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terça-feira, 2 de agosto de 2016

A UNS OLHOS AZUIS


Para a bisavó dos olhos azuis


A minha casa cheira a oregãos maduros, manjericão com saudades, alecrim de lágrimas e a cozedura da massa de pão fresco com a litania das rezas do passado, um aroma de rosmaninho a perfumar o azeite e a treva incendiada nas paredes com crepúsculos anoitecidos à lareira.
Cheira a madresilva trepando à janela e a grãos de trigo escondendo maças, cheira a café de barro e uvas penduradas na forca dos camarões, atordoando de mel de Baco as gulosas abelhas atraídas aos beirais interiores do tecto travejado, cheira a segredos nos bolsos do avental e guiços e praganas, espetados nas meias de lã em debulhados martírios na moínha da alma.
O restolho dos cheiros espargidos na pele dos cânticos ceifados entre vales e prados cheios de sossego e paz abençoando o corpo de canseiras e suavizando o regaço de ternura num afago de abraços do tamanho do mundo.
Antecipo despedidas a bailar nas labaredas das memórias e sangro as feridas de eternos invernos em cada sonho amassado como se as mãos fossem pedaços de um puzzle nunca inventado e o encaixe das peças a busca do labirinto dos sonhos em fuga, a procura dos cheiros atravessando a vida.
Uma casa que se perdeu de portas fechadas e janelas abandonadas ao silêncio sepulcral da morte.
A vida roubada de aromas e de colo.
De lágrimas onde havia tanto amor.
De segredos repartidos e de sossegos que nunca mais foram consertados.
O Verão perdeu a latitude dos afectos e a umbilicalidade dos sentidos temperados no fogão das histórias familiares e nunca mais o paladar soube os delírios dos dias enternecidos em mãos capazes de erguer altares de cinzas e transformar manjares em contos de encantar.
É sempre assim quando a avó dos olhos de céu me vem visitar. Há uma luz que faz cintilar as palavras na escuridão das saudades.
...
musa

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