quinta-feira, 28 de abril de 2016

DESEJARIA

DESEJARIA
Houvera violetas
Na terra sepultura
Instante desassossego
As cores secretas
Da lívida loucura
Quando da vida tem medo
Desejaria
Aciprestes na sombra do tempo
A mais estranha fantasia
Talvez roxa flor lamento
Florida hora do dia
Lábios de frio e silêncio
Olhar matriz firmamento
Interlúdio de poesia
Colidindo a magia
Do pensamento
Onde ancorar
A claridade
Do sentir
...
musa

(Floriu a primeira violeta do meu jardim)

ABRIL - Ary dos Santos - As Portas que Abril Abriu


ABRIL
Se cravos abrissem
Palavras fechadas incertezas
Palavras florissem
Onde tristezas acorrentadas
Por detrás das grades sorrissem
Mãos de punho fechadas
E a flor vermelha de punho erguida
Mostrasse como quem espelha
Uma centelha que brilha
E o tempo guardado em memória
Lembrança pétala caída
A revolução já tão velha
O rubro instante da história
Em que uma baioneta florida
Foi o grito de vitória
E Abril no meu país
Esperança de uma luta feliz
O sonho liberdade de uma vida
...

musa

quarta-feira, 20 de abril de 2016

AINDA ESTÁS AÍ

AINDA ESTÁS AÍ

Ainda estás aí

“Não ia gostar nada que desistisses...
És a existência de um Sonho...
Belo...
Beijo-te...
Ant”

Surpreendem-me as tardes frias
Súbita frialdade a esbranquiçar os nimbos
Sonhos esmaecendo entardecer
O cru dos céus em cores sombrias
Que a ventania vem arrefecer
E faz tremer olhar os dias
Onde sonhar não chegou acontecer
Ainda estás aí

Insistindo em não desistir
A mesma força nas palavras por escrever
Adivinhando o teu sentir
Na profundidade desse querer
Que o tempo insiste em manter vivo
A existência do sonho sentido
Que amas gostar
Tanta vez

E talvez ainda estejas por aí
Onde outra vez te sintas surpreendido

Quando todas as primaveras voltarem
E eu escreva todas as palavras por ti
E as plantas e os pássaros se amarem
No ninho das horas como leito
E bata em sintonia no meu peito
Badaladas de sonhos e silêncio

E um desassossego infinito
Esse tempo tão bonito
Por estares aí
…

musa

terça-feira, 19 de abril de 2016

TRÊS VEZES ERREI

TRÊS VEZES ERREI

Atravesso o tempo
Na directriz de inventadas
Identidades
A motriz exacta do pensamento
As várias probabilidades
Atravessadas
Com a bissectriz do movimento
A matriz maior do sentimento
Talvez o que condiz com pensar
Peças desencaixadas
Do sentir
Se alguma vez eu mentir
Perfiz o único erro temperamental
Contrafiz a vida por inteiro
As asas do tempo cortei as
Já que primeiro
As mãos lavei as
E Pilatos assistiu
Nada disse do que sentiu
Sentido estranho
Errar sendo humano
Consente existir
A ubiquidade do engano
Do que possa convir
Dizer a verdade ou omitir
Mas nunca mentir
...
musa

HOMEM SÓ

HOMEM SÓ

Coloco te num pequeno altar
Deidade divina te adormecer
Estar ou ser em profundo olhar
A intimidade desse prazer
Que a criação ousa alcançar
Na força oculta do bem querer
As mãos em divinal prece
Adivinham as palavras ainda por dizer
E todas as ladainhas que sei rezar
Na profundidade do templo a luz esmaece
A sepulcral intimidade acontece
Entre o silencio das pedras a liturgia
Diante de deus a orar
Divina a poesia
Dossel sentir
Odor de incenso essência das velas a arder
Tímida chama em sombras a refulgir
E o eco vagido em submersa escuridão
Penumbra véu de pétalas a fenecer
Um caldo de poeira ainda por atravessar
Vai tão só o homem descalço
Carrega nos ombros a solidão
Tem a morte no seu encalço
Sentença de vida sem perdão
No altar da frágil condição
...

musa

TALVEZ EU SEJA SEM SER

TALVEZ EU SEJA SEM SER

Abdicaria da eternidade
Para te ter
Talvez eu seja sem ser
No silêncio da intimidade
Eu tenha o teu sentir
Algo doce a enternecer
Beirais tristes do olhar
Ramos de árvores a atrair
Pássaros a florescer
Frutos do pomar
E eu seja a terra e a luz
O chão por pisar
A folha a cair
O tempo de viver
Do cálice dos sentidos
A pena de escrever
De azul por tingir
Bicos quebrados feridos
Folhas brancas de ausência
Talvez eu seja a transparência
Da sombra bruma nevoeiro
A negra tinta do tinteiro
Semeada essência
Âmago espiritual
A paciência da alma carnal
No corpo inteiro
...

musa

AGONIZAR DE VIVER

AGONIZAR DE VIVER

Agonizo este silêncio
Inteiro dentro de mim
Perfurando a veia
Densa inquietude
Travessia
Este silêncio sem fim
Rendilhada teia
Brilho espessura
Agonizante
Virtude
Em demasia
A doce loucura
Desafiante
Agonia
Do ser
…
musa

TEMÍVEL TEMPO

TEMÍVEL TEMPO

Resta a estrada das cidades

Os lugares por onde peregrinei

A lama calcada pelo peso dos ombros

Restam cravos e liberdades

Os lugares onde nunca andei

Resta a casa em escombros

O cortinado vermelho

Gasto e esfarrapado

Um pedaço partido do espelho

Memórias do passado

Resta o umbral da porta aberta

E já por lá passei

Luz misteriosa e secreta

A sombra do lugar onde vivi

Restam os sonhos que abandonei

A loucura que senti

As melodias que dancei

E do que me resta viver

As palavras em movimento

A última dança antes de morrer

Já que se faz tarde no tempo
…
musa

FERIDA DE SENTIR

FERIDA DE SENTIR

Estou ferida de sentir
Apeteciam-me os lugares
visitados pelo poeta
Como se a estrada das palavras
fosse a viagem peregrina do pensamento
Uma apetência de vontade secreta
A deambular em margens quilometradas de sol chuva e vento
Apetecia-me viajar nos versos cheios de lugares
que eu ainda não conheci
O fogo aceso da vontade
que eu já senti
Apetece a viagem pelo tempo inventado no poema
sem as paragens da sua pontuação
O silêncio da voz serena da solidão
Partir na primeira estrofe sem bilhete de regresso
O sonho insano em profundo desalento confesso
Apanhar a carruagem das sílabas
e estagnar no movimento das paisagens
Alcançar o gozo satisfação em todas as paragens
Chegar onde nunca ousei levar a imaginaçao
A travessia utopia desassossego da ilusão
Atravessar os campos do deslumbramento
Na emotividade e no trilho do contentamento
Sei que há lugares onde a palavra
enmudece os sentidos
Recônditos lugares misteriosos e perdidos
Onde ficam tantos desejos por cumprir
E a única viagem que me apetece fazer
É desistir
De viver
...
musa

quinta-feira, 14 de abril de 2016

TERRA SAGRADA

TERRA SAGRADA

Elísio gozo iodargírio
Minério de prata e ouro
A cor aveludada violeta
A sangrar roxo martírio
Da paixão o tesouro
A porta secreta
Do Santo Graal

O fel abismal do poço escondido
Onde a terra toda se faz coadouro
Em busca da utopia eternidade
Deípara maternidade do sentido
Berço ou manjedoura ou cálice ou matadouro
Arca enfeitiçada da felicidade
Caminho perdido
Ancoradouro

Palavra ou paixão
Grácil o vaso mistério proibido
Da procura insistente a sagração
A simbólica metáfora da criação
Lúgubre alimento consentido
A sede espiritual da liberação
Sacro silêncio solidão
O vinho bebido
Em remissão
...

musa

E DEPOIS

Apartamos-nos
Mesmo errado o tempo verbal
Dois corpos desunidos
Com tanto amor feito
Pele de palavras e alma intensa carnal
E um vazio imenso a transbordar No peito
Desce um véu sombrio no olhar
Há silêncio pingando dos sentidos
A última gota do rio desfeito
A água madura a correr no leito
Tortura a gritar
Ode ao sentir
Gemidos

E depois volta a saudade a ferir
A golpes de adeus desferidos
Sem queixumes nem promessas
A meiga aceitação
Os olhos rendidos
Os sonhos perdidos
De desilusão
E loucura

E depois a desmesura espera
O pior dos castigos
A certeza quimera
Dos sonhos antigos
...

musa

quinta-feira, 7 de abril de 2016

LUMINOSO SENTIR

LUMINOSO SENTIR

Se o que escrevo te faz sentir...

"O que escreves faz-me desejar-te..."

Desejo antigo
O teu
Tão próximo do meu
Desejo escondido na distância de um olhar

"Transparece nos teus olhos Luz,
Desenha o teu sorriso Gioconda,
Desabrocha na tua boca Mel..."

Tímida  transparência
Luminosa vontade
Há nas palavras a essência
Reticências a sorrir
Um não sei quê de sensualidade
Verbos a florescer
Tempos a desabrochar
De emoção prazer
Em luminoso sentir
E qualquer coisa de loucura
Em pétalas do olhar
Um desenho de ternura
A um canto da boca a sorrir
Favos a pingar doçura
A luz distante e antiga
Do teu demorado desejo
A claridade que fustiga
A pele de dócil beijo
Misteriosa Gioconda
Mel no olhar secreto
Borboleta ou flor
Há um sorriso discreto
Em desenhado amor
De ausência e silêncio
E recatado pudor

infusões de sentidos...
luz da imaginação...
mistério de um beijo...
doçura em sagração...
a primavera tem destas coisas...
...

musa

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A FILIPA LEAL E JOÃO LUIS BARRETO GUIMARÃES

A FILIPA LEAL E JOÃO LUIS BARRETO GUIMARÃES

Hoje fiquei sem almoçar, mas comprei dois livros de poesia.
Devorei-os em dentadas de mastigação salivar de forma a aconchegar os sucos estomacais evitando o refluxo abusivo da atitude.
De estômago vazio vim-me à quinta-feira a imaginar um repasto do mediterrâneo num terraço ao sol livreiro da superfície comercial onde passei fome.
De sobremesa digeri a intenção de comer alguma coisa nutritiva no jantar noctívago da inspiração.
Haveria de me alimentar da obra cozinhada ao fogo lento de pequenos versos com pontuação que pela primeira vez usaria.
Talvez o poema seja isso e esfomeada seja a condição da loucura poesia.
Um verso em parcelas mastigado todo inteiro.
Se eu pudesse ser louca todos os dias.
Amanhã vou comprar um livro sem dinheiro.
...

musa

DIAS CONTADOS

DIAS CONTADOS

No extremo das palavras a latir
Há dias contados de inconstância abrupta
Cães danados com fome de sentir
Esta avidez de morte desde a infância
Que consome tempos cansados de existir
Horas de desespero e relutância
Vadios os dias latidos dessa instância
Que hesita sóbria a vida
Teimosia sentida

Vacilação na correria das palavras matilha
Como se lobos os tempos fossem desse verbo
Alfa atraiçoada e ferida
A vírgula ultrajante da partilha
Louco o servo

Há dias contados a descontar ao destino
Olhos cansados presos na armadilha
Que a vida armadilhou pelo caminho
Com cinco cordas de sentidos
E o chão que tantas vezes parece tirar
Debaixo dos pés perdidos
Restam os dias por contar
...

musa

CEGUEIRA

CEGUEIRA

Poemas para os meus olhos cegos
De que demorei tempo de mais
A enxergar a nitidez dos contornos
A superfície rugosa os cantos esbarbados os bicos afiados
Frinchas e levantados pregos
Espetados como punhais
E as marcas como adornos
A cegueira dos encantos
Em labirintos desiguais
Porque demorei tempo de mais
A cheirar cega a agressividade das cores
Opacas saliências de aspereza prematura
Adoptivas nuances de apuradas essências multicolores
Frisos em rugas de transparência e loucura
A violência invisual da intuitiva inspiração
Quase intimidação e tortura
A contaminar a claridade
Em fragrâncias sensações
De nesgas luminosas da frialdade
Que aguça a cegueira em desalento
E o tacto que fere a pele do sentir
Pequenos pontos luminosos a ferir
Olhar que não vê além do pensamento
O cativeiro ensina e lê a dor de esquina
A treva uterina do esquecimento
Adormece a retina
Cega o tempo
...

musa

TÃO

TÃO

Os meus olhos vencidos
O meu corpo cansado
O meu sentir esgotado
Desistindo dos sentidos
Não há verdade que canse
Tanto como a mentira de admitir
Como é falso todo este existir
Sem que o desânimo avance
E o desalento a persistir
E na duvida balance
A vida tão oca e vazia
E a tristeza a consentir
A mão pesada e fria
Da morte apetecida
A alma em parte incerta
De tão longe e sombria
Tão distante de vida
Tão insana e tão secreta
Tão real de fantasia
Tão fechada tão aberta
Tão preterida
Tão discreta
...
musa

ENVELHEÇO

ENVELHEÇO

Envelheço
Como uma cidade de rugas empedradas
Olhos com floreiras floridas
Faces de paredes caiadas
A boca aberta deixando entrar vidas
Rosto de velha engomo as esquinas
Sulcos como vincos a cair de rotos bolsos
A alma esfarrapada a surripiar sonhos
Na mão o lençol da tragédia lembrando as quinas
Das conquistas do olhar de uma nação
Negras pupilas ainda meninas
Náufragas do coração
E envelhecida perco a lisura
Com que a beleza suporta umbral do tempo
Um traço perturbador de loucura
Um sinal do pensamento
Velha a vida é tortura
Deslumbramento
...

musa

SILÊNCIO E VOZ

SILÊNCIO E VOZ

Com o passar do tempo
Sem saber de ti
O tempo passa no tempo
Com a voz e o silêncio que senti
Ao passar do saber feito de ausência
Com metade de tudo o que já perdi
E esta estranha dorida apetência
Do silêncio da voz emudecida
Nos olhos há uma saudade sentida
Travo de luz e transparência
Silenciada a loucura proferida
A ténue essência
Do grito de vida
...

musa

CONFIA A DOR

CONFIA A DOR

Caiaram as paredes de silêncio
O chão amadurece odor e brilho
Dor em vale de lençóis cava o trilho
Corpos lavados doce polimento
Lavrados de suturas e desinfectante
O sossego inócuo delirante
Esconde-se numa lágrima desalento
Algo demorado e distante
Fugidio e lento
Trémula a voz confia
A um outro dia
Um outro tempo
...

musa