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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

«Há poucos dias passaram-se vinte anos da nossa vida...»

Sem ódios, sem discussões, sem desabafos absurdos, sem confissões promiscuas, sem olhares ocultos, sem medos nem infidelidades nuas e cruas, sem palavras aguçadas, apenas um cansaço maduro, uma aptidão para o abandono e a necessidade de vaguear por uma solidão masoquista e o sadismo de rasgar sentimentos e emoções que apenas nos tactearam a pele sem verdadeiramente as sentirmos, sem a necessidade de amar e ser amado, atendendo ao odor do arquétipo imaginado de felicidade conjugal. Acabou-se a nossa vida a dois. ainda que não haja uma razão válida para que isso tivesse acontecido, vê-se na nossa flor da pele o verdete que os anos deixaram, tornando-nos verdes de uma mágoa profunda, por tudo aquilo que nada fizemos pelos dois. Afundamo-nos num egoismo patético e numa apatia irreal, sem darmos por isso, contraímos o vírus da destruição do socialvelmente humano, o terrível desinteresse das normas da sociedade comum, tentamos quebrar o quotidiano ordinário para transcendermos para uma utopia insensata e desastrosa. Não tivemos tempo para dar as mãos e conduzirmos os sentidos, o amor, o carinho, o respeito, a ternura, através do nosso tacto, fizemos amor como se abre uma torneira e se rega a relva seca de um jardim, deixando correr a água livremente sem contenção, tentámos falar de nós, dos outros e de tudo, transformando cada palavra num tijolo duro, erguendo um muro cada vez mais alto, deixamos cada dia temendo a noite e o absurdo de estarmos juntos num leito instável, afagando a nossa alma cansada de tudo, o nosso corpo esvaziando uma paixão de meras ilusões. Faltamos a todas as promessas que esquecemos de jurar pelos dois, falhamos o encontro com Deus, atiramo-nos numa insaciável vontade de nada fazer e assim morremos a necessidade de sermos dois num só. Construímos um lar, uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um fogão, um frigorifico, um sofã, uma televisão, contraímos um crédito e juntamos-lhe a máquina de lavar-roupa, o micro-ondas, a máquina de lavar-loiça, a arca congeladora, mais os copos de cristal, o serviço de jantar, os talheres de prata e tudo mais que penetrou na nossa intimidade. Fiz rendas para as toalhas de banho, bordei toalhas de mesa, comprei toalhas em Marrocos mas esqueci-me de tecer no tear da nossa vida a manta da nossa união e do nosso sossego. Os dois travamos uma luta de silêncios e fomos vencidos pelo marasmo da razão silenciada por tudo em puro desassossego. Nada construímos de sólido e seguro, não tivemos filhos, nada projectamos para o futuro e nada negamos a nós mesmos, apenas deixamos ruir os sonhos que viviam na nossa alma destruídos por um vendaval de emoções fugidas ao coração. Agora cada um de nós seguirá o caminho que vier ao seu encontro, e nada de promessas, nada de enganos, sem um único sonho por companheiro, apenas uma morna nostalgia a namorar uma alma cansada de tudo, magoada de negro, apenas um amor e uma dor do tamanho do mundo, por este fracasso de vida e a única certeza de uma solidão que muito nos vai fazer sofrer aos dois de saudades de tudo. Foi assim, e agora vamos ser felizes para sempre... a solo. Porque eu nunca senti vontade de ter um companheiro e com vinte anos sentia-me muito bem sózinha e porque tu, com quarenta anos, vestias bem a pele de lobo solitário, sendo assim, dificilmente os dois seriamos os protagonistas de um conto de fadas, pois está agarrada a nós esta estranha forma de vida e apenas num momento dormente os dois tentamos sacudi-la do nosso ser, respondendo a um chamado das profundezas da alma e agora, passados que foram todos estes anos, revelado que é o nosso fado, sem lar, sem emprego, sem amigos, sós e sozinhos, que vamos fazer das nossas vidas, do nosso fado oculto, que é que vamos fazer de nós, que outras lutas nos esperam, que caminhos vamos percorrer, que sentido vamos dar à nossa existência, onde vamos, onde vai o nosso amor? Nem toda a experiência que Kaufman aprisionou no seu último e recente livro, nos serve para enxotar os nossos medos, os vazios que a cada instante tomarão conta das nossas lembranças, o sentimento impotente de acordar só e a necessidade de se sentir sozinho com o outro mesmo ao lado, habituados a uma saudade e a uma solidão entranhadas na nossa pele como sal das nossas lágrimas tombadas por uma mágoa furtiva e teimosa das nossas vidas fugidas dos sentimentos. Apenas uma esperança aflorará a alma gentil de cada leitor porque o desespero é a última causa do homem. Não fomos feitos um para o outro, fomos feitos para ficarmos sozinhos. in "A PASSAGEM DAS MÁGOAS" romance 1998

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