sexta-feira, 2 de março de 2018

DO AMOR NAO SABEMOS

DO AMOR NÃO SABEMOS

Tardio
Talvez nunca fosse
Não mais do que a impressão
De um sentimento vazio
A leve sensação
Algo a ser

Do amor não sabemos
Sem tempo de aprender
Nem nunca tivemos
Gosto a saborear
Dúbio querer
Do olhar

Metade do infinito de mim
O coração na boca do paladar
A urgência de sentir
Um sem fim
De argumentos e citações
E metáforas indigestas
Tremulas ilusões
Esquinas e frestas
O oblíquo da luz
A romper
Arestas

A dor que seduz
Vaga paixão
De prazer
Dizem de um amor a ferir
Ou silêncio a bramir
Sem acontecer
No coração
...
musa

ANGULAR

ANGULAR



Um fio solto de sombra

Oculta breve escuro

Recanto endurece

Luz obsidiante

Envolto obscuro

Na escuridão acontece

Tremulo inquietante

O tempo maduro

Apodrece



Na angular travessia

Retorcidos os dias

A luminosidade tece

Horas tardias

De poesia



E ângulos de palavras extintas

Letras folhas linhas versos tintas

Um tratado de sentidos e de melancolia

Metáforas indistintas

A angulada nostalgia

A querer dizer



Contornos poemas

Pensamentos confiados

A angular pedra por escrever

Ou apenas

Dois olhos fechados

Que não sabem ler

...

musa

VIOLETAS DE MARÇO

VIOLETAS DE MARÇO

Tímidas ainda em botão
Escondido lilás por florir
A terra húmida a sorrir
Do ribeiro a ilusão

Dos verdes prados a cercania
Parecem esvoaçar borboletas
No chão desabrocham violetas
Pequenos versos da poesia

Dos vasos rumores da primavera
São as primeiras do tempo
Como se Março tivera
Das chuvas o doce lamento

E o gelo as neves e tão frio
A floração da intimidade
Inverno ou eternidade
Lágrimas gotas do rio

Querem florir as violetas
Algo a dizer escondido
Escrito nas pétalas secretas
Um amor louco sentido
...
musa

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

NÃO DEIXAREI A TRISTEZA

NÃO DEIXAREI A TRISTEZA

Bairros ausentes de janelas fechadas
Lavradio de silêncio em memórias guardadas
Quem sabe testamentos por cumprir
No papel rasgado o desassossego desolador
E no esquecimento do pó humedecido
Um olhar da janela entristecido
A sombra luz a refulgir
Em laivos fugidios de amor
Uma telha desviada 
Uma brecha mutilada 
Um vidro partido
A brisa bruma névoa a fluir
E o lugar da porta ausente
Todos os sonhos evadidos
Nada por possuir
A cama ainda quente
As lágrimas a escorrer
E a única certeza
Não deixarei a tristeza
No vão da vida morrer
Por entre os versos perdidos
Um odor de grito profundo
As tábuas do chão dos sentidos
E dos verbos tanto que fica por escrever
No fundo da alma bem fundo
Resquícios do encerado em vincos mágoa 
Farpas nos dedos feridos
Preces murmúrios gemidos
Olhos vazios ombros descaidos
O maior peso do mundo
A palavra
   
musa

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

MENINA

MENINA
para a tua primeira netinha

Uma flor oriunda
Luz da madrugada
Envolve profunda
A terra sagrada
Teu sangue erguido
Ao altar em esplendor
O doce sentido
Pétala caída
Doce fervor
Pedaço de vida
O sonho prometido
A lua oferecida
O grito derradeiro
O maior o primeiro
Desejo desmedido
Alegria frágil dor
Sensível harmonia
Dádiva do universo
Ternura melancolia
Graça sem preço
Serenidade
Doçura de poesia
O mais lindo verso
De um poema de amor
Menina sinfonia
Meiga intimidade 
Afago sedutor
Felicidade 
…
musa

PROTECÇÃO AO PARTO

PROTECÇÃO AO PARTO
em memória da bisavó parteira
Maria da Encarnação

Ainda hoje te invoco
In loco
Ainda acendo a vela
A iluminar
Memória extenuante
Saudade distante
Luminosidade do olhar
Os teus olhos de um azul aguado
Aberta a janela
Para o tempo
No passado
As pernas escancaradas
As mãos ferradas
No gradeamento
Do infinito leito
E a bater no peito
Morno húmido leitoso
Um grito poroso
Quase lamento
A deixar transparecer
Da tesoura o corte
O fio de coser
O sentimento
E o medo da morte
E o lívido aço
E no rosto o cansaço
E a avó aliviada
E o parto no regaço
A sina a sorte
Assim ditada
Terna protecção
O doce abraço
Mansa a vida
Prece oração
Sentida
...
musa

domingo, 14 de janeiro de 2018

CALIGRAFIA DO CREDO

Ao meu misterioso poeta ...

CALIGRAFIA DO CREDO

Acreditas nos lagos azuis
Cheios de mistérios por decifrar
O mapa da alma no olhar
A sensível estrada por onde caminhas
E nessa caminhada adivinhas
As asas com que de palavras sonhamos voar

"Só estou de passagem
De mãos vazias
Sem bagagem ou mala
Lonjuras sombrias
Ou safra onde esquecer
No suor a imagem
O grito que cala
O doido sofrer
O desamor
Ou desafio
Deságio
O frio 
A dor
A sensibilidade
O presságio
A intimidade
A alegria ou o terror
Com que ficamos para a eternidade
J."

Tropeço nos rumos
Trilhos da imaginação
Na desorientada saudade
Na ilusão à deriva
Na solidão esquecida
Melancólica sedução
Caligrafia do credo
Nos versos e na verdade
Onde tarde ou cedo
Rasga dilacerante
No mais profundo consentir
Creio na poesia escrita pulsante
A correr viva o poema
Contundente a ferir
Asa serena
Distante
Sentir
...
musa

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

MADRUGADA

MADRUGADA

Acordo às seis da manhã
Acendo a madrugada
No escuro da alma
Às seis a vã
Claridade
Tropeça no sombrio
Silêncio que acalma
O mar como um rio
De sombra intimidade
E o sussurrar da estrela alva
Vai tingindo a manhã de luz
E cedo a escuridão manchada
Do despertar da alvorada
A vigília conduz
Doce erguer
Da matinal vida
A eterna toada
Do curto viver
A espiral missiva
Que a morte tardia
A cada dia
Agradecer
...
musa

VIAGEM DE SILÊNCIO

VIAGEM DE SILÊNCIO

Atravesso florestas de luz e silêncio
Ruídos de folhas a balançar
Asas de pássaros assustados
Rios rebeldes agitados
Sereno trepidar
Guia a luminosa viagem
E ao atravessar a paisagem
Dos caminhos à clareira
No silenciado olhar
Parece bramir a imagem
Da folha a cair
No regato húmido e ruidoso
O morno sol como uma lareira
Espelha o fogo dançante
Do silente sentir
Áspero rugoso
O frio enrijece a madeira
Parece ferir
A luz soluçante
O riacho que chora
A treva delirante
Onde o grito se demora
Quase que gemidos
Rasgam deslumbrados sentidos
Secretos lugares por descobrir
E mais adiante
Recantos perdidos
Sente-se a alma
Em íntimo divagar
Por templos esquecidos
Luminoso existir
Parece persistir
Onde repousar
Sonhos vivos
E ficar
...
musa


https://youtu.be/ou4Bw5QUaH4