domingo, 11 de março de 2018

FLORBELA ESPANCA

FLORBELA ESPANCA

Na intimidade da manhã ainda surpresa
Janela da alma que em sentir flor abria
Odor inebriante da dor despertada sentia
Como se a escura madrugada fosse acesa

Aurora de violentos fogos em matizes
Uma frialdade de espanto em explosão
E nos olhos adormecidos tempos infelizes
Acordasse para o mundo a alma do coração

Tão arroxeadas as veias como violetas
As mãos a face e todo corpo tão dorido
Parece vestido por um manto de borboletas

Perfumado e assim ungido e tão floral
Um verso de tantas palavras com sentido
Não sabendo mais se é flor espírito ou carnal
...
musa


https://youtu.be/yd9qSIYGBGc

sábado, 3 de março de 2018

SOMBRIO INTERIOR


Perdeu o gozo da vida
A vontade de viver
Fechou a porta
Para morrer

Retirou as cortinas
Abreviou a despedida
E sem muito bem entender
A súbita desilusão da aorta
Sem nada dizer ou querer
Pois nada mais importa

Do cimo da alma fez saber
Do sombrio interior
Do sonho abandonado
Do pranto e da dor
Do silêncio calado

Confessou que haveria pó
Sobre os ossos e o olhar
Por cima de tudo a ser deixado
Quando velha e só
Já nada dissesse
Mais ninguém a visse chorar
E a casa já esquecida
Numa berma da vida
Alguém a pudesse
Encontrar
...
musa

QUE NOS TIREM TUDO

"Que nos tirem tudo
mas nunca a poesia"

O mar bravio agitado
No excesso das metáforas
Agredido
Da ausência do sossego
Algo aturdido magoado
No paredão ruidoso e bravo
Parece um cão raivoso ferido
A espumar o medo
Despojado de tudo

Vejo-o e quase o sinto
Assim furioso e faminto
Entre soslaio desejo
E o barulhento instinto
A lamber as feridas
Por entre as rochas nuas
De saudades despidas
De ventos e de luas
E as estrelas que a bruma encobre
E o vaivém da água
Pranto que sobre
A palavra só uma
Tudo além da poesia
A húmida mágoa
Pó espuma
Não mais do que nostalgia
O verso nobre

Tudo para te dizer
Meu amor
À água flor
Sim

Ainda há o desejo
Com a poesia o escrever
Tudo mais é o fim
Se te não vejo
Até morrer


Tudo mais que resta
Este mar furibundo
Mar e terra
E tudo mais não presta
Que da areia seresta
O grito profundo
Encerra

Dos teus lábios
O beijo
Um fio de desejo
Pálido sentir

E toda esta agitação
Tanto ruído de vagas
Parecem ondas a ruir
Da tua boca a excitação
Das mãos aonde
Ainda guardas
Solidão

No peito do olhar
Mais terra do que mar
Onde afunde
Desilusão


Gritos e segredos
E este murmurar
Vagido silêncio
Tanto mar

Estendal de angústia
Profundidade de medos
As pedras lavradas
Um sem fim de sobressaltos
Águas revoltadas
Areias a escorrer entre os dedos
E dos precipícios mais altos
A espiritual litania
A bruma melancolia
Murmúrios segredos
As pedras tão molhadas
As lágrimas por esconder
Todo corpo a estremecer
E a noite um trovão
Um verso de poesia
O ritual escrever
Fantasia
Oração

O dia apressado nascer
A madrugada esfria
Gélida e vã
Prece
De sentidos
Se tece

Geme o mar a manhã
De luz translúcida tecida
Lá longe te conheci
Nos teus abraços amanhecida
Meus olhos fechados perdidos
De beijos na sede bebida
Raivas gritos feridos
Gota lágrima pranto
Dilúvio desencanto
Agitado viver
Da vida
Ainda senti
Perder
...
musa

"Que nos tirem tudo
mas nunca a poesia"

sexta-feira, 2 de março de 2018

DO AMOR NAO SABEMOS

DO AMOR NÃO SABEMOS

Tardio
Talvez nunca fosse
Não mais do que a impressão
De um sentimento vazio
A leve sensação
Algo a ser

Do amor não sabemos
Sem tempo de aprender
Nem nunca tivemos
Gosto a saborear
Dúbio querer
Do olhar

Metade do infinito de mim
O coração na boca do paladar
A urgência de sentir
Um sem fim
De argumentos e citações
E metáforas indigestas
Tremulas ilusões
Esquinas e frestas
O oblíquo da luz
A romper
Arestas

A dor que seduz
Vaga paixão
De prazer
Dizem de um amor a ferir
Ou silêncio a bramir
Sem acontecer
No coração
...
musa

ANGULAR

ANGULAR



Um fio solto de sombra

Oculta breve escuro

Recanto endurece

Luz obsidiante

Envolto obscuro

Na escuridão acontece

Tremulo inquietante

O tempo maduro

Apodrece



Na angular travessia

Retorcidos os dias

A luminosidade tece

Horas tardias

De poesia



E ângulos de palavras extintas

Letras folhas linhas versos tintas

Um tratado de sentidos e de melancolia

Metáforas indistintas

A angulada nostalgia

A querer dizer



Contornos poemas

Pensamentos confiados

A angular pedra por escrever

Ou apenas

Dois olhos fechados

Que não sabem ler

...

musa

VIOLETAS DE MARÇO

VIOLETAS DE MARÇO

Tímidas ainda em botão
Escondido lilás por florir
A terra húmida a sorrir
Do ribeiro a ilusão

Dos verdes prados a cercania
Parecem esvoaçar borboletas
No chão desabrocham violetas
Pequenos versos da poesia

Dos vasos rumores da primavera
São as primeiras do tempo
Como se Março tivera
Das chuvas o doce lamento

E o gelo as neves e tão frio
A floração da intimidade
Inverno ou eternidade
Lágrimas gotas do rio

Querem florir as violetas
Algo a dizer escondido
Escrito nas pétalas secretas
Um amor louco sentido
...
musa

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

NÃO DEIXAREI A TRISTEZA

NÃO DEIXAREI A TRISTEZA

Bairros ausentes de janelas fechadas
Lavradio de silêncio em memórias guardadas
Quem sabe testamentos por cumprir
No papel rasgado o desassossego desolador
E no esquecimento do pó humedecido
Um olhar da janela entristecido
A sombra luz a refulgir
Em laivos fugidios de amor
Uma telha desviada 
Uma brecha mutilada 
Um vidro partido
A brisa bruma névoa a fluir
E o lugar da porta ausente
Todos os sonhos evadidos
Nada por possuir
A cama ainda quente
As lágrimas a escorrer
E a única certeza
Não deixarei a tristeza
No vão da vida morrer
Por entre os versos perdidos
Um odor de grito profundo
As tábuas do chão dos sentidos
E dos verbos tanto que fica por escrever
No fundo da alma bem fundo
Resquícios do encerado em vincos mágoa 
Farpas nos dedos feridos
Preces murmúrios gemidos
Olhos vazios ombros descaidos
O maior peso do mundo
A palavra
   
musa