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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

NOITE DE ESTRELAS CADENTES

NOITE DE ESTRELAS CADENTES

Esta noite vou deitar me no chão
Como nos teus braços adormecida
Olhar o infinito escuro na emoção
E ver as estrelas a cair emudecida

Rasgarem a cintilar como um ventre
Quando se rasga para algo nascer
Como sentir nas mãos algo quente
A luz frágil da vida a estremecer

Num grito num rasgo luminoso o universo
Toda a imensidão da noite estrelada
A inspirar as palavras do sensível verso
O negro céu em cortina de seda prelada

As estrelas caídas como anjos num abraço
Dar-te a noite mais cintilante que o teu olhar possa ver
Como é belo magnífico e misterioso o espaço

Com as estrelas a cair em majestosa procissão
Sentir do chão a surpreendente natureza de viver
E agradecer ao firmamento toda a beleza da escuridão
...
musa

POSIALOLOGIA

POSIALOLOGIA

Enlouquecer deste profundo e frágil cansaço
Que em vigília rouba da noite o descanso
Este torpor repetitivo de sentir leve e manso
As palavras escritas a deixar dormente o braço

A cabeça louca numa dor intensa sem cessar
Os versos se atropelando para sair a correr do punho da mão
Fadiga extrema esta urgência líquida do olhar
Que as lágrimas escorrendo fazem arder a escuridão

Talvez leve à loucura esta insana patologia
Estar dentro da poesia e de poemas padecer
Diga-me doutor morre-se de posialologia?

A si que a esculpir palavras ou a pele dos sentidos
Faz sentido algum passar a noite sem adormecer?
Já que são tantos os dias assim perdidos
...
musa

NEGRO LUTO

NEGRO LUTO

Vestem as árvores vestes labaredas
Vestidos chamas fogosos rendados
Tecem alaranjadas fogueiras acesas
Seda como lava a devorar bordados

Saias frondosas a rodopiar o vivo lume
Corpetes de seios troncos volumosos
Xailes a cobrir o medo raiva dor ciúme
Suando-lhes a pele e os olhos chorosos

No tecido de verdes ramagens a escorrer
Incendiando de línguas de fogo a folhagem
Toda a floresta se despe em negro luto a arder

Nuas as árvores morrem como tições despidas
Trazendo inóspita dor à moribunda paisagem
Ao olhar como se possível fosse tais lições de vidas
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musa

MAL DE POESIA

MAL DE POESIA

Não é o amor que me traz tristeza
Pranto dor angústia ou melancolia
É da vida esta ingrata insatisfação
Que alimenta a alma de triste poesia
A viver estranhamente de incerteza
No silêncio das palavras em solidão

Como se um doce prazer pelo punho da mão
As palavras incertas ao correr da pena
A falar por mim o que diz o coração
Numa linguagem sensível e serena
O sibilar de tantos anos de sentidos
Do tanto que se escreve num único poema
Os olhos desnudos e despidos
De tamanha nostalgia

Do que o olhar enfrenta no infinito do dia a dia
Talvez o maior sentir da inspiração
Seja mesmo essa tal melancolia
Ou a saudade do que se não viveu
A intimidade do que se fingia
A negar a sorrir a solidão
De um amor que nunca aconteceu
A mais secreta paixão
Que a vida proibia
A mais discreta ilusão
De uma certa fantasia
Inusitada e poética
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musa

ONDE MORA O ANJO DA GUARDA

ONDE MORA O ANJO DA GUARDA

As casas verdes com ramagens
A cair floridas dos murais
Por dentro memórias de viagens
Por fora jardins esculturais

Na bainha neural do bucólico litoral
Nos braços estendidos ouvem-se pardais
Fazem ninho nos frondosos carvalhos
Chilreiam ruidosamente nos seus galhos
Ou nas janelas se atrevem no peitoral
A espreitar o sossego da moradia
A sombra luz tão íntima tão carnal
A desenhar no soalho rendada melancolia

Ali tão perto o mar atreve sibilar murmurando
Das profundezas o silêncio e a agonia
A voz que no escuro vai rezando
Ao anjo da guarda de noite e de dia
...
musa

UM DEUS COMO UM GRÃO DE AREIA

UM DEUS COMO UM GRÃO DE AREIA

Olho as dunas mansas à rédea da ventania
Numa encruzilhada de finas tábuas gradeando
A névoa luz coada num entardecer de poesia
No areal há danças de espumas flutuando

No vaivém da maré trazendo a água salgada
Um Deus criador vai multiplicando a areia
Grãos estendidos no areal em água enrolada
De algas conchas vazias e o tempo gélida teia

São frias as águas de sal do mar do norte
Na mão de um Deus como um grão de areia branca
A mortalha vaga aconchegante na hora da morte

A doce calmaria depois da terna tempestade
Que a vida esse inferno seja no final tão Santa
A prece espiritual para além de toda eternidade
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musa

PEDRAS DO MAR

PEDRAS DO MAR

Gosto destas pedras infinitas
Que olham por esse mar imenso
Adentro esse espelho de água graníticas
Verde espesso escorregadio intenso
Tão majestosas imponentes magníficas
Guardiãs do areal invadido de vagas
Gigantes soldados guerreiras guardas
Pouso de gaivotas em passagem
Testemunho de vidas em viagem
Por esse mar azul voa o pensamento
A lírica e azulina líquida paisagem
Levantando cristas de maresia pelo vento
Este mar nortenho de rochas imaculado
Onde tanto tenho o mais azul sentimento
Águas sal da cor fria do meu olhar
Sem qualquer pranto ou lamento
Amo de paixão este meu mar
...
musa

ALDEIAS SUSPENSAS

ALDEIAS SUSPENSAS 

No olhar errãncias barrotes de uma identidade
Marcas antepassadas de gerações em evolução
Lugares de coisas feitas no verbo da eternidade
A desenterrar no futuro num qualquer chão 

Rastos de vida por onde andou gente a começar
Das mais belas feitorias de comunidade e civilização
Às vezes aí parece ter parado o tempo e o olhar
A abarrotar de melancolias e saudades e solidão

Suspensas vidas e coisas e as pedras a contar do passado
Livro aberto a memórias e raízes de gestas de viver
Lembranças num fio preso ainda ao tear abandonado

A alma sustenida o corpo adornado de objectos e tecidos
A casa o leito os suspiros os silêncios até morrer
As aldeias guardam para sempre os nossos sentidos
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musa

LONJURA AZUL

LONGURA AZUL

lá longe
as luzes amorfas
vigiam a escuridão
num ocre alimonado
a estrada curva a aragem 
negras pedras da maresia
jaz a escura sombra do silêncio
riscada de faróis inquietos de fuga
trepida o comboio na linha junto ao mar
a noite enfurecida vai numa viagem sem fim
espera amanhecer o tempo curvado de neblina
são assim os dias entre o campo e o areal
onde a praia rumina as rochas salgadas
com o vaivém das ondas fugidias
a cada vaga a aragem morre
onde o tempo lacrimeja
uma cor enevoada
o escuro da luz
nuas trevas
distantes
...
musa

DESSA SAUDADE AINDA

DESSA SAUDADE AINDA

Agosto é uma casa quieta
A digerir dramas e tristezas
Notícias de fogo posto ou uma esperança inquieta
Mortes e saudades a assombrar incertezas
Vidas que terminam abruptamente
Humedecem o olhar da gente
Questionando o existir
E por que se morre de repente
E fica esta saudade de sentir
Ainda o Verão vai a meio
Estremece o medo no seio
Em sobressaltado coração
O destino cruel desumano e feio
Faz correr lágrimas de desolação
Esta triste humanidade
A viver em solidão
Ainda saudade
...
musa

A QUEDA DE UMA PRECE

A QUEDA DE UMA PRECE

Frondosa espraiando verde folhagem
Centenária idade na força das raízes
Sombra majestosa a luz da paisagem
Folha a folha de recortadas matizes

Em declive num equilíbrio suspensa
Na rejeição do solo triste a fragilidade
Já lhe perderam por certo a sua idade
Imponente misteriosa secular imensa

A vida que a curva perante o homem incauto
Curvado pela prece diante do divino altar
E Deus que tudo olha em silêncio lá do alto

Assassina mortífera sem piedade ou razão
Se a tem como natureza sofredora parece calar
Que as árvores morrem de pé e em solidão
...
musa

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

QUEM LIBERTOU A IRA DAS CHAMAS

QUEM LIBERTOU A IRA DAS CHAMAS

Que fazem os deuses irados
De chama na mão
Possessos tresloucados
De fogo aceso na escuridão
Que tudo arde em pira infernal
Esses deuses ferreiros do aço
Malham na natureza o vil metal
Deixam o homem em exaustão e cansaço
Com olhos a espelhar arder
Com corpos de espanto e loucura
Com mãos negras a estremecer
Vulcanos em acesas fogueiras
Chão  de brasas em tortura
Faúlhas labaredas inteiras
A rodopiar em combustão
A deixar tudo negro em tição
A maior desolação

Andam irados os deuses do fogo pela terra
Tudo arde tudo se consome tudo se ateia
Montes e vales campos e cidades tudo se incendeia
Estradas casas ou os pinhais da serra
As chamas gigantes demônios a correr sem paração
Queima de tristeza a humanidade imprudente
De angústia e solidão
Talvez inocente
...
musa

NA BEIRA DO MAR

NA BEIRA DO MAR

No Verão há flores frias gélidas e pálidas
Há ventos cortantes a serrar com areia
Dunas a desfazerem-se magras esquálidas
Uma vaga ruidosa a enredar como uma teia

De mar a inundar o areal de coisas mortas em pedaços
Conchas vazias e partidas já sem vida
Pedrinhas roladas por sal de muitos cansaços
Qualquer coisa abandonada ou talvez esquecida

Caminho sobre os detritos da praia deserta estranha
Como dois cavalos montados de sonhos e vento
Nesta imensidão de azul à beira-mar tamanha

A solidão que arrasto no trote das vagas imaginadas
De palavras escritas na areia do pensamento
Deixando pelo chão tristemente pequenos nadas
...
musa

PARA UMA VAGA DISTANTE

PARA UMA VAGA DISTANTE

Sabes que te escrevo
Aqui perto destas pedras frias e salgadas
Sabes que te conto tudo o que devo
A este mar de infinito azul
A toda esta imensidão de olhar
As palavras escritas deixo-as em vagas
Vaivém de versos e indecifráveis marés
Talvez o poema onde se foi afundar
O amor inteiro e profundo que me guardas
A misteriosa onda sem saber quem tu és
De onde vens tão imenso como esta profundidade
A invadir de lágrimas tanta intimidade
Secreto e vadio amante
Infiel talvez
Tão distante
...
musa


UMA PRECE ESPIRITUAL



UMA PRECE ESPIRITUAL

Não sei traduzir mais o silêncio
Nem sei se ausência se traduz
Sei esperar e aceitar o teu tempo
Sei onde te levar oração e luz

Peço ao universo saúde e harmonia
Para esta inquietante preocupação
Lamento do fundo do coração
Esta tristeza em poesia
Transcendental

Uma prece espiritual
Ao teu encontro o reconforto
Do abraço que não te posso dar
A fronteira ou o bom porto
Onde possas chegar
Em serenidade
...
musa




PROMESSA

PROMESSA

Hei-de esquecer-te mesmo que os ventos teimem sussurrar
Os murmúrios mais tristes de chorosos lamentos
Esquecer o quanto pude amar e sofrer e chorar
Tenebrosas tempestades a enlouquecer pensamentos

Dilúvios de pranto não mais do que lágrimas escorrendo
Um aperto de peito com toda a frialdade da ventania
A mais amarga e sofrida e desumana melancolia
Que todo corpo e alma carrega de promessa morrendo

Pois hei-de morrer por ti no silêncio dos versos humedecidos
Prometendo amar-te como quem ama a sofrer
E tem na vida tantos desgostos prometidos

Como quem confessa do amor que em palavras prometia
A loucura dos sentidos por tanto e tão pouco querer
Que a escrever de promessas não se faz a poesia
...
musa


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

AMAR ATÉ MORRER

AMAR ATÉ MORRER

S. Félix essa linha imaginária
Cativeiro de sossego
Às vezes o nó cego
Do silêncio com alma sanguinária

A pálida quietude fervilhante
Da paisagem extraordinária
A pedra mutante
Do medo ainda por descobrir
Ou talvez o sentir
Do imaginário distante
Do quase ir
Por aí onde o mar se faz caminheiro
E este amor compacto todo inteiro
Rochas humedecidas de algas e vida
Pedras sentidas de qualquer coisa viva
Mar azul o meu tinteiro
A deixar-me escrever

Sou toda eu sentimento e maresia
Este amor maior de silêncio e prazer
Este infinito azul pensamento e poesia
Que hei-de amar até morrer
...
musa

DA GRANJA A SOLIDÃO

DA GRANJA A SOLIDÃO

Todo o areal conquistado
Tem a jóia o pranto da escadaria
O sal das lágrimas derramado
Nos versos loucos da poesia

E o poeta solitário frente ao mar
A bucólica paisagem rasgada
Por um comboio a passar
Entre a praia e a estrada
Bebe do sossego a solidão
A luz esmaecida a tingir
A tarde a querer a escuridão
Os versos o pranto do sentir
Pelo punho cansado da mão

Vem de longe a poetisa brisa
Distante a cobrir a imensidão
A neblina dançante desliza
E a Granja se parece noiva no altar
Ao subir a escadaria tão molhada
Das ondas que a estreitam de abraços
Da melancolia dos cansaços
Dessa agonia em lágrimas devassada
Pelas vagas de sal e espuma choram
A terra assim atravessada
O comboio que as marés demoram
...
musa