Cartão de Visita do Facebook

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O DIA DA MEMÓRIA

DIA DA MEMORIA

Não esquecerei os vossos rostos
O vazio do olhar que nunca vi
Os vossos trajes trapos rotos
Nunca esquecerei o que senti
Quando o dia da memória
Se fez eterno na história
Que um dia aprendi

Trago por dentro o arame farpado
O odor das sombras esquecidas
As cinzas do lago manchado
De memórias de vidas

Se me deixarem ainda chorar
O silêncio colectivo das câmaras cinzentas
Talvez por dentro eu possa perdoar
As lágrimas esbotadas pardacentas
Das riscas que o tempo há-de apagar
Nas fotografias bafientas
Que guardam o cheiro imperfeito
No âmago dolorido do peito
Duramente sentido
Jamais esquecido
Esmaecido desfeito
Por recordar

Ainda há tantas cinzas sem nome
No dia que chega ao fim
Se isto é um homem
O que dirão de mim
Que palavras podem mutilar o poema
Onde o verso sublima a heresia
Dessa caminhada serena
De que se faz a poesia
...

musa

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

VENTO DOS SONHOS AO GREGO - Demis Roussos - My Friend The Wind


AO GREGO

VENTO DOS SONHOS

Onde as folhas dançam na brisa das oliveiras em flor
Gregas as ilhas como pérolas brilhando no doce olhar
O vento agita-se agigantando loucos sonhos em redor
A voz eleva aos céus tantas canções ainda por cantar

Chuva e lágrimas e um coro de deuses no céu recebido
Lirico cantor de divina voz em pranto derramado amor
E o sonho desfeito assim fica da vida ausente perdido
Na fuga do Egipto sangue árabe entoa cântico de dor

Entre as montanhas agrestes e as areias do deserto
Sussurra o vento nos braços da morte melodia e canto
Há-de a sua alma ficar em descanso singelo e secreto

E o vento vagueia a voz do múrmurio nas águas salgadas
De um mar azul que se espelha dos céus em vagas encanto
Demis Roussos partiu... deixa na terra canções apaixonadas
...

musa

LAGO DAS CINZAS - CAMPO DE CONCENTRAÇÃO

LAGO DAS CINZAS

Há cinzas no lago
Com olhos da GESTAPO
Câmaras de gás como afago
De restos humanos a reciclar
E a vida feita um trapo
Apenas um corpo a aniquilar
Cinzas de vítimas do crematório
Que nunca foram a enterrar
Em Birkenau o campo de concentração
O tempo parece parar
Sombrio desumano essa escuridão
Que o cheiro inunda afaga o ar
De horror desilusão
Que nada pode apagar
Tão estranho sentir
As lágrimas a cair
São cinzas da cor do silêncio cinzento
Um aperto no peito uma dor a ferir
Dessa barbárie perpétua no tempo
De tantas vidas decepadas
Agora as cinzas no lago guardadas
Que brisa alguma do vento
Folha de árvore a bramir
Dê-lhes umas asas
Para que possam partir
...
musa

— em Auschwitz Memorial / Muzeum Auschwitz.

domingo, 25 de janeiro de 2015

NO CAMPO

NO CAMPO
No colo de Madrugadas quentes e de Entardeceres abafados
Havia o cansaço lento do olhar meigo da avó presa ao tempo
Essa terra semeada de abraços e beijos ternamente molhados
Envolvidos de perfume a campo agreste de mimosas ao vento


Pés no chão alma enchendo regos feitos pelo gume da enxada
As mãos doridas de cansaço e amor gravando a vida doce suor
No peito o sangue das mimosas vivas e da terra assim lavrada
Sulcos de sentimentos enterrados memórias de choro e de dor


A infância é uma casinha perdida no campo entre flores do regaço
Que abraça a fantasia onde repousa a terra dos restos da avó
No vale dos silêncios da ternura cheira a mimosas e ao seu abraço


Quando o olhar se perde na poesia das imagens dessa loucura
Soltam se as lágrimas da garganta feita angústia e apertado nó
Esta saudade eterna que de versos húmidos teima e perdura
...
musa



VAGAS DE MAR

VAGAS DE MAR
Nas dunas inventadas abraços do vento
Há afagos de vagas soltas noite adentro
O areal desarruma se em esculturas de descontentamento


Lambe o a frialdade das ondas de sal e espuma
Goza o na areia molhada e fria da neblina diurna
Chama marítima que ateia sombria cada vaga uma a uma


A crina revoltada de um dragão ameaçador
Na onda agitada de olhar fogo azulado
Como se o vento rebelde fosse o condor
Que ameaça o mar em voo picado


São gigantes aves de asas arrasadoras
Tombam fulgurantes dançarinas
Em praias nuas como solitárias senhoras
Que rondam a noite dobrando as esquinas
...
musa



sábado, 24 de janeiro de 2015

LUZ ILUMINADA

LUZ ILUMINADA
Faria qualquer coisa pela escuridão
Luz Iluminada do sentir
Pulsante lateja em brusquidão
As sombras cintilantes a refulgir
Gazelas com penas bruxuleantes
Trémulas asas em clarão
Sopros suaves deslizantes
Dos lábios a brisa até à mão
Que parece sorrir
A negra sombra iluminada
A luz do rosto encoberto
Um esgar de riso a consentir
Escura névoa clareada
Do olhar secreto
A cortar como adaga
A alma negra marmoreada
Do sorriso espectro
...
musa

CONFISSÃO

CONFISSÃO
Só a morte me liberta
Do frio da agonia
Só a mortalha
Em mim desperta
Esta vontade heresia
Ou coisa que o valha
Mortífera confissão
Léria treta ou palha
De que se serve a razão
Quando do tudo resta nada
Do horizonte fechado
A última luz se apaga
No instante confessado
E o real parece fantasia
Mórbida profunda apatia
De um corpo já cansado
Derradeira réstia de vida
Jaz no sonho mutilado
Na morte assim cumprida
Sopro enfim apagado
Da alma já perdida
Do ser suicidado
...
musa

INVERNO

INVERNO
Longo inverno
Deste sono profundo
Desta dormência que invade o mundo
Na lonjura deste ano eterno
A inocência da loucura onde afundo
A beleza olhar húmido vidrado terno
Na transparência dos dias
Que na profundeza da saudade
Das horas tristes sombrias
De uma escrita afundada no caderno
Cumpre a sentimentalidade
De palavras geladas frias
De um grito de liberdade
Quase inferno
...
musa

PASSADO DESPERTO

PASSADO DESPERTO
A luz tísica bruxuleando na lamparina das lágrimas frias
Tombando a cerca do pasto dos sonhos
O prado verde de árvores despidas esguias
Espectros de formas lívidas sombrias
Ensombram de silêncios medonhos
De folhas ausentes vazias
Um passado por sentir

Junto ao tanque de alma lavada
Cheguei de onde pude partir
De um céu azul coberto
Resta quase nada
A ser descoberto
Se o permitir


As memórias enxutas suspiradas
No profundo segredo tão perto
São árvores de folhas arrancadas
Lembranças por consentir
De um passado secreto
Vivo desperto
Por existir
...
musa

CINZAS DO AMOR

Há fogo e lume e esta ânsia secreta
Planura seca nevosa enferma
Rara flor que queima dor incerta
Da triste loucura desterrada e erma

Essa infernal visão fogueira desencanto
Arde a culpa no roseiral da alma
No peito profundo a chama pranto
Do olhar as lágrimas em perfume acalma

O odor que o tempo em meiguice desvanece
No fundo dos olhos marejados de sentidos
A tristeza afago do sentimento tece

O fogo lento inebria em compaixão calor
As mágoas derramadas de pensamentos perdidos
Restam as cinzas renascidas do amor
...
musa

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

VENEZA

VENEZA
A cada cais um abraço de Veneza
Gôndolas o sangue vivo vermelho
O sombreado do casario a beleza
Que o céu das águas faz espelho

No rio entrincheirado a cada ponte
A máscara cai nas águas mansas
Da travessia vidrada do horizonte
Muranos entrelaçados como tranças

Brilha uma luz crepuscular enrubescida
Na languidez folheada a ouro cor
A palidez de uma cidade humedecida

Suspensa luminosidade doce entardecer
Em Veneza corre o sangue do amor
Um rio de incerteza e de prazer
...

musa

POESIA FINGIMENTO

POESIA FINGIMENTO
Essa poesia fingimento
No escuro breu onde acontece
De um estalido estremecimento
Brechas de palavras do pensamento
Onde de loucura se tece
Escuro prelo sentimento
Que letra a letra desfalece
Sem tão pouco sentir
Quase nada fingir
A mentira de existir
Tal discernimento
Poema ou ser
Existência desalento
Ser e transparecer
Louco contentamento
Fingido a preceito
Três vezes se bate no peito
Culpado ou inocente
Se o é também o sente
Humano imperfeito
Alegre ou descontente
Que nunca precise fingir
A realidade da poesia
A mais cruel fantasia
Do mais vil fingimento
Da vida que seja um dia
A pura verdade do tempo
O poeta sonhador
Da agrura a vida em dissabor
O verso levou lho o vento
As palavras proferidas
Mais pesadas do que as vidas
Do que a angústia ou a dor
Na linha tênue contratempo
Perdeu a rima o fulgor
Das entrelinhas perdidas
Resta lhe fingir o rumor
Réstias lembranças esquecidas
Do fingimento torpor
...

musa

PASSADO DESPERTO

PASSADO DESPERTO
A luz tísica bruxuleando na lamparina das lágrimas frias
Tombando a cerca do pasto dos sonhos
O prado verde de árvores despidas esguias
Espectros de formas lívidas sombrias
Ensombram de silêncios medonhos
De folhas ausentes vazias
Um passado por sentir
Junto ao tanque de alma lavada
Cheguei de onde pude partir
De um céu azul coberto
Resta quase nada
A ser descoberto
Se o permitir
As memórias enxutas suspiradas
No profundo segredo tão perto
São árvores de folhas arrancadas
Lembranças por consentir
De um passado secreto
Vivo desperto
Por existir
...

musa

sábado, 10 de janeiro de 2015

AUSENTE DISTÂNCIA

AUSENTE DISTÂNCIA
Teias nebulosas ensombram gritos
Clareira lume gestos metralhados
Azedume adocicado sangue escritos
Corpos suspensos da vida decepados

Mensageiros do medo em silêncio proscrito
Ódio profundo a uma liberdade prece
Nas mãos a arma incentivando o grito
Do clarão de fogo que a maldade tece

Ausente distância do real imaginário
O sonho desfeito que explode infeliz
Demente relutância do credo sanguinário

Tão perto a revolta que incendeia sentidos
Aperta no peito a palavra que se diz
Ninguém silencia ideais destemidos
...

musa

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

TALVEZ

TALVEZ
Ama o meu corpo
Com silenciados versos
Feitos pelo teu olhar
O poema que talvez
Do meu ser te revele
A intima louca nudez
Em poesia de pele
E doces sentidos
Com palavras nunca ditas
Actos e instantes consentidos
Beijos aqui e além dispersos
Onde a tua boca consiga beijar
Por caminhos proibidos
Tesão de versos
A cintilar
E se no meu amor acreditas
Em cada milímetro de pele
Do amargo ao húmido mel
As mãos doces bonitas
No trilho do prazer
Somos o querer
Pede o meu corpo perto do teu
Bocas coladas por um beijo
A língua perdida na intimidade céu
Onde acontece o delírio do desejo
Porque existe a vontade
De deixar acontecer
Entre nós a cumplicidade
De um amor poder viver
...

musa

LEVE BEIJO TRISTE - Paulo Gonzo & Lucia Moniz - Leve Beijo Triste


LEVE BEIJO TRISTE
Embriagou-me leve o beijo triste furtivamente
Na fria noite profunda que a lua não vi
Era os meus olhos que procuravas perdidamente
No vazio olhar que a tua boca não senti

As mãos frias as minhas não aqueceram
A névoa sombra escura nívea cinzelada
Entre nós todas as palavras se perderam
No rumo amargo do sentir quase nada

Em ti rubra a boca entristecida
Deixou a sua marca fingidora
Da pálida saudade que é a vida

Entre os teus dedos frialdade ilusão
Segredos da mulher meiga tentadora
Que vive intensamente a solidão
...

musa

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

RISCO DE MORTE

Não sei que palavra escrever
Na nudez da folha em branco manchada
A vida a golpes de metralhadora silenciada
Daqueles que Paris viu morrer
Liberdade de expressão proibida
Em traços de sangue derramado
Era somente um cartoon da vida
Por ironia do destino desenhado
Quem aniquilou por fanatismo exacerbado
O humor da criatividade expressiva
Riscando a negro azedume lascívia
O traço da folha em branco deixado
Frio cruel hediondo horrendo ousado
Na mais infame tortura sentida
Calar um ser humano de morte
Que arma alguma vire a sorte
Do que um risco de lápis pode fazer
Pois Charlie Hebdo há de viver
...

musa

sábado, 3 de janeiro de 2015

MANHÃ SUBMERSA

As águas gélidas do rio
Fumegavam neblinas vapores
As mãos rebentavam ao frio
Eram mais as ilusões que as dores
O tempo imolava o silêncio sombrio
Na corrente tumultuosa invernia
As mulheres lavavam as tripas com sabedoria
Sem ter tempo de ler o que o futuro ditava
O fumeiro sobre as brasas esperava
Havia uma pitonisa no olhar do poema
Que de ancestral saber cogitava
Uma deusa negra envolta de luz
Um esgar de serenidade no sentir
A loucura mística de uma lua terrena
Que de palavras seduz
A noite a querer existir
Na margem do rio serena
Há fumos vapores gritos a eclodir
Madrugada lírica amanhece esfria
Poemas feitos de mãos e palavras
Mulheres com alma empedernida em fogo fráguas
Por entre as águas a lavar as tripas sem as ler
De um passado esquecido por escrever
Havia entre as mãos luz doce distante inverno
Talvez sem saber ainda um destino eterno
Que em poesia se fez acontecer
...

musa

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

DESISTÊNCIA

DESISTÊNCIA
O poema escreve se com o silêncio ainda adormecido
O ano virou de ano
O lugar onde isso aconteceu
Não faz nem diferença nem sentido
Há dentro das palavras um sabor estranho
Do ano que morreu
Sem profundidade o gosto perdido
E como o gelo que derreteu
Do frio que se fazia sentir
Do abraço que nunca aqueceu
Quem do tempo desejou desistir
E na silenciada passagem
Encontrou o fim da viagem
Como a silente miragem
Do sonho por cumprir
...

musa

Ana Bárbara Santo António

A CASA EM MIM

No quarto onde nasci
As rosas vermelhas trepavam à janela
Fundiam aromas de aveludado odor
Da casa em mim
Cresciam outras brancas pequeninas ao lado do patim
Tombavam na pedra fria pétalas de amor
Havia rosas rubras rosas de marfim na casa amarela
Ainda agora esse perfume senti
Como se houvesse na alma um jardim
E no olhar perdurasse a mais bela aguarela
Que eu da memória nunca perdi
Perfumando de saudade a minha vida até ao fim
Um rasto de cheiros a lilás e rosmaninho
Que eu do sentir nunca esqueci
Nuances tonalidades mesclas carmim
O brilho cintilante do aconchego desse ninho
A infância em ternura do lar
Por entre o roseiral a trepar
A hera cobrindo a casa num abraço
Já só resta dentro de mim
Fica humedecendo o olhar
Brilhante trêmulo enevoado baço
Sentido inteiro profundo sem fim
Até que o tempo o deixe ficar
No meu regaço assim
Como uma lembrança
Da minha doce infância
Da casa onde fui criança
Do berço onde nasci
Do chão onde cresci
...

musa