Cartão de Visita do Facebook

terça-feira, 16 de maio de 2017

ABANDONO

ABANDONO

Não quero asas
Nem pés alados
No voo nocturno
Do teu olhar

Ou a pele flutuante
Dos poros planados
Do voo rasante
Da tua mão

Ou o vibrar
Dos teus lábios
Na escuridão
A murmurar grito que silencio
No estremecer dos astrolábios
A fugir da direcção das palavras
Em desvario

Não quero a trepidação
Do teu cansaço
O bater de asas de um abraço
A bramir
Os teus olhos desfeitos de aço
De infinita dureza
Ínfima beleza
Por sentir

Não quero de vidro ou de papel
O avião soprado ao ouvido
A melodia ou o gemido
O gozo adiado
O doce ou o fel
O sentido
Da viagem da tua boca de amor
O paladar ou o odor
O engenho amarrotado
Na raiva das mãos enfurecidas
O nome confiado
Às memórias esquecidas
E endurecidas
Pela dor
Até morrer

Abandonado
O teu beijo
Ganha asas
De silêncio
Por dizer
...
musa

segunda-feira, 15 de maio de 2017

DO TANTO DE TI

DO TANTO DE TI

Aprendi dos teus lábios sensuais
Preces a um deus desconhecido
Aprendi da tua boca o sentido
A desorientar o caminho
Da bússola e dos pontos cardeais
Do mapa da tua pele sensível
Do teu olhar irresistível
Dos fluidos corporais
Ao desatino

Aprendi o sensível cristalino
Dos olhos cheios de loucura
A leitura do livro feminino
Em conversas de ternura
As páginas sentidas
Do tanto de ti
Infinito

Aprendi contigo o grito
Das palavras de silêncio beijadas
Entrelinhas de murmúrios a sorrir
De beijos por sentir
E aprender

Poro a poro em travessia de prazer
A mapeação do querer existir
No corpo do tanto do ser
E consentir

Profundidade e sentimento
Infinito e invisível mundo
Mudez do pensamento
Calado profundo
musa 

QUE NOME DAR AO POEMA

QUE NOME DAR AO POEMA

Oblíquos os poemas
Atravessam giestais
Sedentos braços de vento
Brisas guturais
Com suas flores serenas
Do branco ao amarelo
Irrompem do amanhecer
Iludem o tempo
Tão belo

Emudecem a voz que ecoa
Dos planaltos assim vestidos
Sussuram de asas sentidos
E a palavra voa

Ensinei-lhes o meu grito inesperado
Entrelaçado de giestas em flor
O odor do corpo cansado
Na intimidade dos montes
Entoei loas de amor
Da montanha altar
Das fontes
Nascentes
O olhar

A esconder o entardecer
Em velas de fogo e luz
E sombras a cintilar
Onde a brisa conduz
Barcos à deriva
A naufragar
Sem o saber

E da serrania
A deslumbrada visão
Trémula e frágil a vida
Paisagem de poesia
Silêncio e solidão
A maresia
Oferecida

musa

DE CERA

DE CERA

Lágrimas de fogo moldando em doçura
Que a pele dos versos poros sentimento
A respirar das chamas mágoas da ternura
Que a cera do sentir molda o pensamento

E transparece rosto frio lívido de serenidade
Enquanto desassossego secreto incontido
Lembra sulcos de vida a gozar-lhe intimidade
No silêncio de cera que esconde esquecido

Talvez os sonhos que deixou por aí em euforia
E o círio que ardeu em palavras por escrever
Foram somente versos a queimar de poesia

De cera o traço final da meiga eternidade
E a luz do olhar magnânimo ainda a arder
Em poético grito de cinzas pranto saudade
musa

sábado, 13 de maio de 2017

DA EUFORIA AO SILÊNCIO

DA EUFORIA AO SILÊNCIO

ao Papa Francisco

Do templo o grito estremece
Caminha no silêncio da luz
Carrega o manto branco e a prece
Embala de harmonia e seduz

De amor ao próximo oferece o regaço
De uma vida inteira por cumprir
Tantas caminhadas a testemunhar existir
A força que lhe alivia o peso e o cansaço

O olhar terno da Mãe do Rosário que desafia
Onde começar espiritual viagem de fé e oração
O colo seguro em que a vida confia

Da euforia ao silêncio num gesto de intimidade
Profunda e mística que alivia a solidão
E faz acreditar humildemente na humanidade
musa

PROVAÇÃO

PROVAÇÃO

Na carne a súplica a bênção
E que faço com a fé
A prece a consolação
Dura atribulação
Na intimidade do coração
Invisibilidade de um Deus escondido
A espiritualidade do sentir
Remar contra a maré
No olhar ofendido
A humanidade do sentir
Infindável desassossego
A consagração
Ao silêncio
Ao medo
Ao cansaço
De tão pequeno o meu ser
Frágil sopro de vidro e de aço
A emoção a transparecer
Venerável mistério da Mão estendida
Quase se pode tocar
Oração de todos os sentidos
De joelhos flectidos
A interrogação no olhar
Onde vais oh! vida...
...
musa


segunda-feira, 8 de maio de 2017

DA MORTE QUE DEMORA

DA MORTE QUE DEMORA

Olho para o  retrato com marcas de viver
O rosto eterno de traços e vincos de saudade
A pátina morena a perdurar a eternidade
Que a memória teima em não esquecer

Já só me resta a fotografia para lembrar
O amor que lhe tenho e os beijos que dele tive
E esta dor persistente que luta por dentro e que me vive
E faz uma lágrima húmida e quente no rosto rolar

O vazio do olhar e a tremura com que seguro na mão
Todo o peso do sentimento desse amor de outrora
E no pensamento vagueia tempo e solidão

Amor que nunca foi meu mas que eu sempre amei
E eu sei que a morte que não demora
Me levará ao lugar lá onde eu o deixei
...
musa

AMOR ENLUTADO

AMOR ENLUTADO

Como se sobrevive a um amor que morreu
E pulsa ainda latejante qual estrela a cintilar
Na escuridão que arde teimosamente no céu
O fogo húmido das lágrimas no triste olhar

Amor enlutado qual chuva de estrelas luzindo
Milhões de farpas a rasgar de luz o firmamento
Cravadas como punhais de sal no peito abrindo
O luto mais profundo da paixão do sentimento

A doer e moi como a pedra na mó do moinho
Macera a lembrança de incerteza e loucura
A sentimental memória a seguir o seu caminho

A doer e fere e sangra acesa chama ainda a arder
O pranto manso da massacrante e dócil tortura
Que a vida é um luto lento até o amor morrer
musa 

DO TEMPO DAS CEREJAS


DO TEMPO DAS CEREJAS

A pele amadurecida
Sensualidade
Rubra macia adocicada
Sumarenta apetecida
Gozo de intimidade
Beijar-lhe a boca
Desejar-lhe o sabor
Senti-la louca
Trincar-lhe a fogosidade
Rasto de cetim
Onde já foi flor
Humedecida
O lábio carmim
Sem pudor
Pétala tecida
De docura
Intima loucura
Oferecida

Do tempo das cerejas maduras
Dois seios de um vermelho floral
Frutos de meigo calor
O delírio carnal
As palavras impuras
Purificadas
Pelo amor
Sensual
...
musa

DO TEU OLHAR

DO TEU OLHAR

Como mil feras loucas arranhando-me a pele
De se sentirem prisioneiras sem terem a culpa
Mil feras enfurecidas a espumarem raiva e fel
Sem perdão ou arrependimento ou a desculpa

Da ingratidão talvez que assim seja o amor
A paixão ao sentir-se encurralada ou presa
E um brilho de metal afiado a cintilar a dor
Tão cortante tão cruel e tão chama acesa

De tanto sofrimento a vida insípido o sonho a ser
Do teu olhar ríspido ausente silêncio imperfeito
Faz todo o meu corpo e alma de luto entristecer

Sem mais razão de viver do que a luz da eternidade
A cintilar nos olhos o amor que ainda bate no peito
Mil feras de loucura a baterem-se de saudade
musa

sexta-feira, 5 de maio de 2017

AOS POETAS

AOS POETAS

Venho anunciar que morreu
A minha meiga inspiração
Rogo a todos a prece
Dos versos que a lua teceu
Seda que a aconchega no caixão
Onde o poema acontece
A luz que entardeceu
Mortalha de solidão
Trazendo o negro aos sentidos
E do luto de que me visto
Da alvura que se perdeu
Declamo os versos esquecidos
Do azul despido do céu
Soluços e gemidos
Em doce sulpicar

Ao poetas venho ofertar
O que resta da tinta azul do tinteiro
Folha branca imaculada
A humedecer o olhar
Aresta afiada do papel vazio
Pena das palavras que nunca escrevi
Aves soltas em reboada
O fosso profundo e sombrio
A arder-lhe a alma de aço
Dor que tanto senti
O pranto a fazer-se rio
E todo este cansaço
Embalo do que sofri
Na tristeza inspirada
A poesia enviuvada
Terna nostalgia

Deixo aos poetas súplica do tempo
Escondida no silêncio a poesia
A matriz inspiradora
A negra melancolia
Reveladora
Sentimento
musa 

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SONETOS DE UMA TARDE

Sonetos de uma tarde



OBSCURIDADE

Talvez a luz iluminando escuridão
Metade sombra a outra metade a vida
Talvez as trevas do mar da solidão
Esta sensível existência sofrida

Que a meiga obscuridade silencia
Rasto grito da falange humanidade
Onde o destino cumpre a ritualidade
Quando a desilusão breve se anuncia

Ou talvez se apague a claridade e o desalento
Com as sombras a espreitar o outro lado
Onde naufrago o olhar se perde no tempo

Queria eu romper a alva luz que atordoa
Na metade que divide o sombreado
Quando cega a vida e de amor lhe doa
...
musa


SILÊNCIO E DOR

Porque teima o teu silêncio em agonia
A medir forças com o meu sentir
Como se ausente pudesse existir
Da frialdade e obscura poesia

A sombra da memória a gritar de amor
Porque ainda é mais forte a melancolia
Que lhe dá raízes de tristeza e pura dor
E a faz mais doce e dócil a cada dia

Assim sendo de silêncio ausência e ingratidão
Talvez ela se apague de tanta saudade
E morra nos braços da meiga solidão

Em silente cansaço o desabrochar da flor
Pétala a pétala desnuda a intimidade
Silenciando a vida em todo o esplendor
...
musa

MAR E PEDRA

Cantantes as húmidas veias de pedra
Sangue de sal e sol a palpitar
Cortantes as areias no chão a escaldar
Pulsa vibrante o coração da terra

Um corpo azul imenso e profundo
Estende brancura espuma frialdade
Bate-lhe incerto desassossego do mundo
Vagas de luas a conspirar a eternidade

Ondas de cânticos a suspirar a maresia
Salgada a água das pedras a escorrer
Da mão os versos em sentida poesia

Mar e pedra em unificada simbiose
De tempo no areal por escrever
A química das palavras em azul osmose
...
musa   



AO ESCULTOR


AO ESCULTOR

Procura no barro a boca emudecida
No bisturi os beijos cortantes
Os pecados dos amantes
Os cortes delirantes
Da amálgama da paixão tecida
A pele da imaginação moldada
A sôfrega boca estilizada
No barro aprendida
A criação da vida
Imaginada

Procura no barro os segredos
O fel da terra escondido
O mel da água do sentido
Procura decifrar entre os dedos
Das lágrimas com que moldas a tortura
Sem saber formas com que a esculpida ternura
Abraça o barro ferido
E solta o grito da boca desenhada
O canto ressequido
No buril prisioneiro
Nos lábios a palavra encarcerada
Que o escultor carcereiro
Desfolha do barro como um livro aberto
Liberta um mistério secreto
Transforma o lodo mais carnal
De gestos iluminando
A misteriosa criatura
Como um deus talhando
De barro a loucura
Sentimental
...
musa