quarta-feira, 5 de outubro de 2016

ROSA DE FERRO

ROSA DE FERRO

Delicadas pétalas duro aço
Essa cor de chumbo do metal
A firmeza leve de um abraço
Que aperta forte e tão carnal

A frágil fragrância do metal
Suavidade da rosa minério
A férrea cor simples natural
Encerra em botão o mistério

Do núcleo da terra tem a idade
O tempo em carbono o passado
Um jardim a guardar a eternidade

Fundido o pranto dá-lhe a oxidação
Maleável cinza ou sonho prateado
O fogo a beleza do ponto de fusão
musa 

MEU AMADO SENTIR

MEU AMADO SENTIR

Insuportável dor de amar impossível
Meu amado sentir que alma retalha
Em sentimento profundo indivisível
Dos sentidos mal que assim se talha

Amargura a corroer corpo por inteiro
Dor intensa mais do que essa loucura
Meu sentir tão insano cruel derradeiro
Que por dentro me devora e me tortura

E podem poetas cantá-lo amor maior
Brevidade tormenta em fogo lento
A carnal sentença em dócil torpor

Que afogueia versos na intimidade
Será talvez melhor remédio o tempo
Para o curar do prazer da saudade
musa 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ESSA CIDADE

ESSA CIDADE

As cidades revisitadas
Ficam memórias
Na lâmina do tempo
Na envolvência das histórias
No grito das vitórias
Ficam guardadas
No sentimento
Uma lápide da alma a cinzel
Gravado o tempo
Como em folha de papel
Assentam as lembranças
No umbral dos pensamentos
Restam cidades com crianças
A lembrar que já fui uma delas
Como se abrissem janelas
Da clausura do sentir
E fosse assim existir
Um templo e as sentinelas
E eu
Uma vida sumptuosa a fingir
E a fugir de tudo o que já morreu
Porque a vida para além das cidades
É somente um punhado de saudades
...
musa

AMOR ausente

AMOR AUSENTE

Onde estás, para além deste aperto no peito
Em que pensas, torturante esta ânsia minha
Inquietante desassossego imperfeito
Rumo da saudade que caminha

Por aí errante a divagar entristecida
Procura incessante do teu olhar
Dolorida é a espera amargamente sentida
Quando adentro a alma em silêncio se põe a chorar

Amor ausente que assim permiti viver
Entregue a todos este sentir de paixão
Em loucura de desejo  e íntimo prazer

Amor não correspondido ignorado
Tão fugaz e insensível como a dócil ilusão
Um punhal de dor num verso cravado
...
musa

A NEGRA VIÚVA

A NEGRA VIÚVA

Quando sóbria cintilo vago entardecer
Sépia nuance do luto da borboleta
Às voltas com a saudade quase a desfalecer
Inebriante perfume dos lábios violeta

Os olhos fundos arroxeados
Dos prantos sentidos do ausente amor
Parecem de vidro fosco quebrados
Em indivisíveis gritos de viva dor

E as mãos frias gélidas mármore tristeza
Espelham a pele adamada de solidão
Sem no entanto lhe esconderem doce beleza

Que os anos passam por ela adelgaçando a silhueta
Viúva cintilante em insustentável paixão
Escondida na seda crua da mantilha preta
...
musa

CÉU EM FOGO

CÉU EM FOGO

Deste céu em fogo farto ateado
Por ausências vãs silêncio lume
Liquida raiva pranto por um lado
E por outro espera brasas ciúme

A queimar de mágoas e tristeza
Nas lágrimas chamas ausentes
Ardem mornas cinzas incerteza
Que ainda aquecem de quentes

Fogo insano que verso algum
Lhe seja mais do que ignição
A arder o tudo e tanto nenhum

Outro que alimenta a fogueira
Loucura incandescente paixão
A devorar em labaredas dessa maneira
musa 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

SOPRO DA SAUDADE

SOPRO DA SAUDADE

Pulsa na carne a intemporalidade
O verso antigo de existir
O sopro na alma da saudade
Angústia e ânsia de sentir

Secreto intimo saber espiritual
Talvez sem nome ou identidade
Vulto sombra silencio carnal
Que adentro busca cumplicidade

Da pele dos sentidos mãos que amam sem se ver
Em tão intenso desejo quase eternidade
Um grito que rompe a vida em louco prazer

E faz brilhar olhar de ternura solidão
E o tempo todo são lágrimas infelicidade
A magnânima loucura do sentir de uma paixão
...
musa

DAS HORAS SEM TI

DAS HORAS SEM TI

Horas malditas
Este desespero desilusão
Que teima monotonia
Tempero de mágoas escritas
Em receita de solidão
Versos de poesia

Pranto de seda
Choro de vidro
Tristeza de lã
A boca uma amargura fria
A pele em labareda
O olhar um crivo
A alma angustia vã
O corpo gelado e sombrio
Do entardecer à manhã
A vida um sopro um fio

Que horas de desgraça e cansaço
E demoras tanto com o teu abraço
Que já nada sei deste sentir
Cristal cantaria ou de aço
Sou a pedra mole de existir
Uma lágrima chorada por ti
E tudo o que por ti já senti
...
musa

VOLTA PARA CASA

VOLTA PARA CASA

Se voltares a casa
Traz-me aquele aroma das ruas
Que a pele do teu olhar despe
Quando as tuas mãos nuas
Deixam cair cheiros da cidade
E a minha alma veste
A vida em intimidade

Se trouxeres ao voltar
Para casa perto de mim
Cheiros impregnados no olhar
E a pálida luz carmim
De uma esquina adormecida
Uma rua por atravessar
Sem sentido e sem saída
Um beco onde se esconde a vida
Um bairro onde ninguém quer morar

Traz-me luz e cor
E praças abarrotar de gente
E jardins cheios de afectos
E avenidas largas de amor
E alamedas com arvores e sentimentos
Recantos bucólicos secretos
Um prado verde e uma flor
Em serenidade e harmonia
Trazida em segredo maior
Que versos em poesia

Volta para casa e traz contigo
A vida toda que conseguires
Como se o teu corpo fosse o abrigo
Do tempo perfume ao sentires
O bravio e doce alento
Como é bom voltares para estar comigo
Neste tempo
...
musa

A CASA DOÇURA

A CASA DOÇURA 

A casa semeada de silêncio na gaveta da noite
Entorpecida de barulhos abafados e sombrios
Quieta sossega abraços de aromas silvestres 
Há sobre a mesa canteiro de flores agrestes
E um retrato envelhecido pelo ares frios
Dos aromas colhidos no velho jardim 

Do fogão de ferro as brasas a crepitar 
Esvoaçam um calor abraçado a mim
Preenchem de luz famintos vazios
Há danças de labaredas no olhar 
Um fogo feitiço sem fim
Prantos feitos rios
De luz a cintilar

Cheira a coco e flor de limão 
Em doces tradicionais
E um chá a fumegar a canela 
Na cozinha aquecida pela solidão 
A embaciada janela
Espelha o rosto da serenidade
Ainda há resquícios de amor na mão 
E a doçura da saudade 

São talvez doces de gritos de amor
Cozinhados trémula ternura
Aromas da intimidade
Com sabor a loucura 
...
musa

domingo, 2 de outubro de 2016

DOIS POEMAS SEM TEMPO SEM HORA

TÃO CEDO AINDA É VIVER

A morte sabe que eu estou pronta
Sabe e sente como eu a chamo
Este corpo e alma onde encontra
A trave enleio gozo dor
Louco amor que eu vivo e amo
A pele vontade que eu proclamo
Doido chamamento
Mistério encantamento
Sussurro sentir
Desejo de morrer
Porque se faz tarde existir
E tão cedo ainda é viver
...
musa

DAS HORAS SEM TI

Horas malditas
Este desespero desilusão
Que teima monotonia
Tempero de mágoas escritas
Em receita de solidão
Versos de poesia

Pranto de seda
Choro de vidro
Tristeza de lã
A boca uma amargura fria
A pele em labareda
O olhar um crivo
A alma angustia vã
O corpo gelado e sombrio
Do entardecer à manhã
A vida um sopro um fio

Que horas de desgraça e cansaço
E demoras tanto com o teu abraço
Que já nada sei deste sentir
Cristal cantaria ou de aço
Sou a pedra mole de existir
Uma lágrima chorada por ti
E tudo o que por ti já senti
...
musa

ARCOS

ARCOS

Atravessarei mundos
E voltarei a viver
Entre mundos a luz
Radiante de outras vidas
Arcos ogivais profundos
E sentirei o fogo que conduz
A delirante chama onde afundo
Todas as lembranças sentidas

Pedras ancestrais obscuridades
Forte de silêncio e solitude
A solidão inquietude
Das saudades

Em arcos insustentáveis de dor
Na perfeição da memória
A travessia da história
Em granítico esplendor
musa 

AMOR FERIDO

AMOR FERIDO

Como pode uma mulher amar
Amar como quem ama fazendo arte
E em mil pedaços como quem parte
Em estilhaços a vida inteira
E amar assim dessa maneira
De beijos e abraços
E braços estendidos
Abertos e rendidos
Toda entregue toda inteira
Numa toada prece e oração
Amar de amor e de paixão
O impossível e angustiante amor
Em profunda e intensa dor
Amado amante tão secreto
O sentimento assim perpetuo
Do mais sensível pendor
Em desalento e loucura
Como quem de entrega tortura
Do mais triste sentir
Esse amor não correspondido
Que dói e fere o sentido
Em tão amargo existir
Talvez o veneno da vida
Esse amor ferido
Viver de coração destroçado
E de lágrimas consentir
A dor que a morte convida
O luto urgente amordaçado
Em colorido destruir
O corpo dolente cansado
Um arco-íris de pranto e luz
Esse amor tão pesado
Que mata e seduz
A razão de viver
A Amar a morrer
...
musa

DO LUGAR

DO LUGAR

Falo-vos de lugares
Ruas de silêncio e sentido proibido
De becos sem saída iguais a precipícios
Um ermo perdido
Bairros de mil cores de mil vícios
Um cheiro nauseabundo acre azedo
Onde se esconde o receio o medo
Talvez uma praça vermelha
O último cravo a luta a centelha
A esquina a dobrar o segredo
A casa antiga velha
Uma alameda florida
Árvores a segurar a vida
Uma luz que espelha
Clareira de dóceis afectos
Do lugar
Onde o tempo adormeceu
Há versos secretos
Que o pó escondeu
Sobre as ruínas esquecidas
Apagados riscos parecem dizer
Uma última réstia por escrever
E há palavras incompletas
Frases inacabadas discretas
Mensagens de outras vidas
Tudo o que ficou por viver
Um ultimo suspiro
Um sorriso um desalento
Adeus e despedidas
A loucura o verso em que respiro
Toda a amargura do tempo
Guardada num velho papiro
...
musa

ETERNIDADE AO AMOR

ETERNIDADE AO AMOR

Não choro e amo e hei-de amar
Não tenho lágrimas para chorar
Não fico triste nem desanimada
Serei sempre a eterna namorada

Deste amor do peito que já partiu
E desfeito o sonho deixada a vida
Pranto algum consinta se desistiu
De ser a alma insana e esquecida

Que o choro comungue com a eternidade
Pacto de silêncio dos sentidos profundos
Emudecida loucura nos lábios da saudade

Porque se eu não chorar ainda sinto e amo
Amor já morto mas vivo entre dois mundos
Memória meu corpo a poesia que declamo
musa