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sábado, 22 de novembro de 2008

Uma leitura de PAPYRUS DE DOR E DE PAIXÃO

O termo Papiro (derivado da palavra grega papyros) significa papel e aponta para a escrita real que deu origem ao livro. Pelo seu conteúdo "enrolado" papiro está ligado ao conhecimento, esse mesmo formato que assinala a involução, traduzido na repetição do gesto de revelação e ocultação. O dicionário de simbolos acrescenta-lhe ainda a face esotérica do conhecimento e a nível psíquico "exprime as duas fases de impulso e de repouso, de exaltação e depressão" (Chevalier, Dicionário de Simbolos, 1994:504). Após esta explicação, o título deste livro balança entre dois pólos: de dor e paixão, perfeitamente enquadrado na significação de papiro; por outro lado, a sugestividade do termo Papyrus tem um alcance mais lato e profundo ao evocar o nome de uma Editora que tem a função de transformar aquilo que está manuscrito em obra; no fundo, contribui para a revelação do conhecimento. Ainda nesta perspectiva, toda a poesia inclusa aponta para a interrogação existencial perante a precariedade da vida, garantindo à poesia um carácter ontológico. Estes pressupostos ajudam a "enformar" uma obra, profundamente, marcada por um eu, à procura de um tu, por vezes, nomeado, outras, a conquistar terreno junto do leitor universal. Esta contemplação implicita é uma marca peculiar do livro e funciona como seu elemento unificador.
Aliado ao sofrimento e à dor do eu há todo um conhecimento de esperiências vividas a (des)ocultarem-se através da palavra - "Tenho dentro de mim enternecida / Essa fina agulha por quem me apaixonei/(...)Que destino o meu tão devastador / Ser assim picada no dorso deitada" (Punção Lombar). No poema - metáfora "Olhar de Papiro" o sujeito de enunciação havia prevenido que " Por detrás destas palavras ruídos / Sou eu que me banho no mar das tuas lágrimas" o que testemunha a necessidade de desafogar no papel a angustia e o sofrimento do corpo e da alma; nada parece insincero, se há fingimento é apenas pela necessidade intrinseca da poesia, porquanto o sujeito parece expor-se cada vez perante a confiança do leitor e a segurança da pena. À medida que os poemas evoluem percepciona-se uma poesia mais amadurecida e implicada de estórias: "Uma alma velha derrotada / Sem identidade à deriva / Cruzei-me com ela amargurada / Sobre o areal desta vida" (Areal da Vida).
As temáticas focadas, embora centradas na dor, apresentam derivações existenciais: do tempo passado e do presente, filtrado nas fadas que bailam só de noite "Aguardam a noite para vir bailar", e escondem-se perante a luz do dia; também a evocação da água, através das ondas e do lago (Fadas), e alusão às asas e ao azul constituem um tecido de magia atenuante da dor e esperança da vida. A área vocabular associada ao mar, concretamente, através dos lexemas vela e mastro " Vem de vela e mastro imensamente erguida" (Dor), assinalam a atitude firme de querer vencer perante a vida, mesmo atravessada de sofrimento. E, aí, nesse percurso, a fé é também inabalável - vejamos o pema "Verónica", fundamentado na paixão de Cristo e na bondade da mulher que lhe limpava o rosto com uma toalha branca de linho.
Assim, o sujeito também clama: "Ai quem me dera ser pano de linho / È uma dor como chita de leves vestidos" (Dor), - o linho a conotar riqueza, religiosodade e resistência temporal.
Mescla de magia /sofrimento, de dor/paixão, de euforia/depressão, como metaforicamente representa "Prozac", este livro é uma revelação do eu, em que a dor transformada em poesia dá a possibilidade aos leitores de experimentarem/avaliarem as suas dores poeticamente. A transformação do esotérico em exotérico é um percurso oferecido ao leitor, em passo de dança, convidando-o também "a bailar" ao som das ondas da revelação.
Sem as preocupações formais normativas, a poesia desprende-se e, naturalmente, experiementando sentimentos e sabores diversos, sempre pautada por muita emoção, entra no ritmo do leitor e cativa-o, tornando-o o agente deserolador do Papiro.

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