELES QUE AMAMOS SEM ELES SABEREM

PARA AQUELES QUE AMAMOS SEM ELES SABEREM

Para aqueles que amamos
Sem eles o saber
Primeiro aqueles aos quais
Não tivemos tempo de o dizer
Aqueles a quem jamais
Daremos o conforto do nosso olhar
O instante com que ficamos
A ponte suspensa de palavras
Um abraço por dar
Um azedume de meigas mágoas
Um aperto de peito
Como que a pesar
O mundo inteiro
Quase desfeito
Por sentir

A desilusão da vida
Uma insanidade sufocante
A cicatriz por sarar
Respirar imperfeito
Um pranto maior
Breve a viagem
A eternidade
Distante
Cumprir

Outros ainda faltou o tempo
E a outros talvez a coragem
A tantos a hora certamente
Se há o momento perfeito
O lugar o sítio ou a paisagem
Onde o imperativo do amor
Apaga as carências consentidas
E forma dos verbos a única imagem
Da alma em palavras sentidas
Quase como uma prece
E se uma fatalidade acontece
Ou explosão de dor
A súplica e o orar
Pelo caminho de luz
No silêncio a transpor
Alguém há-de ficar
A saber que conduz
Um espírito em paz
Pelo sentir amar
…
musa

NÉVOA DANÇANTE

NÉVOA DANÇANTE

Veio assim a manhã
Névoa dançante
Espessa húmida manta
Vem do mar a frialdade
Gélida cortante
Invade o prado tão esguia
Serpenteia em lentidão
Traz o cheiro da maresia
Marítima escuridão
Cobre os telhados cinzenta
A luz do sol afugenta
Neblina matinal
Encobre os céus
Sobre os telhados a ilusão
Respira o tempo estival
Tempo de dizer adeus
Ao verão
...
musa

ENGORDA OU FINGIMENTO

ENGORDA OU FINGIMENTO

Os desgostos de amor
Engordam
Digo vos eu
E o poema
Os versos e os quilos na balança
A inspiração da madrugada
Em silente ressurgir
De doce tristeza
Nutriente saudoso
Meio lacrimoso
Das gordas palavras
Que engrossam a poesia
E o silêncio respirado
Convulsão metafórica
De intrínseca euforia
A aumentar tamanho
Do estranho fingimento
Com conta peso e medida
Suscitador de rumores
E do meigo sentimento
E humores do verbo
A latejar na pesagem
A faustosa imagem
Dos ditos cujos amores
Sem virgulas por suores frios
Desses quilos sombrios
Que asseguram a rima
E destratam a estima
Em inocente sentir
A fome inspirada
Algo a repetir
A dizer nada
Ou a fingir
...
musa

DELÍRIO DE UMA PRECE

DELÍRIO DE UMA PRECE

Por mais que eu reze meu amor
Deus não atende o meu pedido
E rezar não faz mais sentido
A suplica perdeu a validade
Sem receita válida e sem paixão
Já são poucos os dias a respirar
Procuro ansiosamente o caminho da eternidade
Um atalho ou a dúbia direcção
Delírio de uma prece ou a insanidade
Um milagre ou o perdão
E saber que estás doente
Encurta o caminho do meu sentir
Não que eu queira desistir
Este desassossego que alma consente
Já derrubei altares maiores
Já acalmei profundas dores
Já amei impossíveis amores
Amei como ninguém
E Deus sempre atendeu a minha prece
Sempre acontece
Eu perder alguém
...
musa

DAS VELAS ARDIDAS

DAS VELAS ARDIDAS

Anda para o colo destas palavras meu amor
Ainda mornas pelo calor das velas ardidas
Sulcos fundos suados das velas esculpidas
Dos pingos a escorrer a cera na pele o torpor

A abrir caminho de ardente sentir a cera quente
Das tuas mãos ternura regaço de cumplicidade
Como um colo um abraço que recebe consente
Arder de desejo na chama acesa da intimidade

Das velas ardidas a cera teima ser do teu olhar escultura
De afectos sensíveis entre os teus dedos a paixão
Ardem os desejos carnais de tanta loucura

Acende as velas meu amor a cada prece do teu querer
Ilumina de luz e sonho o silêncio terno do meu coração
Que nunca se apague no tempo o círio aceso do prazer
...
musa

SÚBITA INOCÊNCIA

SÚBITA INOCÊNCIA

Das tardes clandestinas
A súbita inocência
De uma lágrima
Perdida

Como inocência roubada
Em súplica pedida
Nas horas vespertinas
A tênue anuência
Do olhar humedecido
E a fazer sentido
Tal apetência

Sem dizer não
A sensível essência
Dos olhos a brilhar
Como que a pedir
Um brilho excitação
Inocente sentir
A desorientação
Da tarde

Se todas as terças
Fossem segundas
Ou quartas
E sem que o peças
O teu olhar oferecido
Nas mãos onde te afundas
Pudesse fazer sentido
Ler as tuas cartas
E o tempo esquecido
Uma terça a esperar
E quando eu voltar
Nessa hora inocente
De silêncio no olhar
De riso perdido
Como quem consente
O impossível amar
O beijo pedido
O encanto vencido
O segredo vivido

E saiba calar
Uma hora uma tarde um instante
Já que é á terça que vem o amante
...
musa

AMOR IMPOSSÍVEL

AMOR IMPOSSÍVEL

Faço-te versos meu amor
Que outra forma tenho eu de te dizer
As palavras que o corpo cala a dor
Caricias que mãos não podem escrever

Este amor impossível mensageiro
Que traz adentro torturante poesia
Ou será o invisível amante derradeiro
Que dos versos a paixão sacrificaria

Este amor escondido em fogo lento seduz
Não se quer em livros no tempo guardado
É farol de vigia que o espirito conduz

Ambos distantes sonhamo-nos a pensar
Em silêncio de versos nosso amor calado
Prazer e tanto desejo nos corpos a ofegar
...
musa

PALAVRAS INVENTADAS

PALAVRAS INVENTADAS

"
Eu invento tudo,
às vezes olho
para dentro,
voltar no tempo
dos meus eternos desejos.
Eu que olho
a lua de cabeça para baixo,
vivo a vida a tropeçar,
caio,
e novamente caio.
Não há melhor contratempo
quando não vens,
porque gosto de ficar assim,
ao sabor do vento.
E a vida continua
aos tombos,
levanta e cai,
e sempre tropeçando,
à espera de ti…
E tropeço...

J."

Nesta invenção de palavras escritas
De ausências e silêncios e esperas
A desilusão com que gritas
Choras e desesperas

Os eternos desejos fulcrais
Cataventos quebrados
As sombras carnais
Os olhos molhados
Pelo orvalho do olhar
E no chão a intimidade
As nossas lágrimas a cintilar
A dor ainda adormecida
Em cumplicidade

A terra prometida
A lua fugidia
Aos tropeções
A nossa poesia
Dos abraços o cansaço
A alma tão sentida
As desilusões
Os sonhos
De cal e de aço
Areia e luz
O tempero
Do vento que conduz
Palavras inventadas
O desespero
Sem fim
Nas tuas mãos fechadas
Ainda esperas por mim
...
musa

TEMPO DE OUTRORA

TEMPO DE OUTRORA

Avenue de Bourdonnais au Champs de Mars cantava no meu olhar
O tempo era uma antiguidade ou biblioteca de decoração
Coberta de pó a ferragem negra atravessa qual armadura a minha imaginação
Quantas horas vislumbrou a torre ali naquele lugar
Citadina paisagem de janelas fechadas às horas impulsivas de sentir
De escondidos pecados e secretas virtudes por contar
Nem ninguém leva dali segredos na hora de partir
Que a torre altaneira sentinela dama está atenta
Na chávena de porcelana de Sévres um aroma a chá de menta
Desafia a torre no tempo de outrora e na altura
Em sequiosa e demorada loucura
De uma inspiração sedenta
Um jogo de ruas por onde fugir
Suspiros e sentimentais delírios
De imaginados martírios
Que a história alimenta
Em complicidade a consentir
Tantas memórias dessa cidade
Quanta intimidade
Ainda por descobrir
...
musa

OUTONO

OUTONO

Tua alma de pássaro que ainda não partiu
E estende sobre o chão poesia
Folha de ouro em infinitos dourados
E o vento em lambidelas furtivas varre com a mão
Memórias incendiadas de melancolia
E das copas despidas como ponte que ruiu
As aguas em gritos continuam a correr
E os olhos tingidos de sois lacrimejados
Acendem fogos de lavas a escorrer
E um vendaval fustiga a alma desnudada
E o pássaro perde as penas
Exausto parece morrer
Na espuma do silêncio esquecido
A gritaria das chamas em exumação
Esvoaça o sentido
Na fogueira mansa iluminada
O outono dos versos a cair dos poemas
As palavras a mudar de estação
Alaranjados amarelos ocres vermelhos
Crepuscular iniciação da eternidade
A secular treva dos vales já tão velhos
A historia é uma folha caída
De nuances de intimidade
No outono da vida
...
musa