segunda-feira, 22 de junho de 2009

GARÇA CONDOR

os dois envoltos
fizeste-me amor
de actos soltos
da tua vontade
tiveste-me lancil
em pedra burilada
de paixão e saudade
fui trajecto em prumo
no seio das tuas mãos
fui teu destino teu rumo
a estrada caminhada
neste fim de Abril
fui areia em grãos
solta dos teus dedos
toda eu a gemer
fêmea no covil
sem pudor sem medos
fizeste-me amor
rasgada de desejo
no seio do tempo
em mil delicias num beijo
tentador sentimento
fui garça e tu condor

MENINA

Claro enigma
Fende a pele nascendo seios
A púbis florescendo tímida agreste
As mãos sulcadas de salientes veios
Ousando segurar delicada veste
Repousando túrgidas promitentes colinas
O corpo se inventa arabescos e formas
Arqueia se espraia em ondas felinas
Sem respeito de normas
Deixa de ser menina
Tira dos sentidos rasuras
Cresce sua crina
Das mudanças leituras
Guarda cicatrizes
Travessuras
Criando raízes
Faz-se mulher
Em dias felizes
De muitas
Loucuras

MULHER

Pedaço de chão arado sem pressas
Corpo lavradio rasgado em sulcos de sentir
Tronco levitando em passos trepando
Formas de sentidos prestes a florir
Sem que me peças
Digo-te quem sou
Mulher que no tempo guardou teus segredos
Agora de palavras toda me dou
Abrindo teus caminhos sem receio sem medos
Deito-me na cama contigo a meu lado
Faço-te o amor de beijos carícias
Procuras-me nas horas de ritmo cansado
Entregas-te dolente às minhas delícias
Sem que me peças
Digo-te quem sou
Arma proibida nas tuas mãos de arqueiro
Atiras rompante sedução em flechas
Indicas caminho para onde vou
Distante destino no todo e por inteiro
Mulher consagrada de ventre fecundo
Corpo inusitado de luxúria e prazer
Cobiça desmedida em quase todo mundo
Flor germinada mãe ainda por nascer

MÂE

Andando nua pela casa
Apenas vestida de palavras
Vagueiam curvas em estado de pureza
Seios firmes ventre cheio doces nádegas
Pele branca lunar de firmeza
Mulher solta seu âmago retiro
Em gozo de fusão e de leveza
Em pranto de paixão e de delírio
Escorre-lhe leite dos seus peitos
Sinal de amor e de certeza
Em breve fantasia de ser mãe
Dá de si seus encantos seus defeitos
Estranha forma de beleza
Dá-se a todos como ninguém
Em carinho delicadeza
Dá-se de muitos jeitos
Igual a nunca alguém

CHÂO AGRESTE

sou de um chão maduro
feita de mil vontades
obra esteio seguro
com raízes de verdades
criei-me de fraguas tempo
rochas cravadas no seio
de terra firmamento
rio rasgando veio
de um chão feito lamento
sou de uma terra montanha
agreste me viu nascer
mãos que a poeira amanha
e o pão faz crescer
tenho no corpo searas
nos cabelos doce trigo
terras que desbravaras
se amor estivesses comigo
e nos olhos tentação
quase em dor sentida
de um azul quase em flor
terra que no coração
é leito de vida
e amor

CORREM RIOS DE MIM

correm rios de mim
lava do vulcão em actividade
onde se afundam lagos do teu ser
pelo toque fazes brotar fonte intensidade
e morro no tacto das tuas mãos por puro prazer
num gesto afectivo de inusitada cumplicidade
terra esventrada em fendas
corre de um rio sem fim
onde te afundas de luxúria apetecida
palco de tantas lendas
por dentro escavas seio dentro de mim
penetras meu cio veio como se fosse vento
abro-te minhas portas de par em par
entranhas de uma vontade enlouquecida
para ter de ti esse único momento
num vaivém de loucura a nunca terminar
despertas fogo dentro do meu ser já aceso
armas fogueira de meus sentidos em brasa
como queres que eu saia de tão gesto ileso
quando por dentro rio me invade e vaza
deleite que atentas de teu mastro erguido e teso
desnuda o ser em voltas de sedução
ousas prender-te pelo olhar de rédea solta
levantas as velas em mar de excitação
prazer que nos traz sempre de volta
nesta dualidade de inquietação
és vibração escolta

PASSADO QUIETO

Deixa o passado quieto
No colo dos seios
Sobrevivente de beijos na tua pele
A tua mão quente a segurar
Teu olhar
Doce mel
Fundição de segredos
Forja dos medos
Deixa quieto o passado
No aconchego das lembranças
Ficar lado a lado
Depois de longas festanças
No apogeu do tempo
Após anos de ternura
Sentimento
Amor de tanta loucura
Sem identidade
Passado quieto
Pura vontade
Desejo desperto
Felicidade
Estonteante
Tu e eu
Um só
Amante

AMOR JAMAIS

na tua sala escuridão
nossas mãos silhuetas
entrelaçam-se mão na mão
como duas borboletas
queimam as asas de amor
na pele suada insatisfeita
despem o olhar sedutor
sobre a cama já desfeita
e o teu corpo sobre o meu
dois seres de qualquer jeito
cada um querendo o céu
e elas sobre o meu peito
aberta a porta do segredo
já sem pudor para amar
entregas todo o teu medo
nesse tão louco vibrar
deitados em linho leito
como dois seres iguais
sem virtude sem defeito
amamos como nunca
jamais

SOU-ME

sou-me palavras
em colo de mar
maré cheia de sentidos
corpo reflicto marear
desprendidos desejos
sou-me a navegar
por onde acontecem vagas
e dentro dos teus olhos
vejo-me pedida
ondas de sentir
um mar rasgado
desejo-me vir
do principio ao fim
vaga lasciva
ser mastro
do teu barco abandonado
ser lastro
que em teus olhos tragas
perto de mim
ancorado

DEUSA NEGRA

em breu noctívago
sou a deusa negra
sobre espelho de águas caladas
funde-se serenidade
em mar quieto
de uma lua presa
em céu adormecido
agitam-se as vagas paradas
eternidade luar desperto
acontecido em mim
sou luz intensidade
a querer penetrar
de qualquer cor
aflorar
luminosidade
dor

A MARGEM DE TI

entras de mansinho
gozas-me de eventos
perdes-te de palavras
resguardas teus intentos
acabas dando caminho
a calados momentos
que te estão no destino
longe de sentimentos
procuras olhar guloso
na lassidão fundeada
num beijo desejoso
pedes impetuosa amada
braços folguedos sentidos
espasmos impacientes
ousas imaginar gemidos
loucos silvos estridentes
gritos seios dormidos
pele com pele a estalar
damo-nos assim pedidos
por um verso a rimar
em poemas consentidos
que aqui te vêm amar

MARUJO

Marinheiros da praia da vida

Onde há marés surpreendentes
Todos os dias
Viagens numa margem sentida
Maresia feita de lágrimas
De todos os adeus
Areias de finos pensamentos
Sonhos gaivotas
Céu e mar de um deus
Ondas de paixão
Vagas de sentimentos
Solidão vivida
Murmúrios de silêncios
Percorridas manhãs
Fins de tarde
Praias acontecidas no vosso olhar
E das vossas mãos
Tricô de laços
Com que vestis velas
Amuradas
Mastros
Ancoradas ousadias
Perpetuar sorrisos
Embarcados em fantasias
Marujos brancas nuvens
A ensoalheirar chão de mar
Remados momentos
E toda de uma imensidão
Construída em vós
Por tanto desse azul fundear
Com alma e coração
Sentir
Navegais brilho
Assim solto de nós
De norte a sul
Da terra ao mar
Deixais ficar de palavras
Rasgo trilho
Para eu seguir
Em doce navegar

CASTIGA-ME

No degelo do teu silêncio
Serei flor da água
Escorrendo no teu corpo
Lento cansado
Em vales de suor frio
Deitarei meu tempo
E nos teus braços
De instante amado
Serei rio…
Castiga-me
Devolve-me à neblina
Dos teus odores
Impregnada de sentidos
Voláteis vapores
Sairei nos teus lábios
Como palavras castigos
Velada no teu olhar
De beijos seduzida
Serei bruma a pingar
Produzida
Em lágrimas profusão
Derramada rio
No teu peito combustão
À chuva ao frio
Não me digas
Não

NAUFRÁGIO

Apetece-me entrar-te adentro
Vaga solta me teu olhar
Ser brisa vento lento
Em teu mar naufragar
Deslizar tua pele
Ser gota doce mel
Teu sereno sorriso
Teu jeito impreciso
Teu gosto intacto
Gozar-te no acto
Linha defeito
Ser-te de qualquer jeito
Em ti paralela
Flor da tua lapela
Teu cinto cintura
Teu sim insegura
Na tua mão apertada
Sentir-me fechada
Aberta voar
Em ti desabrochar
De palavras fendida
De palavras rendida
De palavras despida
De poemas ousar
O tanto da vida
Que há para amar

TEMPESTADE DO SER

De relâmpagos solidão
Trovões raios
Todo mar iluminado
Rasgando escuridão ensandecida
Nas mãos de lacaios
O meu corpo todo fechado
Abre-se em rasgos de vida
A tormenta começa
Sorri de mansinho
Chuva espessa promessa
Corre vale meus seios
O rio invade
Salta caminho
Inteiro metade
Lados meios
Leva enchente destino
Molhada húmida
Fumegante marcada
Provocante
Deito-me sobre o tempo
Sobre a areia aconchegante
Cheiro a terra adormecida
Enxuta de vento
Que o mar enrola em meus abraços
Embala-me em vagas perdida
Desfaz meus sonhos de laços
Deixa-me deveras sentida

REGRESSO VENCIDO

Quando por fim regressei
De todos os meus sentidos
Encontrei porta aberta em ti
Murmurei-me por entre paliçadas
Parágrafos entre nós erguidos
Parcos de pontuação senti
As palavras marcadas
Os desejos vencidos
As estrofes esgotadas
E o teu corpo ganho
O meu a vencer
Em todos os tempos
O verso estranho
Dei a conhecer
Momentos
Vividos
Ao ser a ti
De palavras
Sentidos

SER COMO UM RIO

Queria ser como um rio
sair-te na água da fonte castália
ser-te de palavras com tempo
dada em profecias sagradas
em alma e pensamento
queria ser como um rio
escarnar as encostas das montanhas
nas tuas preces guardadas
ser-te no olhar brumália
beijar-te de vento
em visões provocadas
queria ser como um rio
abrir fendas em teu pensar
ser-te lama em leito frio
em tua mente professar
queria ser como um rio
mas já te escorro em palavras
invado margens arborizadas
penetro a tua floresta
em sombras poetisadas
escrevo-me do que sou
de tudo o que ainda resta
este poema te dou

SENDAS PERDIDAS

Desejo acendido amaldiçoado Numa espera de todos os teus dias Porque fui caminho procurado Em veredas sendas sombrias E perdida por aqui recusada Deixo porta aberta de sentidos Vou embora desiludida sem nada Por esses caminhos percorridos

TEMPO VADIO

Instante querendo romper margens

Vadio cicatrizes por um corpo cansado

Sinais matizes de uma vida passada
Mordo silêncio evocando feridas
De uma tristeza pranto alimentada
Arranco raízes que me têm amordaçado
Num lamento desencontro consentido
Estranhamente louca evoca o futuro
Aquele que de mim estava perdido
E que tanto mas tanto procuro
Deixo-me ser e sou tempo e agora
Em tácteis palavras transpareço
Lentos pensamentos demora
Invado margens sentido
Sem deixar de ser
Nunca esqueço
Prometido