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sexta-feira, 26 de abril de 2013

A UM TEMPO AO MAR


Sabes que voltei de uma viagem que não queria nem poderia deixar de fazer. Parti e levei comigo partes de nós feitas contigo em instantes demorados na surpresa de te ter conhecido sem nada programado. Às vezes ainda recordo a vaga que assolou à praia das minhas memórias, tombou enrolada num fardo de sentidos como pequenas areias movediças onde se enterram os meus segredos em secreto sentir do teu olhar. Humidade dos olhos semiabertos como um horizonte alaranjado em tons de melancolia rompendo claridade em sombra luz num espelho de vagas tombadas em sal de desejos e vontades. As ondas crivando sobre esse mar do teu olhar perdido em profundidade de mim onde tenho as areias espalhadas como alfinetes de cabeças brilhantes com pedras limadas de arco-íris engastadas sobre metal amarelecido pelo calor dos sentimentos. No pensar que gela no frio do imenso mar onde murmuram lembranças atravessadas de gritos risos e lamentos sempre manchadas de lágrimas tão húmidas e geladas como abraços da solidão em colo de silêncio aguado de pensamentos aferroados pela mesquinha mania de guardar o que sempre esteve perdido para o tempo. Há um redondo aberto como um coração sobre o mar frente a uma escadaria feita de pedra onde o mar lava degraus de sentidos amornecendo recordações de feitos de mãos e bocas saliva sémen e choro por dentro sem ter tido tempo de se fazer paredão carregado de emoções amortecendo a dor da perda e do abandono em infinito sobranceiro ao adiado sentido da existência mundana vilipendiada de ondas abruptas e doloridas em frieza funda fútil de vagas promessas por cumprir. É um lugar que não consigo esquecer. São pedras de algodão molhadas e frias em novelos emaranhados de perda magoa e tristeza. Na escadaria humedecem folhas soltas de areias sopradas pela força das vagas deixando cair maresia orvalhada com perfume das profundezas do mar. Há a sombria luz tépida da frialdade em riscos de espuma na orla das sensações entre humidade e secura dos sentidos aprisionados no limbo das angústias. Sinto tanto e recordo menos do que o que gostaria porque a dor da separação ainda persiste nas mãos do teu cheiro entranhado nos sulcos gretados das lágrimas que limpei por negação do sentir. Mordi por dentro em dentadas feitas de sonhos as palavras que sufoquei ao chorar por ti sentindo saudades e sufocando as mesmas para não morrer no esquecimento do teu nome e atirar pelas escadas frente ao mar a memória suja do teu contentamento. Ainda saberei sofrer com sorrisos e lágrimas vertendo da boca engasgada com o teu nome e a garganta engolindo o orgulho pranto a um tempo ao mar.
musa

Praia da Granja, 25 de Abril 2013

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