quinta-feira, 22 de setembro de 2011

DRUIDA DO SENTIR


 Esta noite invoco ao círculo do sentir
Bardos artesãos do pensamento
Faço as árvores bramir
Agito as folhas ao vento
Visionários do equinócio temperamental
Em abraços do tempo
Druida sentimental
Que vive na clareira do despertar

“sente-me toca-me coloca-me dentro de ti e faz-me sentir toda a sabedoria acumulada desde a primeira vez”

Druidesa com olhos de mar
Feiticeira talvez
Maga da poesia
Trazendo eternizada loucura
Em chão varrido fantasia
Onde ainda procura
Pérolas de orvalho
Tombadas em orgia
Poalha de luz
Perdura
Tremulo sombreado
Pelo sentir seduz
Imaginado
Range nas folhas do carvalho
Faz-se ilusão
Sedução
Assim é esta noite silenciosa
Feita de versos e prosa
musa

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

ao Mestre JÚLIO RESENDE


AO MESTRE JÚLIO RESENDE

“Desenhar é ver e estar
É expor-se na nudez mais completa
Só e sem amparo”
Mestre Júlio Resende

Por detrás de ti
                O touro
E o teu corpo de olhos fechados
Vigia as cores da tua paleta
               Tons em segredo guardados
                              Por uma chave secreta
Por detrás de ti
Um dia senti
Tudo o que ver-te e sentir-te desperta
Em mim
                Quão velhas eram as formas nominadas
                            Sem fim
As aguarelas misturadas
                Em todo o teu sentir
Repouso do Minotauro no teu olhar
Denso procurar e esgrimir
                          Na força do teu pincel
No ancorar sem amparo
                         Na nudez do papel
E … agora reparo
                      Jamais olhei as tuas telas
Além das cores mescladas aquarelas
Todas as formas de vida inventadas
                     Imortalizadas pelo pintor
Todo teu intenso fulgor
Na nudez da consagrada arte
                    E hoje… aquele dia em que parte
Fica comigo o ver e o estar
                   Porque somente desenhar
É SER…

(Setembro 21/2011)
musa

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

GRISALHO SENTIR


Doce pensamento
Adoro os fios brancos
Que se instalam no meu cabelo
Química do tempo
E já são tantos
Terno sentimento
Sem fim
Adoro tê-lo
Assim
Grisalho
Prateado
Como gotas de orvalho
No meu cabelo pintado
Mar de prata
Suspiros finos
Cruzes dos caminhos
Sinais de destinos
Na cabeleira farta
Fios de sabedoria
Beleza do sentir
Doce poesia
Voltar e partir
Meus cabelos brancos
Caminhada
Regresso e partida
Alvorada
Meia-idade sentida
E já são mesmo tantos
A prenderem-se à vida
Todos quantos
Levarei na despedida
musa

domingo, 11 de setembro de 2011

MÃOS DE MULHER

Minhas mãos pequenas
Notas de uma pauta de sentidos
Afáveis macias serenas
Dedos imbuídos
Prece e pena
Pele morena
Doce açucena
Bramidos

Chegam das tuas mãos humedecidas
Tantas as lágrimas sentidas
Que acolhi nas minhas mãos frias
Cada nota terno instinto
Abertas e vazias
São o que sinto
Notas lamento
Sentimento
Ausência
Transparência
Melodia
Acordes carinho
Pena da poesia
Fímbrias do destino
Mãos do dia
Dedos do tempo
Fantasia
Toco-te
Cada nota é um sentido
Tacto sublimação
Toque fundido
Respiração corporal
Sensual paixão
Pauta musical
Mão a mão
musa

sábado, 10 de setembro de 2011

A MUSA DE CAMÕES



Por algum jardim tangendo a lira
Senhora a vejo tão bela e preciosa
Atira-me um olhar sem que eu lhe pedira
Aos olhos seus lhe ofereço rubra rosa

Das mãos guarda o tempo madrigais
Altivo canto a lírica profana poesia
Elevam-se as vozes como punhais
Cravadas no peito da noite e do dia

Que desengano embrulha essa paixão
Hostes desordeiras travam-lhes a paz
Incitam a batalhas pela nação
Do amor a ira não é capaz

Mais lhe merecia sorte engenho e prazer
Doce Infanta Maria que o reino entristece
É por ela que tanto amor arde sem se ver

É o poeta que a tem em conta e arte
Camões de rimas seu amor lhe tece
E na alma e coração com ela parte
musa

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

MANCHA NEGRA

Soerguida da terra seca e rude
Por minha humidade choro
Elevo do chão corpo açude
Molhada quieta me demoro
Mancha negra
A terra toda treva
Do chão se eleva
Altaneira torre dos corvos negros
Clareando a mancha dos meus medos
O corpo ganha forma o rosto se desnuda
Mostrando à terra inteira seus segredos
Sem que ninguém lhe valha ou acuda
Transforma-se água pura cintilante
Cascata de lágrimas tombando no chão
A treva negra dura acutilante
Que corvos esvoaçando em negridão
Fazem brilhar luminosidade diamante
Mulher corpo brilho sedução
Da terra toda doce amante
musa

JARDIM DAS OLIVEIRAS

São mil anos de altiva firmeza
A terra toda alimentando bruta seiva
Da chuva a sede pureza
Tempo que das tempestades se eiva
Manhã de tanta canseira
Contamina toda a beleza
Tronco altar vigor
Luz cegueira
Rudeza
Esplendor
Certeza

Cascara sagrada
Templo aberto de oração
Alma mutilada
Em cada acto da paixão
Nervos à flor da pele
Descrédito desilusão
Entre o doce e o fel
Tronco transfigurado
Comoção
Raiz loucura
Do chão aos ramos crucificado
Rosto de oliveira
Emoção ternura
Verdade prisioneira
Mentira secura
Dois mil anos de incerteza
Jardim tormento
Sustentada leveza
Lamento
Pureza sentida
Sopro alento
Luz da vida
musa

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

PALETA DE PELE


Quantas vezes meu corpo meus lábios rosados
Foram paleta de cores leito do pincel
Quantos tons diluídos mesclados
Foram tintas na minha pele
Paleta de doces sentidos
De cores consentidos
Pele e boca

E como louca
Deixava-te pintar
Em ternas pinceladas
A pele e a boca
Morder beijar
Tintadas
As mãos e o olhar
Partilhávamos sentidos
Era a paleta e a tela
Entre húmidos gemidos
A nobre arte da aguarela
Pintadas fantasias
Feliz paixão
Na paleta de cores poesias
Onde ainda te guardo no coração
A mais bela tela de todos os dias
A recordar com emoção
musa

domingo, 4 de setembro de 2011

MULHER PHILAE

Base desordem do teu sentir
Pedra metal alvenaria madeira
Na minha pele começas a esculpir
Pegas-me de qualquer maneira
Sem eu te pedir

Fuste dos teus sentidos
Profusão de relevos
Entre sussurros gemidos
Fissuras estrias sulcos nervos
De outros tantos desprovidos
Clássicas caneluras
Entalhes detalhes consentidos
Em nossas tantas loucuras

Aneladas
Caneladas
Cóclidas
Corolíticas
De tambores
Entrelaçadas
Estriadas
Fasciculadas
Galbadas
Monolíticas
Prismáticas
Rostradas
Rusticadas
Salomónicas

Corpo arquitrave do sentir
Mãos Jónicas do ser
Cariátides a se insurgir
De relevos de prazer
Na dureza do tesão
Dóricas sensações
Lavradas emoção
Pedra de todas as paixões
Coríntias carícias
Nervuras leões
Paraíso das delícias
Toscanas insanas
Portões de doces beijos
Compósitas profanas
De escultóricos desejos

Sensual comoção capitel
Do olhar pleno extasiado
Coluna adornada pele com pele
Do nosso sentido provocado
A começar em clitóricos pilares
Instantes momentos ensejos
De todos os tempos desejos e beijos
Onde tu me deixares
Começar a sentir
Corpo Philae
Mulher coluna
Dedo a dedo esculpir
Inteira una
musa

sábado, 3 de setembro de 2011

HÁ DIAS ASSIM


Tenho os dedos cheirando ao molho da salsa e dos coentros picados numa dança de vinagre e azeite sobre a orelheira retalhada, petisco do patrão cá de casa, e no ambiente sorve-se as janelas escancaradas com perfume de sol trazendo húmus destes dias que têm sido húmidos e cinzentos aguando olhar perdido além das árvores e do mar que fica a poucos passos num cansaço que teima em ser ainda Setembro veraneio trémulo de risos de gaivotas descansando pela praia nua de gente onde outrora famílias de um tempo domingueiro tomavam conta do céu e do oceano feito sol e maresia, mas tudo muda, e a graça de ser passado arriba onde a deixam ancorar...
Vou pelo passadiço de madeira, de mãos dadas com o homem que me acorda dos sentidos e levo comigo todas as palavras que nunca deixei para trás...
...
musa

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ANJO DE NEGROS CARACÓIS


Luzidio cheiro do teu negro cabelo
Vem… Anjo quando te perdes
Em abraços perto de mim
Esse teu olhar doce e belo
Que só o teu rosto tem
Sereno singelo
Nos meus olhos acedes
Por um caminho sem fim
Perdido de alguém
No teu negro cabelo
Brinco com teus segredos
Os teus mistérios também
Afagando anelados caracóis
Como se na ponta dos dedos
Nesses anéis encaracolados
Ficassem os teus medos
Nos meus encurralados
Brilhando planetas sois
E nessa cabeleira farta densa
Amarro meus sonhos perdidos
Para muito tempo depois
Com a mesma vontade intensa
Partilhar contigo meus sentidos
Abraçando alegria imensa
De serem consentidos
Em negros caracóis de afagos
Presos os dedos perdidos
Que em mimos deitado no leito
Entre muitos tantos agrados
Te entregas no meu peito
Menino de caracóis negros
Onde me aconchego me deito
Atendendo aos meus recados
E me traz dos seus segredos
Sonhos maduros em bagos
musa

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

LITURGIA DOS SENTIDOS


Prece do sentir
Aos quatro ventos
Clamo meus momentos
Em prece de sentimentos
Oro os pensamentos
O cheiro invade
O sabor arde
O olhar humedece
O ser deixa consentir
Onde tudo acontece
Ofegando parir
O medo estremece
O riso sem rir
O sonho desfalece
Onde deixa permitir
Outro querer se tece
Ouvindo pedir
O tacto das mãos
Obra feita de sentidos
Insanos e sãos
Parte de mim
Os mesmos consentidos
Onde não há fim
musa

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

TOADA DO SER

Feita imensa pele de ritos


Na intensa saudade do passado


Adensa a vontade de ainda ser


Transverso avesso do outro lado


Onde sendo possa transparecer


Por já não ser nunca me canso


E se na vida ainda danço


Sinto os pés no chão


O corpo bem fincado


Cabeça e coração


Tudo bem colado


Doce sensação


Ser alado






Terei umas asas a esvoaçar-me o ser


Corpo emaranhado de chuva e ventania


Terei cabelos como cera a endurecer


Cintilante pluma em fantasia


Qual crina em pingos tombada


Pavio da vela a esmorecer


Da luz do ser apagada






O ser que se desprende e vai partir


Em hora que de mim estará ausente


Pois nesse instante eu não quero sentir


Que morta me despeço do presente






Voltarei como outras almas voltaram


Aquelas que palavras me trouxeram


E em poesia me dominaram


Em poemas tudo me deram


No verso tudo me deixaram






Rogo-te pois Ó deus dessa criação


Que dominada de palavras me sinto


Leva-me da vida com a mesma paixão


Com que no verso te clamo e te minto






E toda feita dos mais puros poemas


Sangrada até à desesperação


Inspiração que já me acenas


Leva-me daqui em exultação






Faz-me ser passado e já esquecida


Não quero que vejam este existir


Não quero que saibam a dor desta vida


Do tudo que em tanto já pude sentir





musa