quinta-feira, 2 de agosto de 2018

BALADA DO SORO

BALADA DO SORO

Perfusão intravenosa lenta
Gota a gota
Água oxigénio sal
Emulsão venenosa que alimenta
Poderosa química salina
Néctar humano divinal
A escorrer da agulha fina
Balança na veia
Corre no sangue
A luz que ilumina
Sossego da dor
Soro que incendeia
O fogo abrandado
Do corpo cansado
Do medo clamor
Sais e cloretos em dança hidratante
Rituais secretos de um segredo cantante
Horas de esplendor
Gota a gota sentida
A hora da vida
Acalma indolor
A doce ferida
...
musa

URGÊNCIA

URGÊNCIA

Urgência
O cais perfeito da impaciência
O odor a merda urina sangue pus
Desembarcam bactérias fungos vírus
A sangrenta batalha da ciência
E como é podre esta humanidade
E luta desumana na sobrevivência
Da caótica felicidade
Em cadeiras macas e até no chão
Agulhas gases pensos algodão
Sondas vapores a escorrer
Máquinas a soluçar e a apitar
Vips sonoros e luminosos
O olhar vítreo e longínquo de quem está a morrer
O coração a parar
Corpos mirrados ósseos adiposos
O grito da tosse ardente
A dor insuportável intratável inquestionável
A alma em desassossego profundo
A miséria que obriga a gente
A penhorar saudável
O maior tesouro do mundo
...
musa

ESTADO POÉTICO

Estado poético

sobram palavras entre nós
que os olhos bebem do sal dos teus olhos
palavras fervilhando no segredo da emoção
fundem-se no olhar da doce voz
a calar bem fundo a dor do coração
e as palavras não consigo encontrá-las
onde as deixei estando contigo
não sei se algum dia conseguirei achá-las
onde em que lugar no teu abrigo
nos abraços de apertos em colo e beijo
escrevemos com a pressa de viver
deixamo-nos vencer de desejo
e sabemos que amor já não é só o prazer
mas sim um mundo mais além
doido horizonte de ninguém

Todo o horizonte é o meu mundo
Um caminho líquido ondulante
Uma fonte perdida e distante
Um destino profundo
Uma estrada esquecida
Rua antes do céu
Em tempo de recomeçar
Sombra luzente da vida
Onde uma estrela desceu
Para aí brilhar
Esmaecida
...
musa

UMA LÁGRIMA AO ENTARDECER

UMA LÁGRIMA AO ENTARDECER

Na clareira da tarde
Ainda desaguam às vezes
As calmas águas luzidias
Das lágrimas da saudade
Versos de luminosidade
Nuances de poesias
Nesse peito foz
Feito um fogo aceso
E ao tempo preso
O grito sufocado já sem voz
No leito de um rio de intimidade
A solidão da árvore eternidade
Todas as águas por correr
Nas margens de todos os meses
Até ao entardecer
No pranto do fogo que arde
Todas as líquidas horas incandescentes
De um vento de ínfimas nudezes
Como se a lágrima despida
E as mãos ainda quentes
Trouxessem o sopro da vida
Em gotículas transparentes
Quando a tarde já se esfria
E a sombra abraça a luz
Deitando-se com a melancolia
E o soluçar conduz
Um verbo antigo
Fazendo do olhar
Terno lago abrigo
...
musa

LUA

LUA

Misteriosa do céu quase uma runa
Bolha leitosa de brilho e luz
Fogosa pérola a velejar escuna
Altaneira rosa que das estrelas seduz

Em quartos dividindo o tempo
Noite em flor de iluminada escuridão
Travo amargo de amor e de paixão
Florindo cheia circundada ao vento

Magnânima bola de cristal a fazer sonhar
Clareando as trevas de mistérios ressurgida
Pórtico pontão panteão altar

Quem te conta e canta e te eleva em prece
Espalhando as runas em pedras da vida
De sangue ou de alma de sonhos te oferece
...
musa

AVÓ

AVÓ

De lenço negro e enrugadas as mãos doces e finas
Ainda o cordão umbilical a tecer rasgado sorrir
No olhar ternura antiga e véu de mansas neblinas
A saudade cravada na memória e no luto de existir

E sempre os abraços e o meigo colo ternurento
E a voz a amaciar birras e lágrimas de criança
E a sabedoria de preces e mezinhas e receitas do tempo
E a telúrica força a enraizar carinho na infância

De humildade e gratidão cada teu passo de vida
Cumpriste de coração o teu papel de avó
E talvez a eternidade te seja agradecida

Alma azul de cabelo branquinho e olhar sempre lacrimejante
Ainda que não estejas e o teu ser esvoace em pó
Eterno será o amor invisível e distante
...
musa

REENCONTRO

REENCONTRO

Um dia vamo-nos reencontrar
Na obscuridade silêncio infinitude
Magnanimidade que desespera
A saudade a escorrer do olhar
A água luz do instante inquietude
O longínquo rio que nos espera
Do amor que dividimos sem nos amar

Outra vida mais além
Não sei se inverno ou primavera
Ou tempo de verbos por partilhar
A súbita urgência de ser também
O eterno sentido da mística paixão
O afago de mão e a vontade de beijar
Da loucura amorosa de tudo o que ficou por viver
A prece a súplica ou a oração
Sem nada dizer
No leito desfeito o desassossego do prazer
E a mágoa sem querer

E a dizer-te dir-te-ia
O quanto sei e acredito que vai acontecer
E no reencontro já deixei
Um caminho de palavras em poesia
O ritual da sublimação
A divinal inspiração
Versos de ilusão
Do tanto que te amei
Quimera ou fantasia
E eu que sei

Um dia voltarás
E terei paz
Eu sei
...
musa

RISOS DEBAIXO DO MESMO TELHADO


RISOS DEBAIXO DO MESMO TELHADO

Duas casinhas, pintadas de um amarelo torrado e telhas vermelhas, com pátio em cantaria, o granito lavrado pelo ofício ou arte de talhar blocos de rocha bruta.
O mesmo telhado a cobrir as duas habitações, as cozinhas sem forro, deixavam a nu o travejamento da arte de marcenaria que sustentava a asna, a viga principal, os barrotes, as ripas enegrecidas pelo fumo da lareira, e que serviam de apoio às varas do fumeiro, e de suporte aos morcegos da noite.
As paredes tinham ouvidos, riam, cantavam, choravam e numa murmuração melodiosa, tilintando como se o crepitar da fogueira fizesse eco na madeira negra como um tição, sussurravam histórias que ainda hoje hão-de saber de cor, esperando risos de criança e olhares curiosos de uma meninice feliz.
À hora de lavar a louça, ouvia-se o batuque da caneca de esmalte contra a parede, a dar sinal de comunicação, e a água a correr fria e fresca, na bacia que logo se enchia, abrindo a porta e sendo despejada para a rua.
Não havia esgotos, apenas água canalizada, improvisada da fonte próxima. A casa não tinha saneamento básico.
Não havia televisão, os serões passavam-se a conversar, a contar e a ouvir histórias, a assar castanhas na lareira, e a rir debaixo do mesmo telhado, as conversas divididas pela parede das cozinhas, ouvia-se tudo, quase não havia privacidade.
De um lado duas meninas, às vezes três e quatro crianças, quando os primos se juntavam nas férias escolares em casa da bisavó. Do outro lado, dez crianças todos irmãos, com pouca diferença entre eles, de risos variados, a inocência feliz de quem com pouco se criou e a quem a vida ensinou que  basta uma família unida e um naco de pão por sustento para que a vida siga o seu rumo necessário à ordem das coisas.
O telhado partilhado através do tempo, guardou da memória a matemática intacta dos afectos, as contas de somar, subtrair, dividir, multiplicar, essa infância mágica, hoje traduzida por palavras a perpetuar risos sob as mesmas telhas, segredos escondidos, preces atendidas, e por certos desilusões, essa vida temperada de silvestres sonhos, ou a graça de viver a bucólica existência para lá dos montes.
Há ainda o odor dos potes ao lume, a sertã das filhoses empoeiradas de canela, a sombra da noite tão longa quanto a demora para ver acontecer o milagre do futuro.
Nunca os telhados de vidro foram tão transparentes ou a primeira pedra acordou os deuses adormecidos de um poético esquecimento.
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musa

quarta-feira, 18 de julho de 2018

TÃO DISTANTE JÁ

TÃO DISTANTE JÁ

Do caminho que percorremos
Sem chegar nem partir
Tão distante já
De tudo o que já dissemos
Já fizemos existir
E no silêncio despir
As inúteis vestes do despudor
Caminhantes do amor
Tão distantes e ignorados
Na lágrima prisioneira
Como um barco sem remos
Um cais de pedra e de madeira
Sinais da vida em abandono
Qual caixão onde morremos
E nos amamos
Da primavera ao outono
Toda uma vida inteira
E sem haver tempo de despedida
Num longínquo adeus
Deixamos
Toda uma vida
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musa

terça-feira, 10 de julho de 2018

HUMILDADE

HUMILDADE

Curvo-me diante da montanha
Templo sagrado da natureza
No interior rasgado pela gadanha
Veio sangrante de rio e escuridão
Chão de pedra em toda a sua dureza
Na mais inóspita humildade
Vergo-me à sua beleza

E da imensidão do olhar
Em estendal de poentes
O coração a palpitar
Cortantes e Silentes
Augúrio e prece
Prantos a cintilar
Onde acontece

Brilho e vastidão
Em vales de humildade
Vergo-me pelo peso da humanidade
E da magnânima oração
Súplica da profunda paisagem
De veias calejadas
De cavernas inundadas
De íntima viagem
Desassossego em profundidade
Tempo de medo ou de coragem
Ou talvez a prova divina
Deus ou o homem à sua imagem
A divinal entidade
Por decifrar
Ou a deusa sozinha
A caminhar
…
musa

Estátua de Guan-im da deusa em Tailândia, deusa da mercê