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domingo, 3 de agosto de 2008

À PROCURA DO PONTO G, DA ESCRITA

Não sei quando, nem como, ou porquê, me passou pela cabeça esta ideia de encontrar o ponto G, da minha escrita? Em Agosto de 1988, fiquei fascinada e deliciada com a leitura do livro"A Tarde de um Escritor", do escritor alemão Peter Handke, dando-me conta de todo o meu processo de autognose, como escritora compulsiva que só se sentia bem a escrever, sozinha no seu quarto, indo encontrar neste pequeno livro o grande tema da solidão humana e, para além dela, a difícil arte de existir no mundo, desleixando-me eu própria, das minhas relações sociais, querendo estar apenas eu, só, na solidão do meu mundo de palavras com a minha pena e as minhas penas. Tão secretamente como é conhecer a alma humana e todos os seus subterfúgios. Modesto auxilio será pois a escrita em que nos debruçamos num fim de tarde, para aí, possuidores de conhecimentos seguros e das leis da harmonia entre a mente e a pena, expormos toda a nossa virilidade intelectual, toda a nossa afirmação pessoal e psicológica, produzindo com palavras em ritmos esplendorosos, todas as nossas amarguras e a sensível solidão que nos inspira - a ignis sacra - expressão dos pensamentos num prazer incomensurável, deslumbramento, sublimação, palavras fulcros fecundos do êxtase que sente o escritor quando saído da nebulosidade do seu dia-a-dia, se recolhe para o seu templo, assumindo o seu talante, de inspirador de oráculos, evocando palavras túrgidas que a sua alma esconde em segredo e as atira para a virgem folha, concebendo desse modo, a erótica mancha de letras que formam palavras, que formam textos, que fazem poesia ou prosa, ou apenas puramente, exprimem os domínios da compreensão criadora do homem. Passo a passo, degrau a degrau, a criação literária à feição daquilo que se solta dos sentidos, definindo nitidamente o carácter do ser, não é senão o cumprimento da rebeldia do poder magnífico que obsidia o pensar, absurda tentação que sintetiza todas as faculdades humanas vibrantes, sem perderem a sua caracteristica fundamental, que é a captação intrínseca de em tudo ver a arte, de tudo lhe parecer artístico, nobre o suficiente, para ser imortalizado em palavras, imagens fotográficas, pinturas, esculturas, digno de ser exprimido através do delírio sagrado da inspiração, materializado esse fogo espiritual da alma, sugestionado por essa mágica escrita, como dois corpos amando-se sobre o tálamo das ideias. É de absoluta justiça que se diga que poderá existir o tal ponto G, da escrita! E que tem muito a ver com o temperamento do escritor. Compreendendo conjuntamente, o manusear com certa perícia, a laboriosa arte de escrever e a fonte dos sentidos, com a sua nascente, os seus rios, os seus afluentes, a foz, e por fim, o mar. A oceânica paixão, magistral vontade que ocupa a maior parte do planeta terra, aqui a mente humana, o mar dos sentidos onde tudo vai desaguar, onde se adora a beleza do pensamento na sua esplêndida nudez, linguagem matizada de precisão e clareza, e beleza feminina, de intensa excitação espiritual que vibra no quotidiano de cada alma humana, que evoca e descreve pensamentos e sentimentos, imprimindo comoções da imaginação humana, tão realistas quanto obscuras, abusando da catarse mental, como um processo comparado ao divã do psicanalista. Muitas vezes essa escrita, essa criação artística literária, é a maior arma contra a doença, qualquer doença, distúrbio psíquico ou fisíco, que nos dá a força necessária para nos sublimarmos desse instante decadente da nossa momentânea vida. Mas voltando ao ponto G, cujo nome vem do ginecologista alemão Ernest Grafenberg, diz-se que se for estimulado de forma lenta e profunda, fazendo vibrar, pulsar, pode provocar um orgasmo intenso e delirante. Desencadear a estimulação do intelecto, decorrente dessa forma lenta e profunda, compenetrada, em que o escritor se masturba de palavras, de metáforas, de eufemismos, de hipérboles, etc., desses vícios, engenho e arte, figuras essas que são um magnifíco recurso para velar pensamentos pornográficos, enfeitando-os com visualidades duma linguagem que lhe sai das profundezas da sua alma, levando-o à ascensão emocional que admite o abuso dessa autognose fazendo-o vibrar de vida. A escrita e o ponto G, são essa litania caprichosa que todo o escritor procura. Obcecado pela superior preocupação literária que consiga impressionar, emocionar, impregnar, deleitar, atrair qualquer leitor, ela deve deslizar suavemente, sem suspeições de plágio, sem rupturas de sucesso, nem pecando pela dureza e inflexibilidade das suas formas, aquém de um golpe de misericórdia, cuja dolência morna, tire todo o prazer de uma leitura sadia e a sua liberdade estrutural das palavras, sem interferir, sem infringir, sem recalcar as regras básicas de uma boa escrita emocional. A meu ver, o ponto G é simplesmente a harmonia das palavras com o pensar, numa afectuosa cumplicidade de sentidos e imaginação. Um sem o outro não existem, e a criação, é como dizem os franceses, esse «enjambement», fusão, enlace, abraçar de dois corpos que acontece quando o casamento é perfeito, entre o pensar e a palavra, temas soltos, livres, que repudiem as leis da lógica, dando azo a tanta ficção, fantasia, a magia absoluta e infinita, com todo o seu esplendor de uma escrita criativa e feliz, que tantos ousaram alcançar ao tocarem no seu ponto G, fazendo-o de uma forma maleável, vibrante, pulsante, adaptada a todas as combinações do ritmo e da harmonia e exigências temperamentais de cada escritor. Essa criação não é mais do que a sublimação de todos os sentidos, despertos e estimulados, por essa maravilhosa e engenhosa ferramenta, que é o nosso pensar imaginativo. Esqueça-se um pouco de sexo e procure dentro da sua alma o seu ponto G da escrita! Ana Bárbara de Santo António

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