quarta-feira, 19 de março de 2014

TI BEATRIZ - MEMÓRIA DE UM PAI

Ti Beatriz (em memória de um Pai)
A última vez que a vi, saía do cemitério, ela cambaleando amparei-a, sem me reconhecer respondeu-me, sabe menina, já pouco vejo, são os diabetes. Tinha eu trinta anos.
E naquele abraço juntei a infância a tantas memórias esquecidas e a saudade querendo romper com o passado, uma aldeia transmontana onde resgatava assim as lembranças perdidas e o sentir rebuscado no fundo olhar espessado pela traição da saúde, toldado pelo tempo ingrato de tantas privações, ainda que uma pobreza às vezes feliz, prevalecia a tristeza dos dias fartos de mingua e desespero de sonhos.
Mãe de dez filhos, quando me reconheceu, encheu o olhar de lágrimas e disse-me, ai minha filha, eu era tão vossa amiga, há tanto tempo que não te via e agora quase nem te reconheço, falta-me a vista, tolda-se-me a memória, miséria de vida.
Agarrou-me as mãos e era ali que estava toda a minha infância.
Gémea da casinha amarela, vivíamos porta com porta, debaixo do mesmo telhado, o mesmo patim de cantaria onde tantas vezes adormecíamos os mesmo sonhos, vizinha da minha bisavó, com ela passei os melhores dias da minha infância e juventude, engrossando a braçada de filhos que Deus lhe deu, fazia-me sentir mais uma na gorda ninhada que pariu, comungando a vida que a consagrou mulher de esperas demoradas, no cruzamento da vida, um mastro escutando a solidão da noite, em madrugadas frias ou tentando esfriar a alma esgotada de pensar na demora do seu homem, em noites escaldantes de Verão, num desassossego de coração lavrado de mortificações, pela ausência do camionista noite e dia na estrada, levando farinha da moagem para o Porto, Lisboa, Faro, demorando às vezes uma semana no regresso ao lar.
Atrás dessas esperas estendia-se lençol de água em sermões remoídos de consciência. Muitas vezes as mãos tremiam a água gelada e cinzenta, do tanque comunitário, a agua suja da roupa encardida de terra, roupa suada da dura labuta dos campos agrícolas, lavoura resignada, às vezes suja das conversas das mulheres do soalheiro que despiam tudo e todos, deixando a nú as agruras da vida. Em conversas como pele de cabra curtida pelo sol, esticada pela secura do vento, como a roupa a corar sobre a relva ou sobre as giestas, entre horas de trabalhos e canseiras, enquanto o milho secava na eira ou espalhado na manta esperando ser debulhado, ou os feijões por malhar, depois de secos, desoras de silêncios como gritos esventrando privacidades e sinas alheias, escorrendo pelo crivo do isolamento, numa inesgotável teia de problemas de saúde e fome, e fracas condições de sobrevivência. Mas todos sobreviveram. Exceptuo um.
Sei que era pequena, muito pequena. Mas ainda hoje recordo a cena que mais lembra os miseráveis de Vitor Hugo.
A vida não me proibiu de assistir a uma cena chocante que é ver um enforcado, dependurado pelo pescoço, o corpo completamente distendido, suspenso de uma trave, a cabeça tombada para o lado e os olhos, duas esferas salientes, o retrato puro do medo e da agonia pela coragem ou insanidade de quebrar, sabe lá porque razão, com a fragilidade humana da existência vida.
Não há culpados nem inocentes, há todo um passado e todo um património afetivo, que de hoje em diante vinga as memorias pelo futuro caminhante deixando testemunho de vivencias menos felizes, levantando do chão feridas sem qualquer réstia de preconceito ou vergonha, apenas a configuração de um puzzle que é e será sempre esteio de todo meu sentir.
Os olhos vítreos do morto, olhavam para nada, como que esgotados de se abrirem até ao máximo, apenas pendentes, espremidos, sem cor, enegrecidos, no meio daquele rosto velho, uma barba grande e grisalha, numa pele enrugada e suja, o cabelo cinza terra, as roupas gastas e sujas, frias em todas as estações, um velho solitário, errante, talvez triste.
Todas as noites um dos netos percorria não mais de cinquenta metros que separavam a casa amarela do barraco que ficava por debaixo da grande amoreira, na cerca onde vivamos.
O avô, ausente durante o dia, esperava todas as noites a sua tigela de sopa para aquecer o estomago vazio. No barraco onde dormia, porque em casa já eram muitos, em quatro divisões viviam doze pessoas, entrava o vento, a chuva, o frio, e no Verão o calor era insuportável, e a lareira insuficiente para no Inverno aquecer a fome e o frio.
Enforcou-se sozinho, mesmo antes da sua neta e eu, abrirmos a porta desengonçada do casebre, e como de costume, pousarmos a tigela da sopa sobre o caixote, ao lado da candeia, sem lhe ouvirmos uma palavra, sem lhe perguntarmos se estava bem, sem lhe perguntarmos se precisava de alguma coisa ou se queria ir lá a casa aquecer-se um pouco à lareira.
O lar da Ti Beatriz aconchegava uma pobreza às vezes remediada conforme a paga do salario do pai dos seus dez filhos e a generosidade das terras, mas insuficiente para acudir ao pai dela que sobrevivia no limiar da existência humana.
Não veio a guarda republicana nem o delegado de saúde para tomar conta do enforcamento, aquilo era miséria a mais para ser questionada por pessoas alheias a esses vícios da vida, e o sucedido seria rapidamente esquecido, de forma a respeitar a vontade própria do enforcado que assim amenizou o resto dos seus dias, e porque apenas fazia sentido deixar aquela família em paz, sentir a sua perda, já não como uma dor mas sim como um alivio, menos uma boca para alimentar, com todo respeito pela pobreza, que ninguém era pobre porque queria, sem culpas nem ressentimentos, apenas uma vitória da morte sobre a vida.
A noite rosa da solidão desfolhava sobre as almas o luto lento do desconforto da pobreza envolta de lagrimas e inconsolável tristeza.
À memória desse Pai, com toda a gratidão pela existência dessa grande Mulher a Ti Beatriz, que na cegueira da sua velhice reencontrou em mim uma pequena brecha de uma claridade feliz, que foi palco de tempos difíceis, horas sangradas de desilusão e pranto, mas que aos meus olhos serão sempre gentes honradas e virtuosas, num berço que entre socalcos, fraguas, giestais, pequenos bosques abrigando clareiras e rios transbordando as minhas mais ternas recordações ainda que semeadas de medos e lágrimas.
Torre de D. Chama em um tempo que será sempre meu.
(na foto com três dos dez filhos da Ti Beatriz, a Fátima, Paula, e Glória Tomé)
musa

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