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sábado, 21 de dezembro de 2013

O RAPAZ DO COMBOIO DO TUA - Requiem pelo Vale do Tua (Chico Gouveia - guitarra)


AO VALE DO TUA

Serpenteando belo horrível caminho
Trilho trem traves negras travessia
Casario sobranceiro ao rio pequenino
O vale adormece verdejante poesia

Fraguas cinzentas de inóspita paisagem
De cores pardacentas em gélido inverno
O comboio prossegue fantasma viagem
Pelo Tua singelo do vale perdido eterno

Que correria de estio nevoento e sombrio
Pedras com a pátina do tempo incrustado
Guardam a memória do comboio e do rio

Estações intemporais veio de sangue águas
Corre quase esquecido no vale sossegado
Carnais sentidos em desassossego e mágoas
musa

http://youtu.be/idnzJxvWGjU


O RAPAZ DO COMBOIO DO TUA

Lembro-me de que foi em Junho e eu deveria ter uns 19 anos, viajava sozinha de Mirandela para o Tua, no comboio proveniente de Bragança, na linha do Tua, vestia um macacão cor de laranja floreado, curto de alças e decote em bico, e tinha os cabelos aos caracóis bastante loiros. Ele estava sentado a minha frente e viajava com a mãe e uma irmã. Era um rapaz bonito.
Olhava para mim e dizia-me que eu tinha uns olhos muito bonitos e que era bela.
A mãe e a irmã repreendiam-no e diziam-lhe para se calar e deixar-me em paz.
Eu sentia-me muito envergonhada e não dizia nada só sorria para ele timidamente.
Estava muito calor e a carruagem desengonçava-se toda numa correria apressada contra o tempo, a tempo de apanhar a ligação que vinha de Barca de Alva e prosseguiria até ao términus no Porto, para a estação de Campanhã.
Passaram mais de trinta anos e ainda recordo o rosto do rapaz bonito do comboio do Tua.
A viagem pela linha do Tua deslumbrava pela beleza inóspita da paisagem agreste no vale do rio Tua, entre penhascos em abrupto declive, grotescas pedras e olival alcantilado nos montes que abrigavam o estio pujante do Verão absorviam o olhar embalado pela locomotiva dançante, onde aqui e acolá pequenas vinhas verdejantes teimavam em dar cor à paisagem de profunda quietude e poucas sombras.
O rapaz bonito só tinha olhos para mim. Não me lembro em que estação ou apeadeiro teria entrado, e dentro da carruagem a confusão era grande, gentes, cestos, caixas, animais, alfaias agrícolas, ocupavam espaço e abafavam ainda mais o ambiente cortando qualquer corrente de ar, ainda que as janelas fossem todas abertas.
Pela conversa entre mãe e filha, apercebi-me que o rapaz vivia no Porto e tinha ido visitar a avó a Trás-os-Montes, e estavam de regresso a casa.
Vestia camisa branca, um pullover vermelho pelas costas e calças de ganga, e sapatilhas azuis. Tinha o cabelo castanho ondulado e um pouco comprido e os olhos esverdeados, e algumas sardas nas bochechas, e um nariz perfeito e pequeno.
Na estação do Tua, perdemo-nos de vista, entramos em carruagens diferentes, eles como tinham mais bagagem para mudar, demoraram mais tempo a sair do comboio e ficaram para trás. Eu entrei na segunda carruagem da frente do comboio, na direção Barca de Alva para a Régua, apesar de já estar completamente cheia, consegui um lugar junto à porta.
Tinham passado cerca de duas horas de viagem, aproximávamo-nos do Porto, talvez perto de Ermesinde, vejo-o vir no corredor até mim, olhando para os bancos, procurando alguém, e quando me encontrou, pegou-me na mão e deixou-me um bilhete e voltou costas e foi-se embora.
Eu fiquei muito corada, envergonhada, sem dizer uma palavra. Fechei a mão e fiquei com o bilhete escondido no interior da mão até que chegamos à estação de Campanhã. Levantei-me peguei no meu saco, enfiei a mão no bolso do macacão e depositei lá o bilhete sem o ler.
Tinha a minha irmã à minha espera na estação de S. Bento, tinha que apanhar a ligação de Campanhã para lá.
Esqueci o bilhete e a história do rapaz bonito do comboio.
No dia seguinte mudei de roupa e guardei o macacão na mala, aí ficou até que quatro dias mais tarde regressei novamente a Mirandela.
A minha mãe lavou o macacão com o bilhete lá dentro, que se desfez completamente na água, esbatendo a tinta das palavras, mas podiam adivinhar-se as palavras GOSTO DE TI.

musa

1 comentário:

Anónimo disse...

É uma historia verídica?