sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CRÓNICA DE UMA RUA DE PARIS


CRÓNICA DE UMA RUA DE PARIS
18 RUE TITON
Estranho sentimento aflora a boca da alma com fome do passado. Tinha 21 anos e era uma menina cheia de sonhos e agora passados 25 anos, lembro a rua de Paris , 18 rue de Titon, onde aportaram todos esses sonhos levados em regaço de menina do campo para a metrópole mais agitada da Europa nos anos 80.
No 11º bairro de Paris entre Nation e a Bastille, muito perto do Faubourg Saint-Antoine que hoje é a fronteira entre o distrito 11 e 12 de Paris é uma das mais antigas zonas da capital francesa, que leva o seu nome da antiga abadia de Saint-Antoine, demolida no final do século XVIII.
Quantas vezes, entrei na igreja de Santo António, abraçada de habitações, quase despercebida na rua, com seu torreão do lado direito, em busca de refúgio e protecção pelo sentimento de solidão e abandono, perdida na grande cidade, tão diferente da aldeia que tinha deixado lá atrás dos montes, onde as camas são perfumadas de urze e rosmaninho, os rios refrescam do estio infernal e as lareiras aquecem almas com frio de tolher os ossos.
E ainda não havia tempo de escrever palavras, com sentido de sentir. As palavras eram escritas como forma de exorcizar medos e aguentar forças para vencer barreiras e aceitar diferenças, ordeiras de sentimentos pouco entendidos, feitas de injustiças e devaneios, caminhavam pelo corpo adentro como raízes das sombras em busca de chão firme na alma tintada de lamas a coberto de vontades feitas de ilusões.
No colo de Santo António, sentia a firmeza do ser guardião de lembranças, pregadora de palavras não aos peixes mas aos sentidos, transtornada pelo destino cativeiro intemporal de recordações, armazenava com o olhar tantos pensamentos em forma de preces, desfiados em poético sentir, no enlace de dias rudes e intensos, profundamente marcantes e perturbadores, lapsos de memórias contidas de espanto, tais eram as diferenças com a realidade de onde vinha, e era só uma menina.
Crescia perto do santo de quem tomei o nome, longe de imaginar que um dia assim seria conhecida, de forma a agradecer protecção e força ao longo de todos estes anos de vida em conhecimento, com uma espiritualidade que muitas vezes é incompreensível aos homens, caminheira e peregrina de aventuras em forma de palavras.
anabarbarasantoantonio

2 comentários:

MARIA DA FONTE disse...

Parabéns pela sua escrita, que, posso dizer-lhe, me conquistou completamente.

Ana Bárbara Santo António disse...

Obrigada Maria da Fonte e Parabéns pela distinção merecedora <3 do teu sentir <3