Cartão de Visita do Facebook

domingo, 23 de junho de 2013

ROSAS DE MAR... a um desconhecido... sem mistério não há mais segredos...

faço do teu corpo roseiral
perfumando areias dos sentidos
dou-te forma escultural
de rochas e penedos vivos
em maresia madrigal

das dunas teus seios esculpidos
vagas que de mãos humedecidas
no embalo do mar adormecido
desnudam teus olhos desconhecidos
e deixam as ondas perdidas
invadir de silêncio o meu sentido

e faz-te o mar de sal e segredos
nas veias escorrendo a maresia
na pele a dureza dos rochedos
nos dedos o toque da fantasia

 e faz-te o mar de arbustos e arvoredos
e molda de algas teus cabelos salgados
e deixa sonhos e sal nos teus dedos
e húmidos de pétalas os olhos aguados

faço do teu corpo areias perfumadas
no pescoço molhado lavram-se espumas
deixo escorrer as horas cansadas
onde respiro palavras e brumas

musa

PRAÇA DOS SONHOS

A PRAÇA DOS SONHOS
Existe a feira das vaidades, onde uma realidade se fantasia sob máscaras de entretenimento e apregoa o verso do fingidor desconhecendo o maravilhoso mundo do misterioso ignorante.
O conhecimento é a única coisa que ninguém pode roubar de alguém...  Mas cada vez mais fica menos espaço para os sonhos… O conhecimento rouba-nos a capacidade de sonhar.
Transformar sonho em realidade requer esforço e conhecimento mas abre feridas sem sangue, crava punhais sem dor, martiriza de estigmas e chagas palavras de ilusão.
“Quem muito fala trai a confidência, mas quem merece confiança guarda o segredo”
Se desejamos avançar sobre o desconhecido, conhecendo-o mais e mais, então precisamos saber que nos tornamos sujeitos frágeis a muitas e incríveis armadilhas afundando-nos num poço de dúvidas e preocupações, e a primeira delas é esta: a ilusão de que já conhecemos o desconhecido pelo que das suas palavras vamos conhecendo em mistério e sedução, abrindo as portas do fascinante e assombroso misterioso mundo que se torna completamente presente, real, próximo, e imposto ao nosso pensamento, fazendo-nos habitar de silêncio o sono e a vigília, trazendo prazer, amor, ódio e dor, na inconsciência da meia-luz em intimidade poética das metáforas, então para quê surgir das trevas claras a curiosidade e assumir a vontade de querer o parto da consciência rebentadas as águas do mistério desfeito, do abismo infinito, estranho e desconhecido, penetrada a imaginação, rompida a indignação, completamente à mercê do que não sabemos, do que desconhecemos, se pararmos um pouco e olharmos em volta, podemos não reconhecer o que nos parecia óbvio, podemos nos sentir traídos. Ficaríamos admirados com a nossa capacidade de nos iludirmos, levaríamos um susto ao ver trevas onde parecia haver luz.
O mistério é para mim a verdadeira terra de ninguém.
No mistério há uma praça dos sonhos. Uma espécie de lugar onde eu me sento e partilho palavras sem nada pedir em troca e tudo receber e dou palavras sem nada querer e tudo sentir.
"Duas almas vivem aqui no meu peito,
uma querendo separar-se da outra:
uma se agarra, em sensual enleio
e com seus órgãos feito âncoras, ao mundo;
a outra se ergue do pó às alturas antiquíssimas."
Fausto / Noite, I. Wolfgang Goethe.
Na Praça dos Sonhos vive espiritual busca na incompleta existência das palavras por dizer, em dualidade de sentidos abre ferida aberta pela poesia e no sangramento jura a separação em sensualidade amarra ao mundo feito pó desconhecido e misterioso enlevo com raízes adormecidas buscando o despertar de outras vontades, talvez ocultos desejos no corte transparente do pensamento e em sentimental devaneio de inquietudes.
Talvez nunca os esporos da virtualidade singrem em chão consentido de palavras, porque os sonhos não criam raízes, e não há ventania de compreensão que possa fertilizar estéreis campos de desconfiança, nem a humildade do sentir seja sequer a ser semente.

musa

sexta-feira, 21 de junho de 2013

TEMPESTADE

 as ondas saboreiam as dores dos poetas
calcam as palavras de areias húmidas
lavam o areal de penas secretas
deixam sobre as areias brancas espumas

cobrem de vagas feridas desfeitas
saboreiam fingidas doridas escunas
são da tempestade desferidas malfeitas
quando o vento invade e varre as dunas

mar leito de ondas punhais tão negros
cravados no peito dos cascos perdidos
há um silêncio bruto enraivecendo medos
caindo em bátegas de chuva de sentidos

musa
(dedicado pela gata das claraboias altas)

terça-feira, 18 de junho de 2013

SOBREVIVEMOS

Temo as primaveras esfriadas
O sentir de que sobrevivemos
Sem saber bem o que queremos
Perdidos em manhãs enevoadas
Gélido manto nevado por derreter
As estações todas trocadas
Sem o verão acontecer

Cada manhã será mais fria do que a outra
Cada dia será o acolher de uma nova frialdade
Cada hora terá o tempo de uma nova idade
A temperatura será desvairada e louca
Cumprida a loucura de sentir e existir
Há em nós um outono de folhas a cair

Espera-nos incansável caminho sem desistir
Cobre-nos o pavor de desditoso inverno
Salpicando meses de brancura
Num frio profundo eterno
Onde o gelo perdura
E se faz cumprir
Húmido inferno
Silêncio terno

musa

NA PRAÇA DO PÃO - a um desconhecido

miniconto - dedicado ao Desconhecido...
NA PRAÇA DO PÃO

Chove e eu não sei mais o que escrever e estamos quase no fim de junho e não faz calor nem veio o sol nem vieste tu.
Já não te espero e vou todos os dias ao mesmo lugar onde marcamos nos encontrar para desfazer o mistério que entrançamos de interrogações sem termos tido tempo de esclarecer quem queria o quê e o que ambos buscávamos para além da descoberta e da surpresa.
Não sei quantos dias se passaram mas o cheiro a pão quente e a bolachas torradas ainda é o mesmo e o café forte conserva o aroma de terras africanas empacotadas à espera da moagem fina e da água fervente tornando negro o sabor que perdura na boca cheia de saudade e derrama nos olhos dias inteiros de ilusão.
Fico sentada na padaria Ribeiro juntando os cacos de toda uma vida, mordiscando cacos mergulhados no café fumegante, enamorada desde há séculos pelos biscoitos tradicionais, os “cacos”, pequenos quadradinhos de massa recortada de perdido sabor lembrando distrações da tesoura e de uma folha de papel dobrada em quatro recortada aos biquinhos em toda a volta.
Desdobro a folha escrita a lápis onde guardei a intenção e a ousadia do teu desafio proposto ao fim de cinco horas de embate de palavras desditas e desarrumadas entre uma ida ao banheiro e meia dúzia de fotocópias tiradas às pressas para não te fazer esperar muito na resposta que encavalitada nos bites ligava a beira-mar a Miragaia e decompunha sentidos em entrelinhas cheias de fantasia.
A nossa estória nasceu sem saber que seria uma estória que os dois inventávamos para matar o tédio de horas repetidas e usadas em papelada de escritório. Num mato estranho de solidão escurecida por um fim de tarde prematuro deixaste entrar o destino por cima de telhados por inventar, molhados de chuva e sacudidos de frio e vento como se o inverno tivesse vencido uma batalha e vencedor tivesse derrotado o verão deixando-o moribundo e ferido de lágrimas esfriando a claridade sobre a cidade cinzenta e húmida.
Gosto dos telhados molhados da Ribeira e de Miragaia e da Foz com o casario espelhado nas águas do rio Douro. Gosto das claraboias salpicando telhados em colorido envidraçado de cores e zinco e ferro e madeira torneados e cataventos de desnorteadas rosas-dos-ventos bramindo a ventania em sussurros e cânticos na ofuscada luz ventilada de sonho e magia.
Tenho a certeza que foi essa magia das claraboias que nos juntou na Praça do Pão e trouxe mistério a um enamoramento de palavras como cacos doces e estaladiços.

EU — Ola...
TU — Olá. Perfil engraçado o teu Eu!!!! Apaixonada... por gatos?
EU —Nem por isso, mas admiro a personalidade felina, esquiva rebelde solitária.
TU — Revês-te nela?
EU — Gosto de telhados.
TU — Lol… boa... como os preferes?
EU — Sem pretensão de competitividade com o homem aranha.
TU — És gata...
EU — Gosto de claraboias rompendo por entre telhas vermelhas.
TU — Também gosto... no Porto tem algumas...
EU — Eu sei já as espreitei.
TU — Por dentro ou por cima? Gostava de conhecer: gosto da luz que passa por elas.
EU — Subi a algumas ali pelos lados das Galerias de Paris na Praça Carlos Alberto, Praça do Pão… e vistas da Torre dos Clérigos são magníficas!
TU — Um dia destes, dás-me uma volta por elas?
EU — Deviam dar-lhes mais atenção. Lamento o abandono em que se encontram a maioria delas.
TU — Estes dias estava na Ribeira, do lado do Cais de Gaia, e de lá vê-se a do Palácio da Bolsa toda iluminada, muito bonita.
EU — Sim. Raras são as mentes que olham a luz por onde ela não passa.
TU — Isso é muito complicado... acordei à pouco, dás-me um nó nos neurónios...
EU —Arrancas-me sorrisos… pensamento felino.
TU — Como te chamas?
EU — O que é que nos deu vir para aqui falar em telhados claraboias e sonhos... Que nome me darias?
TU — Já tinha pensado: olha, falar de claraboias... quem diria.
Ah… o teu nome: requer ponderação.
EU — Além de nome é um adjetivo.
TU — Mais fácil. Linda.
EU — Não. Mas posso te adiantar que em tempos ocuparam a Península ibérica.
TU — E dá um nome feminino?!!
EU — Sim!
TU — Romana.
EU — Não.
TU — Pois, faltava ser adjetivo... mas antes da formação de Portugal?
Preciso mais pistas.
EU — Acordei a pouco isso requer voltar à História.
TU — lol… desisto.
EU — Sim antes da formação.
TU — Diz-me uma coisa obvia...
EU — O Viriato não se entendeu muito bem com eles.
TU — O Viriato foi com os romanos.
EU — Esta foi para despistar.
TU — Já estava no google...
EU — Não são assim tantos os nomes dos povos que ocuparam a Península.
TU — Pois não, por isso estou a ficar danado.
EU — Pertenço à nobreza selvagem.
TU — barbara…
Acertei?
EU — Sim.
TU — É um nome invulgar na nossa geração.
EU — Celtibérica.
TU — Mas gosto!
EU — Loiros olhos azuis.
TU — Herdaste isso também?
EU — Herdei da minha bisavó que tinha olhos de céu e mar.
TU — Mas o cabelo não...
EU — Sim o cabelo também.
TU — Na foto tens cabelo escuro... pintas?
EU — Ao contrario das loiras detestava a cor do cabelo e pintava, agora não pinto.
TU — Então, quanto tempo tem a foto ?
EU — 20 anos.
TU — Pouco se vê...
EU — Mas só mudou mesmo a idade…
TU — Acredito.
E a cor do cabelo.
EU — Continuo a querer subir aos telhados.
TU — Quando me levas a conhecer os teus lugares?
EU — Que hei-de fazer gosto de promontórios.
TU — Dão-me alguns arrepios...
EU — Medo de alturas?
TU — Respeito.
EU — Sim mas gosto de sentir o ar da respiração cortado.
TU — Não és suicida, pois não?
EU — Já estive em pontos bem em altos.
TU — És mesmo gata...
Quis perguntar se tinhas noção da realidade e se não te colocavas em situações demasiado perigosas?!
Gostava de continuar a falar contigo, mas estou morto de fome... podemos continuar outro dia?
EU — Quem sabe a gente se encontra aí por um telhado.
TU — Sim, quem sabe...         
Outro dia volto aos telhados.
Hoje andei de cabeça no ar: a olhar para telhados...
Não te vi. Diz-me onde costumas afiar as unhas antes de subir aos telhados.
EU — Um bom enredo para um filme... se o Spielberg nos descobre...
Mas tem que haver muita magia e fantasia q.b. ...
TU — ... magia e fantasia, Harry Potter: afias na Lello?
Olá Barbara!!! Como vai a semana?
EU — Vai péssima! Telhados molhados.
Onde escondeste o sol???
TU — Pois é... espera pela lua.
EU — Para jogar ao esconde esconde?
TU — Pode ser que não esteja tapada.
EU — Sabes que nunca li Harry Potter.
TU — Eu também não... mas li umas noticias que referiam que a livraria Lello terá sido inspiração.
Já estiveste mo promontório mais alto da europa?
EU — Nos picos da europa sim.
TU — Fica na Ilha da Madeira.
São 500 e qualquer coisa metros a pique para o mar.
EU — Coloridos a parte e alturas acho que o planeta está com uma crise de nervos. Não sei onde estas agora, mas onde estou eu, chove a potes.
TU — Onde estás?
EU — Neste momento em Espinho. Vim às sardinhas, ao peixe. Gosto da frase que tens escrita no perfil.
TU — Peixe, imagino porquê.
Penso que a frase latina é: incógnito pro magnifica... eu traduzi da forma que coloquei no meu perfil.
EU — Atrai-te o desconhecido?
TU — Não creio que seja sempre, mas pode ser. Só o poder ser, é magnífico.
EU — Qual a diferença entre desconhecido e misterioso?
TU — O misterioso tem algo mais.
EU — Falta-lhe a revelação.
TU — Isso, exato!
EU — E achas que eu vou ser desconhecida ou misteriosa?
TU — Misteriosa, sem dúvida.
És barbara...
EU — De nome sim.
TU — Vais ao peixe a Espinho?
EU — Já comi umas sardinhas.
TU — Não vais a Matosinhos?
EU — Estava mais perto de Espinho.
TU — Estava a tentar acertar em algo...
EU — Cuidado podes escorregar, os telhados estão molhados
TU — Estou a ver que sim... vou espalhar-me...
EU — Estou aqui a pensar… nunca ninguém se lembrou de fabricar telhas azuis, faziam sucesso nos telhados do Porto.
TU — É mesmo! Então, não lances a ideia, não vá alguém aproveitar...
Gostavas de ver?
EU — Telhados azuis?
TU — Sim.
EU — Devem ficar lindos.
TU — Aiii, não sei se gostaria... nem consigo imaginar os telhados azuis.
A Ribeira ou em Gaia não. Quando sugeriste, imaginei essa zona de telhados azuis...
EU — Eu também não estou a ver as casas burguesas do Porto do séc. 19 com telhados azuis.
Gosto mais deles assim de chapéu vermelho.
TU — Sim tens razão. Estão bem como estão...
EU — Conservadores...
TU — A tua atracão por telhados é antiga?
EU — Em criança vivi numa casa com uma claraboia magnífica.
TU — Aí está a atracão...
EU — Sou uma caçadora sobre telhados… atraída por claraboias laboriosas de mistério e sedução, a caça da inspiração é furtiva misteriosa e deixada ao acaso de forma a saborear a surpresa.
Não sei o que procuro, não sei o que vou encontrar.
TU — Algo será.
EU — Algo é sempre.
TU — O que vier será uma surpresa.
EU — Gosto de desafios. Tal como os gatos nunca sei o que vou encontrar no próximo "caixote do lixo".
TU — De momento, tens algum desafio?
EU — Tenho segredos que acabam por ser desafios.
TU — Se são segredos não me podes contar...
Costumas superar os desafios?
EU — Às vezes as pessoas acabam por merecer que se partilhem segredos.
TU — Sim, verdade.
Se forem só nossos podemos partilhar.
EU — Só me importam os meus mesmo. E não é egoísmo é postura de vida.
TU — És curiosa... muito curiosa.
Curiosa de singular, de merecer curiosidade.
EU — Desperto-te curiosidade.
TU — Despertas sim.
EU — E ficas cheio de interrogações.
TU — É verdade.
Existem aqui milhares de interrogações.
EU — Foste tu que me "escolheste".
TU — Estás a pôr-me confuso. A escolha foi reciproca.
Se não tivéssemos conversado, não saberia nada de ti, nem tu de mim.
E eu ainda não sei nada de ti. Só curiosidade.
E eu tenho a convicção que as mulheres é que escolhem.
E tu ainda mais. És gata.
EU — Não se trata de uma escolha. Houve uma aproximação.
Nem sei se se pode falar em lei da atracão, se bem que isso por vezes acontece.
TU — Ou parece acontecer.
EU — Mas confesso que sim houve uma atracão pelas palavras, pelo uso das palavras, a forma como decorreu a conversa.
TU — Vou ter de rever.
EU — Isso funciona sim.
TU — Também penso que sim...
EU — Eu tenho alguma dificuldade em manter conversa com quem "entra a matar", ou seja, começa logo por fazer um interrogatório sobre quem sou o que faço, detesto questionários. Ou passa logo a proposta descarada.
Nada contra esse tipo de abordagem mas arrepia-me.
TU — Deixa-te os pelos eriçados.
EU — Faz-me ficar naquele estado tipo gato que sai da máquina de lavar roupa ou do micro ondas.
TU — Estava a relembrar o nosso início de conversa.
EU — Claraboias. Telhados.
TU — Sim! Galerias de Paris e Praça Carlos Alberto.
EU — E andaste a minha procura este fim-de-semana…
TU — Força de expressão... não estive no Porto, mas olhei algumas claraboias...
EU — São magicas.
TU — Eu gosto muito.
EU — O curioso foi encontrar correspondência nesse gosto.
TU — Gosto da luz que entra de cima. Achas... penso que deve haver muita gente a gostar.
EU — Gosto de sombras reflexos e a dança da poeira iluminada.
Pode ser…
TU — Diz-me uma que goste muito. Uma claraboia.
EU — Nos telhados do Porto?
TU — Sim.
EU — Deixa ver se encontro o edifício onde estive. Em tempos, um dia  aventurei-me a subir umas escadas mais estreitas de um velho edifício, ali perto de Cedofeita e descobri a claraboia mais bela que já vi.
TU —És demais... sempre com os telhados na cabeça...
EU — Não consigo situá-la nas imagens que encontro na net mas penso que fica entre a Rua de Ceuta e a Praça Carlos Alberto.
TU — Conheces uma padaria que tem na praça antes dos leões?
EU — A padaria não estou a ver?... ou será ao lado da Leitaria do Paço?
TU — Um dia destes vou procurar essa claraboia.....
Penso que sim... não me lembro do nome... mas sim fica nessa zona mesmo. Tem lá uns biscoitos fantásticos, mas o importante, para mim, são os "cacos", conheces?
EU — É um doce?
TU — Bolacha. Sortido.
EU — Toda recortada?
TU — Sim.
EU — Já me lembro. Quando estudava no Porto, lembro-me que íamos comprar disso, comíamos enquanto estudávamos.
TU — Eu gosto... quando lá vou, compro.
EU — Acho que não como disso vai talvez para uns 20 anos.
Tinha esquecido isso completamente.
TU — Eu estou a salivar.
EU — Mas agora que trouxeste à memória, lembro-me de passar noites a estudar e a roer disso, e ao lado o termo de café.
TU — Não é nenhum manjar, mas eu também gosto de roer essas coisas.
EU — Quase que sinto o sabor.
TU — Tem um sabor que gosto.
Comprei não vai muito tempo. Por isso ainda há.
EU — Mas é verdade que não como disso há tanto tempo... anos.
TU — Mas uma altura, já lá não ia há alguns anos, pensei se ainda fariam os cacos.
EU — Há vinte anos atrás era aí sim que íamos comprar.
TU — Há vinte anos também andei pelo Porto.
Quando vais comer cacos de novo?
EU — Isso é um desafio?
TU — É sim.
EU — Um convite?
TU — Um desafio. Tu preferes desafios.
EU — Quando voltar ao Porto vou à procura dos cacos e deixou-te lá um bilhete.
TU — Ok. Combinado.
EU — Depois deixo-te aqui mensagem que deixei lá o bilhete.
TU — Está combinado.
EU — Ora ai está o desafio… mas será que o bilhete será entregue?
TU — Sim. Dizes que é para o teu amante...
Vão ficar curiosos para saber quem é.
Consegues  fazer isso?
EU — (sorrio-me)… somos doidos.
TU — Consegues mesmo fazer isso?
EU — Tenho que conseguir…
TU — Vão ficar curiosas à espera de ver o amante...
EU — E para intrigar mais a situação, vou com uma companhia masculina.
TU — Ai coitado, mas não o deixes embaraçado...
EU — Ele aguenta.
TU — Já tens presa à vista...
Está então combinado. Eu fico com a parte mais fácil: recolher a mensagem da minha amada.
EU — Não me lembro de que a literatura conte sobre um caso assim... troca de bilhetes deixados numa padaria.
TU — Também não conheço...
EU — Vamos fazer estória.
TU — É a nossa estória.
EU — Isto acontece-te muitas vezes?
TU — Não. Nunca.
A ti acontece?
EU — Já me aconteceram coisas fantásticas mas esta é única mesmo.
TU — A sério!!!
Um dia tens de me contar. Preciso de coisas fantásticas.
EU — Caçando inspiração... queres que te inspire…
Mas olha, achas que conseguimos trocar os bilhetes sem nos descobrirmos um ao outro?
TU — Como assim: sem eu saber quem tu és e tu sem saberes quem eu sou?
EU — Sim. Sem nos cruzarmos. Sem o destino nos colocar frente a frente.
TU — Eu não imagino quem sejas.
EU — Eu tão pouco. Não sei se sabes mas tu não tens fotos. Sei que as minhas estão trancadas e só deixo ver quem eu quero.
TU — O destino tinha de ser muito preciso.
Eu só vou saber que deixaste a mensagem, por aqui, depois de ela lá estar. Por isso não vamos mesmo conhecer-nos antes.
EU — Quando eu passar por lá deixo o envelope com o nome Desconhecido.
TU — Está bom.
EU — E digo que vais la comprar os cacos e recuperar o recado.
TU — Combinado.
EU — É estranho escrever a um desconhecido...
TU — Podes dizer no bilhete: combinei encontrar-me amanhã, mas não posso cá vir.
EU — (grande gargalhada)…  tu queres mesmo por as moças (de certo são moças) a ferver de curiosidade.
TU — Tens de te fazer amiga delas.
EU — Pois primeiro vou lá sondar o ambiente.
TU — ahahahah
EU — Não vou cair lá de paraquedas, assim sem mais nem menos, obriga-las a pactuar com o delito amoroso.
TU — Tenho a certeza que vais conseguir.
EU — Vou disfarçar bem. Tenho que ver se não há camaras a filmar
TU — Irra, onde vai a tua imaginação…
EU - Se bem me lembro é quase na esquina da rua.
TU — Sim, é sim.
EU — Do lado esquerdo quem vem da Praça dos Leões.
TU — Padaria Ribeiro.
Exato.
EU — Ok. Ficamos combinados.
TU — Agora vou trabalhar.
Nesta parte estamos combinados: fico à espera da tua mensagem.
EU — Sim. Um dia destes deixo-te mensagem para passares por lá.
Também estou quase de saída.
TU — Mas vamo-nos falando...
EU — Certo.
TU — Fica bem, tem um bom resto de dia.
Ele há dias assim.
Fechei o pc mas não resisti a escrever-te o bilhete. Não sou de desistir.
Deixo o bilhete, por falta de coragem para esse encontro misterioso, esperando que numa noite destas, ao luar, vislumbre a tua silhueta sob os telhados da Baixa, talvez no rumo incerto de uma rosa-dos-ventos numa claraboia com um catavento, de telha em telha numas águas furtadas de um sótão cheio de coisas do passado, ao esplendor da escuridão, no calor dançante das telhas ainda quentes do dia ao sol, com o silêncio noctívago como testemunha, haja lugar uma serenata de sentidos em inspiração de odores, cores, sons, num cenário de estrelas cintilantes em orvalhado sentir.
A loucura do que as palavras nos fizeram viajar, de encontro a memórias tidas perdidas num universo de evasão e fantasia, a busca deixada ao acaso e a certeza da aventura como plataforma para o salto no desconhecido e misterioso mundo da sedução.
Dizer que juntamos os “cacos” para construir o quê. Todas as construções são previamente arquitetadas, mas sonhos há que nascem ao acaso mesmo. Gosto de pensar em “cacos” como palavras de arqueologia, isso sim fascina-me. Os espólios perdidos são para mim uma perdição. Viajo no tempo e nunca tenho vontade de regressar ao presente. Vejo nas claraboias o caminho profícuo para onde ir de onde vim.
Nas palavras deponho a paixão com que nasce a sedução, o mistério, a rebeldia quase felina de caminhar sobre telhados em insatisfação de sentidos, mas com a opulência da paixão pela vida.
O presente juntou-nos num apartado tempo deixado pela mão do destino, sobrevivemos entre cacos e talvez seja hora de provarmos a doçura dessa vida feita de mistérios.

musa

segunda-feira, 17 de junho de 2013

JOGO DE LUZ

diante dos meus olhos desfila na obscuridade
brancas pétalas teclas num prado negro
em escuro antro viajo velocidade
com que as palavras chegam ao medo
e como num jogo de dominó
perdem-se na idade
fazem-se pó

joga-me no poço de um segredo
em obscuro pensamento
abandona-me no degredo
do teu tempo

nas sombras peça perdida
acumulam-se contrariedades
fazem-se contas à vida
no tempo em lentidão
deambulo serena aturdida
na feira das vaidades
joga-se ao pião
desprendido o fio
liberto da mão
olhar sombrio

ensino-te um jogo fugidio
nas sombras queres aprender
a face sentida
encurralar a vida a viver
por prazer deixar morrer
a sombra fugida
rodopia
viva

a luz que enternece
iluminada desfalece
de sombras tece
desprendida
o luto lento
da vida
musa