NINHOS DE FOGO
Restam alguns eucaliptos chamuscados
A serra toda ardeu
Em chamas os troncos queimados
Erguem-se ao alto a testemunhar ao azul do céu
Que todo o verde desapareceu
E ao negro olhar a montanha ardida
Tristemente perdida
A serra algarvia de luxuoso manto
Perdeu fauna e flora e todo o encanto
No fogo criminoso da vida
Perderam-se os ninhos e os esconderijos dos animais
Os céus rasgados por um alarido choroso
Nus os caminhos e os muros calcinados e o grito impiedoso
Das línguas de fogo a cortar como punhais
O ritual monstruoso
Da serra a arder
E o bando de aves desorientadas
Que fugiram para não morrer
Esvoaçam as cinzas acetinadas
desliza no chão o negro cetim
E um voo sem fim
Desespera viver
...
musa
PENAS DA ALMA PARA A MÃO - papiro editora TEU CANCRO MEU - papiro editora RUSSA A BURRINHA TECEDEIRA - papiro editora À FLOR DA PELE DOS SENTIDOS DA ALMA - pastelaria studios editora
segunda-feira, 13 de agosto de 2018
POBREZA CITADINA
Madrugada fresca ainda anoitecida
nas ruas da cidade
Florescem silêncios de papelão
Na avenida sossegada entristecida
Crescem espinhos de solidão
E os gatos disputam soleiras de portas
Em sombrias e fúteis horas mortas
Lutam de garras acesas como lampiões a parir
Dores exaustas compadecidas
e raivas a essas vidas presas
De um tormento por sentir
Roupas rotas e encardidas
E toda uma vontade de desistir
No desespero de luas divididas e ilesas
De qualquer obrigação
Na sua luminosidade imprevisível
No desassossego de becos nauseabundos
Adormecem sonhos profundos
De uma dor estranha e invisível
toda uma miséria escondida
Que o dia parece esconder
Em meiga e faminta desilusão
Mesmo que por debaixo do cartão
Uma vida
Espere para morrer
...
musa
nas ruas da cidade
Florescem silêncios de papelão
Na avenida sossegada entristecida
Crescem espinhos de solidão
E os gatos disputam soleiras de portas
Em sombrias e fúteis horas mortas
Lutam de garras acesas como lampiões a parir
Dores exaustas compadecidas
e raivas a essas vidas presas
De um tormento por sentir
Roupas rotas e encardidas
E toda uma vontade de desistir
No desespero de luas divididas e ilesas
De qualquer obrigação
Na sua luminosidade imprevisível
No desassossego de becos nauseabundos
Adormecem sonhos profundos
De uma dor estranha e invisível
toda uma miséria escondida
Que o dia parece esconder
Em meiga e faminta desilusão
Mesmo que por debaixo do cartão
Uma vida
Espere para morrer
...
musa
BAÇO OLHAR
BAÇO OLHAR
Há um barco
De memórias em cinzas
Solitárias sombras
Ardidas de cansaço
A dobrar esquinas
Em ruas sem sentido
E nas ombreiras de aço
Portas mal fechadas
Soleiras calçadas
De silêncio esquecido
Embaciado salgado
Marés de lágrimas
Ao azul rendido
A romper becos escuros
Líquido alterado
Velas de lençóis
Em madrugadas de altos muros
Tolhidas por orvalhos passageiros
E cais de vagas tardias
Portos sem tempo
Odores e cheiros
Ilusões vadias
E nas calçadas o lamento
De ruas desertas
Vagas melancolias
Janelas abertas
Em prostituída intimidade
Luminosas e sombrias
E todo um oceano desmemoriado
E o pranto a transbordar
A lembrança e a saudade
E a tormenta e o passado
Onda a onda sobre o olhar
No areal eternidade
Ruas a morrer na praia entristecida
A casa já sem telhado
Um rio em ruínas
O lado triste do litoral
Lá longe no areal
Olhos baços de neblinas
Uma concha perdida
Talvez o lado esquecido
Da vida
Entre o bem e o mal
...
musa
Há um barco
De memórias em cinzas
Solitárias sombras
Ardidas de cansaço
A dobrar esquinas
Em ruas sem sentido
E nas ombreiras de aço
Portas mal fechadas
Soleiras calçadas
De silêncio esquecido
Embaciado salgado
Marés de lágrimas
Ao azul rendido
A romper becos escuros
Líquido alterado
Velas de lençóis
Em madrugadas de altos muros
Tolhidas por orvalhos passageiros
E cais de vagas tardias
Portos sem tempo
Odores e cheiros
Ilusões vadias
E nas calçadas o lamento
De ruas desertas
Vagas melancolias
Janelas abertas
Em prostituída intimidade
Luminosas e sombrias
E todo um oceano desmemoriado
E o pranto a transbordar
A lembrança e a saudade
E a tormenta e o passado
Onda a onda sobre o olhar
No areal eternidade
Ruas a morrer na praia entristecida
A casa já sem telhado
Um rio em ruínas
O lado triste do litoral
Lá longe no areal
Olhos baços de neblinas
Uma concha perdida
Talvez o lado esquecido
Da vida
Entre o bem e o mal
...
musa
MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO
MEU QUERIDO MÊS DE AGOSTO
Seis horas da manhã, o calor aperta, e os vinte e oito graus à sombra derramam a profusão de luz que a janela não consegue estancar, pois o corropio de calor atravessou toda a escuridão da noite e em nada refrescou a madrugada deste tórrido Agosto.
A dois passos do mar, o litoral já não é o que era, nem uma brisa para atenuar o sufoco desta tropicalidade caliente que teima em trazer do norte de África, o bafo poeirento do deserto.
As almas desassossegadas pelo calor agitam-se em gritos e barulhos, novidades no recanto, tão apegado ao silêncio e ao sossego, a azáfama borbulhante de sons e línguas faz-me recordar outro país, outras vidas.
Ninguém merece passar uma noite em branco por causa do calor, dormir de janela toda escancarada, e não lembro alguma vez desde que assentei arrais nestas paragens, assim ter acontecido, o lugar sempre foi muito fresco, mas agora sufoca, e bem cedo, neste madrugar atribulado, a rasgar o silêncio da manhã luminosa, berra uma criança e grita uma mãe, e outros barulhos fazem concerto das horas inapropriadas a esta musicalidade contribuindo para a poluição sonora do cedo erguer.
" - Mange Elodie, depeche toi, on t'attend de finir, t' a que avaler tout ça, merde, j' en ai marre des gosses, on est lá toute lá journée."
E o discurso a viva voz, entre barulhos de coisas que tocam o chão e outras que batem noutras, somado com o choro das crianças e o cão que ladra, alegra a manhã e promete a ilusão de circunstância de tempo e de lugar, deslocados no mapa dos afectos, quando a infância tinha o selo especial das migrações.
O discurso avança agudo e irritado, a teimosia das crianças não cede a chantagem emocional, nem se compadece de estatuto ou contrato, somente a condição de progenitora testa limites de paciência e compreensão, nem duas línguas dão conta do recado.
" - Acaba de comer, caralho, tu me fais chier avec tes merdes comme ça, vamos que eu não tenho o dia todo, mange!"
O imóvel é chique, coisa para duzentos mil para cima, situado na primeira linha da praia, com uma vista deslumbrante.
O discurso continua, grosseiro, repetitivo, insensível ao choro da criança, ao desespero do calor, à voz masculina que ameaça com porrada em ambas, e as manda calar em tom bastante ameaçador. Seguem-se mais choros, mais gritos, o cão que ladra ainda mais, e a manhã assim tão animada, num domingo de Agosto, por estas paragens, remete para um filme de aldeia transmontana em pleno Verão.
...
musa
Seis horas da manhã, o calor aperta, e os vinte e oito graus à sombra derramam a profusão de luz que a janela não consegue estancar, pois o corropio de calor atravessou toda a escuridão da noite e em nada refrescou a madrugada deste tórrido Agosto.
A dois passos do mar, o litoral já não é o que era, nem uma brisa para atenuar o sufoco desta tropicalidade caliente que teima em trazer do norte de África, o bafo poeirento do deserto.
As almas desassossegadas pelo calor agitam-se em gritos e barulhos, novidades no recanto, tão apegado ao silêncio e ao sossego, a azáfama borbulhante de sons e línguas faz-me recordar outro país, outras vidas.
Ninguém merece passar uma noite em branco por causa do calor, dormir de janela toda escancarada, e não lembro alguma vez desde que assentei arrais nestas paragens, assim ter acontecido, o lugar sempre foi muito fresco, mas agora sufoca, e bem cedo, neste madrugar atribulado, a rasgar o silêncio da manhã luminosa, berra uma criança e grita uma mãe, e outros barulhos fazem concerto das horas inapropriadas a esta musicalidade contribuindo para a poluição sonora do cedo erguer.
" - Mange Elodie, depeche toi, on t'attend de finir, t' a que avaler tout ça, merde, j' en ai marre des gosses, on est lá toute lá journée."
E o discurso a viva voz, entre barulhos de coisas que tocam o chão e outras que batem noutras, somado com o choro das crianças e o cão que ladra, alegra a manhã e promete a ilusão de circunstância de tempo e de lugar, deslocados no mapa dos afectos, quando a infância tinha o selo especial das migrações.
O discurso avança agudo e irritado, a teimosia das crianças não cede a chantagem emocional, nem se compadece de estatuto ou contrato, somente a condição de progenitora testa limites de paciência e compreensão, nem duas línguas dão conta do recado.
" - Acaba de comer, caralho, tu me fais chier avec tes merdes comme ça, vamos que eu não tenho o dia todo, mange!"
O imóvel é chique, coisa para duzentos mil para cima, situado na primeira linha da praia, com uma vista deslumbrante.
O discurso continua, grosseiro, repetitivo, insensível ao choro da criança, ao desespero do calor, à voz masculina que ameaça com porrada em ambas, e as manda calar em tom bastante ameaçador. Seguem-se mais choros, mais gritos, o cão que ladra ainda mais, e a manhã assim tão animada, num domingo de Agosto, por estas paragens, remete para um filme de aldeia transmontana em pleno Verão.
...
musa
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
CLAMOR AOS ANJOS
CLAMOR AOS ANJOS
Chamam às preces sinos badalados
Na torre altaneira viçoso alarido
E dessa maneira sabem-lhe o sentido
Clamam misericórdia e perdão de íntimos pecados
Ouvem-se os sinos ritmados dobram
Crenças e fé de nobre religiosidade
Não mais do que virtude ou amor cobram
Que os deuses não querem saber da intimidade
Da manhã à tarde e a noite que é segredo
Melodia dos sinos a chamar anjos à terra
Há que contar alvíssaras de tanto medo
Sosseguem os espíritos no seu descanso profundo
Os sinos não dobram por quem perdido erra
Nem são invocados a vir a este mundo
...
musa
Chamam às preces sinos badalados
Na torre altaneira viçoso alarido
E dessa maneira sabem-lhe o sentido
Clamam misericórdia e perdão de íntimos pecados
Ouvem-se os sinos ritmados dobram
Crenças e fé de nobre religiosidade
Não mais do que virtude ou amor cobram
Que os deuses não querem saber da intimidade
Da manhã à tarde e a noite que é segredo
Melodia dos sinos a chamar anjos à terra
Há que contar alvíssaras de tanto medo
Sosseguem os espíritos no seu descanso profundo
Os sinos não dobram por quem perdido erra
Nem são invocados a vir a este mundo
...
musa
SOMBRA
E a sombra acende o fogo dançante
Mansa e leda magenta
Avança na obscuridade
Lapidado diamante
De rubra tonalidade
Lua sangrenta
Negra fuligem
De cor barrenta
Oxidada origem
Explode a escuridão
Em fases a implosão
Iodada ilusão
De um vermelho solar
Nacre lunar
Espelha o infinito
Estende em sangue a mão
O eco sangrento do grito
Num eclipse solidão
...
musa
Mansa e leda magenta
Avança na obscuridade
Lapidado diamante
De rubra tonalidade
Lua sangrenta
Negra fuligem
De cor barrenta
Oxidada origem
Explode a escuridão
Em fases a implosão
Iodada ilusão
De um vermelho solar
Nacre lunar
Espelha o infinito
Estende em sangue a mão
O eco sangrento do grito
Num eclipse solidão
...
musa
ANÉMICA IMPOTÊNCIA
ANÉMICA IMPOTÊNCIA
Queria ser pássaro ou coisa espiritual
Abstraída desta térrea sensação
Elevaria do sentir esta dor carnal
Atraída pela férrea ilusão
De que de aço a fortaleza pode ruir natural
A proliferação desmedida
De colónias esbranquiçadas globulares
E substâncias estranhas
Na carne dorida
Sombras enfeitiçadas nodulares
A deixar marcas castanhas
Totens e sinais da anémica impotência da vida
A carne violacea a fraquejar
Deslumbrada com os rituais dos corredores
E o cansaço das veias
A abrupta desilusão
A trazer lágrimas ao olhar
E a fortalecer súbitas dores
Dos pesados passos e das marcas feias
Na íntima sofreguidão
No íntimo desânimo
Na íntima loucura
O fardo das últimas peleias
A raiva o medo e a solidão
O reduto do ânimo
A doce tortura
Da compaixão
...
musa
Queria ser pássaro ou coisa espiritual
Abstraída desta térrea sensação
Elevaria do sentir esta dor carnal
Atraída pela férrea ilusão
De que de aço a fortaleza pode ruir natural
A proliferação desmedida
De colónias esbranquiçadas globulares
E substâncias estranhas
Na carne dorida
Sombras enfeitiçadas nodulares
A deixar marcas castanhas
Totens e sinais da anémica impotência da vida
A carne violacea a fraquejar
Deslumbrada com os rituais dos corredores
E o cansaço das veias
A abrupta desilusão
A trazer lágrimas ao olhar
E a fortalecer súbitas dores
Dos pesados passos e das marcas feias
Na íntima sofreguidão
No íntimo desânimo
Na íntima loucura
O fardo das últimas peleias
A raiva o medo e a solidão
O reduto do ânimo
A doce tortura
Da compaixão
...
musa
DISCURSO FERIDO
DISCURSO FERIDO
"Eu sei lá ou o caralho, sei lá o que digo, não estou boa da minha cabeça"
Corpo estendido
Amarrotado
Enxovalhado
Ensanguentado
E o olhar tão perdido
Da testa a escorrer
O sangue da queda na rua
O discurso sem sentido
A boca a estremecer
A alma já nua
Despida de razão
E na nudez da insanidade
O discurso ferido
O grito aflitivo
Em busca da verdade
Pequenos passos pela incoerência
A fuga desorientada
O discurso repetitivo
A exaustão e a impaciência
O rosto da infelicidade
Química da desilusão
A cabeça a arder
Levitação dorida
Auto de paixão
Súmula da vida
Treva de viver
...
musa
"Eu sei lá ou o caralho, sei lá o que digo, não estou boa da minha cabeça"
Corpo estendido
Amarrotado
Enxovalhado
Ensanguentado
E o olhar tão perdido
Da testa a escorrer
O sangue da queda na rua
O discurso sem sentido
A boca a estremecer
A alma já nua
Despida de razão
E na nudez da insanidade
O discurso ferido
O grito aflitivo
Em busca da verdade
Pequenos passos pela incoerência
A fuga desorientada
O discurso repetitivo
A exaustão e a impaciência
O rosto da infelicidade
Química da desilusão
A cabeça a arder
Levitação dorida
Auto de paixão
Súmula da vida
Treva de viver
...
musa
SALA LARANJA
SALA LARANJA
Melódico choro lento
Sussurro gemer
Ébrio padecer
Diga-me o tempo
Quanto tempo de espera
Tempo que desespera
Em desumano viver
Um desmaio e uma cólica renal
Um atropelamento e uma queda na rua
Doença súbita e intemporal
O corpo que sua
A dor que tritura
Da alma e do mal
Da pele e da loucura
Tem a cor laranja
De um doido entardecer
O sabor agre da toranja
E a vida a desfalecer
Azáfama estridente em corropio caótico
Punção em flor de líquido amniótico
A dor secreta e íntima a nascer
Surto de gente a morrer
Resiliência humana
Essa vida tão estranha
O caos da sala triste
O sofrimento insiste
A cor alaranjada
Ah… se a vida fosse nada
…
musa
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