domingo, 25 de setembro de 2016

E EU

E EU

O que sentes
Em que pensas
O que anseias

Se não me amas mentes
O desejo que enfarta o teu olhar
O beijo que te faz pecar

O silencio que enleias
De palavras por pensar
De provocações que ateias
Chamas vivas a brilhar
Em cintilantes ideias
Luminoso pensamento
O eu do entendimento
Que poucos conseguem alcançar
E sabes

Não sei se és o meu amor
Se desse afecto ainda resisto
Tantas vezes duvido que existo
E tocar te insisto

Se te sinto sentes pensas e anseias

E eu

Deambulo em existencial silêncio de poesia
Esteio firmeza entre ameias
Um dia ainda hei-de encontrar me entre as palavras
Na serenidade demasia
Da secreta incerteza das mágoas
No lugar das lágrimas escondidas
Na charneca em flor
No absinto sentido
Tão somente um grito de dor
Do poema desprendido
...
musa

LUZ SILÊNCIO PÓ

LUZ SILÊNCIO PÓ

Do silêncio serrania
o uivo canto
aprende ausência
a imoralidade
a louca intimidade
a sedução
O desencanto
da telúrica fantasia
a ilusão
Pinceladas de outono
nos verbos nostalgia
Em folhas de poesia
Elegia melodia sem lei sem dono
Névoa sobre a montanha
Essa mística estranha
Que há de ressurgir
O olhar estendido
Sob o céu perdido
A terra firme e só
Deslumbrado sentir
O horizonte sentido
A luz silêncio e pó
...
musa

SECRETO SENTIR

SECRETO SENTIR


Cerrei os lábios de gelo
Descerrei da fronte a máscara
Havia sombras no cabelo
Um véu inteiro a cobrir o peito
Transparências de luz acontecidas
Rugas intemporais adormecidas
Um sonho desfeito
De ávido terror


No rosto a noite em flor
O escuro imperfeito
A própria dor
Em carnaval


Luminosidade sensual
Em traços por descobrir
A carnal essência do secreto sentir
Uma intimidade natural
Em maturação


O véu que prende a mão
Há de ser tal e qual
Um beijo pura sedução
…
musa 


SE MORRER EXISTO

SE MORRER EXISTO

“Sur la pierre, j'ai retrouvé mon nom
dans le regard presque meurt
de votre âme inconnu.

(2016) Pedro Marques Pinto”

SE MORRER EXISTO

Deambulações existenciais

Entre os mortos eu existo
E já vivi tanto tanto
Sobre as lajes transcendentais
O sonho donde não desisto
Desilusão desencanto
As pedras silêncio do espanto
A caminhar conquisto
A dividida existência
Entre os vivos deixo a essência
Passo a passo sozinho
Talvez um castelo de solidão
Da tumba fria do destino
A desconhecida razão
Entre palavras estender te ei a mão
Pedra a pedra o meu caminho
...
musa

                        Pedromarquespinto 

sábado, 24 de setembro de 2016

ANGUSTIA AINDA

ANGUSTIA AINDA

Voltam a cair as folhas outonais
A promessa feita do inverno
Em sombrios e frescos madrigais
Um vendaval de silêncio eterno

Humedecem as ondas cabelo ao vento
Sopram o perfume maresia
Há no ar odor desalento
Crinas encrespadas de crepúsculos poesia

O sol a cair na lonjura de um poente
Todos os entardeceres fazem sentir
O morno Inverno húmido e quente
Esse outono loucura que vem tingir
Paisagens amarelecidas sépias vivas
Tonalidades afogueadas de brilho e cor
Tombam no chão folhas soltas de secura
A seiva enfraquecida a latejar
Uma dor perdura quase esquecida
Triste amor
Ternura 

Há tesouros escondidos por descobrir
Ouros antigos nas folhas envelhecidas
Parecem querer voar
Esvoaçam o meu sentir
Outras vidas

Humores do tempo, angustia ainda
Tristeza que não finda
Traz a chuva ao olhar

A última folha caída
Era somente uma réstia de vida
A adejar
...

musa

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

NÃO DISSEMOS AS PALAVRAS MAIS SIMPLES

TRILOGÍA POÉTICA

NÃO DISSEMOS AS PALAVRAS MAIS SIMPLES

Não dissemos as palavras mais simples
a caligrafia das águas sobre a pedra    uma pedra vacila
                                                                          verde

as árvores despertam dormem apertadas na concavidade
                                                                          do rumor
não dissemos ainda as pálpebras longínquas do horizonte
o trémulo deslumbramento da água jorrando lisa da terra
não dissemos a progressão das formigas em torno da árvore
                                   de claras malhas como leopardo

não dissemos as vagas sombras imóveis as folhas verdes
as altas e negras flores nas varandas suspensas
não dissemos sequer o nascimento da terra e do cavalo
as manhãs a meia noite o turbilhão
do ventre o arranque para a primeira explosão no mar e o muro
onde o tempo se condensa como um navio suspenso sobre
                                                              o mar vertical

António Ramos Rosa (17.10.1924 - 23.09.2013), "Não dissemos as palavras mais simples", em "Gravitações"

***
Mas sim... Já tudo dissemos...
Soltamos cavalos onde beijos se perdem em confronto entre um vale côncavo
Um espaço sagrado entre muros de pele e sentir
Do pescoço ao ombro
Dissemos todas as palavras sem nunca repetir
A furtiva saudade que se apodera de nós
E traz a chuva ao olhar na voz
Vales floridos de palavras semeadas de mãos em sentidos
Com a pressa e o pranto das águas sobre as pedras
E as pálpebras montanhas de cumes pungidos 
Vagas estranhas a cobrir mágoas
As ervas daninhas em tempestade
Uma escritura de medos
As palavras mais simples da eternidade
Nas folhas do outono segredos
Dessa cúmplice intimidade
onde o mar parou
musa

***
Não dissemos o que o corpo sentiu e a pressa calou
Foram tantas as palavras caladas que virei poeta
De ti
Para ti escrevi todos os poemas, todas as rimas
Em ti moram todos os meus pensamentos tardios
Sol de Outono
Foi num quarto fechado à luz e ao mundo
Que te tive. Sortudo, como todos os audazes
Nem vento, nem frio, nem tempo, nem distância
Nada te levará para longe de mim
Tu que vives em mim
Para lá da eternidade…
AF


sábado, 17 de setembro de 2016

ABRAÇAR TE IA

ABRAÇAR TE IA… ao Ant

Perdi tudo
E hoje abraçar te ia
Para me sentir viver
E não sofrer
Este tudo perdido
Sem qualquer sentido
Nada entender
Deste confuso sentir
Insistente cansaço
De lágrimas a consentir
Talvez o teu abraço
Somente para agradecer
Saber que existes
E neste reencontro insistes
Em loucura querer
O sussurro a voz
Do íntimo em nós
De sentir e saber
Que viveremos
Talvez um dia
Seremos
Poesia
…
musa 

DE AMAR-TE A VIVER

DE AMAR-TE A VIVER

Queria escrever-te uma carta que guardasses o resto da tua vida
Como uma âncora fundeada em teu ser
Uma carta de um até já e não um adeus de partida
As últimas palavras antes de morrer
O sentir apertar o peito desta insana brevidade
Uma lágrima no olhar a cair sem humedecer
As gotas líquidas de que é feita a saudade
Esta fortaleza a fingir
Os sonhos perenes da realidade
Um abraço de luz a transparecer
E o quanto às vezes é tão difícil existir
Sentirmos e sabermos que fazemos tudo errado
Que não é justo não é correcto
Mas é tão bom e doce termos nos lado a lado
E viver serenidade deste amor secreto
Algo especial de pele e sentidos
Único dos dois silente discreto
Quase animal que nos deixa perdidos
E depois resta ainda o infindável desejo
A loucura do beijo
Os corpos saciados
O profundo cansaço
Docilmente enlaçados
Desse amor feito de um abraço
Para mim o único instante em que me sinto viva
O resto dos dias já não estou aqui
Por isso triste e distante de ti
Escrevo esta carta de despedida
Este lamento que insiste dizer
Sem saber ou sentir que já morri
De amar-te a viver
...
musa

DELEITE

DELEITE

Foi há um ano que invadiste a minha vida
Invocado em beijos imaginados
Em desejos fantasiados
Sabíamos o que ia acontecer
Nossos olhares provocados
Por caminhos de prazer
Dando corpo e sentidos às palavras segredadas
E de mãos dadas
Pele e sentir a endoidecer
No céu da boca uma chuva humedecida
Beijos e abraços com loucura
A meiga e doce tortura
Da mão consentida
Em mel e candura
Do teu olhar por mim
O desejo sem fim
Que ainda perdura
...
beijo te

MOMENTO

MOMENTO

“Por minha culpa, perdeu-se o "Momento" de nos reencontrarmos...
Afastei-me para não agravar o mal que te fiz e por vergonha de não ter estado à tua altura...
Pensei que nunca mais me irias querer "ver", nem virtualmente...
Quanto mais ser inspiração... de mais um belo poema...

Quantas vezes revisitei aquele perdido “Momento”,
E senti a dor que sentiste, secretamente...

Não posso pedir nada...
Fico feliz que continues a escrever-me,
Versos que não te mereço,
Mas que me alimentam,
Na travessia deste deserto...

Beijo-te, sempre... mesmos quando não Sentes...

Ant”

... nada se perdeu porque nada esperei e sempre haverá o momento à espera de acontecer.
Mal algum foi feito sem culpa ou compromisso o tempo empurra-nos a viver o que as palavras fazem sentir... sejam instantes ou sejam versos... Tudo se há-de cumprir...

Atravesso a vida como a luz
Radiante de silêncios e trevas
Iluminados umbrais do tempo
A refulgir miriades espelhos
De transparências cegas
Que a escuridão seduz
Em caminhos tão velhos
A sombra da lua conduz
Moribunda vida

Faz-se à estrada em pensamento
Esta ausência consentida
A inspiraçao do momento
Assim traduzida

Gélido frio ampara os dias
Restam tão poucas horas
Chego de mãos vazias
Na hora certa de todas as demoras
Será que tenho tempo de tudo cumprir
Quando sei e sinto por dentro morrer
Aproxima-se o fim que vai acontecer
Do que já me resta somente sentir
…
musa 

ORAÇÃO

ORAÇÃO


Este absurdo dissídio dor encoberta
Rumor da alma em discordância
Agudo e estridente clamor
Panaceia da carne oferta
Em oração e substância
Ao mais alto esplendor


No altar das oferendas
A esmeril palavra dura
Ergue-se o cálice rubor
Sagrado sentido das lendas
Em inventário da loucura
O inulto dissabor
Epílogo da desventura
Nablo tortura


Ecoam cânticos da harpa celeste
Em madrigais de desespero
O apelo severo
A seiva agreste
Da utopia
Assemia


O pão e o vinho da mudez
Em âmago sagração
A missa fantasia
Altiva nudez
Desilusão
Capricho
Insensatez


A ofegante prece da missa alva
Ao romper do culto em mistério
As vestes a encobrir a palidez
Da pele translúcida e malva
A pedir descanso no cemitério
Que é tempo de ir à última morada
Quando rezar não resta mais nada
…
musa

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

DO TEU OUTONO

Praia da Granja 15/09/2016
… és a minha inspiração...

DO TEU OUTONO

Confesso a cálida temperança
com que traço um silêncio nos teus versos de frio outonal

A vaga esperança
de coisa nenhuma
O tesouro perecível quase material

O risco azul a atravessar uma a uma
as palavras como chuva em agulhas de tricotar afectos

malhas de versos secretos
em ponto de pranto a cores douradas e alaranjados tons

É este o sentimento que se tem
ponto a ponto anódinos sons
em gotas pardacentas de crepúsculos sombrios

A suavizar a dor dos instantes vazios
de viver

Negras nuvens como andorinhas de partida
a rasgar céus de róseos florescidos
À flor da vida
e dos sentidos
até morrer
...
musa