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domingo, 27 de abril de 2014

RIP a VASCO GRAÇA MOURA - GRAÇA DO SER

soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

GRAÇA DO SER

Fizeste de abril o teu setembro
No silêncio pardacento do luar
Trazendo a saudade que ainda lembro 
Dos ecos aos ventos por gritar

Murmuravas a luz dos altos aciprestes
Nas sombras desenhadas de sossego
Foram tantas as palavras que me deste
Ficaram desabridas em segredo

Na graça do teu ser as palavras de amor a florescer
Sussurram chilreios desta primavera tardia
E sonham silêncios outonais por acontecer

Sabes amor dos poemas que não escrevi
Das estações que deixei em poesia
Dos versos que ao ler te o teu ser senti
...
musa

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